Filtragem revela controle total e exploração de médicos cubanos em Angola

Um documento vazado revela o controle político e a exploração laboral de médicos cubanos em Angola sob a corporação ANTEX S.A. Retenções salariais, restrições de movimento e violações de direitos são alguns dos abusos denunciados.

Cuba e Angola mantêm acordos de envio de pessoal de saúde sob um sistema denunciado como exploração laboral e controle político.Foto © Sora (Imagem gerada por IA)

Em hospitais e centros de saúde de Angola, médicos cubanos vivem sob um regime de controle que começa no momento em que assinam um contrato em Havana e se prolonga até o último dia de sua missão.

A prova está em um documento interno da corporação estatal ANTEX S.A., obtido por Martí Notícias, que descreve um sistema de retenção de salários, confisco de documentos e vigilância sobre a vida privada que especialistas qualificam como exploração laboral.

O contrato, vigente e assinado com um profissional de saúde, estabelece um salário de 598 dólares mensais, mas no terreno são entregues apenas 200 em kwanzas (moeda oficial de Angola), a uma taxa de câmbio imposta pela própria empresa, enquanto o restante fica em uma conta em Cuba sob controle da ANTEX.

Esse dinheiro pode ser descontado para pagar "indenizações" ou "medidas disciplinares", e só é recebido integralmente ao final da missão se não houver sanções pendentes.

As normas também regulam o mais íntimo, e é que os cooperantes devem entregar seu passaporte dois meses antes do vencimento do visto, pedir permissão para viajar dentro de Angola, abster-se de casar ou reconhecer filhos no país e comunicar qualquer relação “estável” com locais ou estrangeiros.

No apartado 13.1.b, de acordo com Martí Noticias, os signatários devem comprometer-se a “manter um comportamento ético, político, social, trabalhista e moral revolucionário” e a “contribuir para o prestígio da Revolução”, transformando o acordo de trabalho em uma declaração de fidelidade política.

Segundo juristas e especialistas, o contrato reúne vários indicadores de trabalho forçado definidos pela Organização Internacional do Trabalho, o que poderia ser considerado tráfico de pessoas para fins de exploração laboral, disse a jornalista Annarella Grimal a Mario J. Pentón de Martí Notícias.

Não é a primeira vez que as condições em Angola geram indignação. Em fevereiro, médicos cubanos denunciaram ao CiberCuba que a ANTEX havia cortado pela metade o estipêndio mensal para alimentação “por falta de liquidez”, deixando-os com apenas 100 dólares em mãos para viver, enquanto seus chefes de missão se hospedavam em hotéis e tinham todas as suas necessidades atendidas.

No entanto, essa filtragem ocorre exatamente quando os Estados Unidos intensificaram sua ofensiva contra o programa de exportação de serviços médicos de Havana.

Na quarta-feira, o secretário de Estado, Marco Rubio, anunciou sanciones migratórias contra funcionários de Cuba, Brasil, países africanos, Granada e ex-dirigentes da Organização Pan-Americana da Saúde, acusados de participar em um esquema global de trabalho forçado.

Rubio qualificou programas como Mais Médicos no Brasil e outras brigadas como “fraudes diplomáticas” e alertou os países que contratam pessoal sob essas condições que “deveriam pensar duas vezes”.

Washington e organismos internacionais têm denunciado há anos que o regime cubano retém grande parte do salário de seus profissionais, restringe sua mobilidade e os utiliza como ferramenta de influência política.

Apesar das críticas, o chanceler Bruno Rodríguez afirmou que Cuba não abrirá mão destas missões, que atualmente empregam mais de 24.000 trabalhadores em 56 países, e as defendeu como “solidárias” e “salvadoras de vidas”.

Para os afetados, como os médicos em Angola, essas palavras contrastam com uma realidade de controle rígido, precariedade e promessas não cumpridas.

Perguntas frequentes sobre a exploração de médicos cubanos em missões internacionais

Como se controla os médicos cubanos em missões no exterior?

Os médicos cubanos estão sob um regime de controle rigoroso que inclui a retenção de passaportes, restrições de mobilidade e a obrigação de manter um comportamento político alinhado ao regime cubano. Além disso, grande parte de seu salário é retida pela corporação estatal ANTEX S.A.

Quanto dinheiro os médicos cubanos realmente recebem em Angola?

Embora o contrato estipule um salário de 598 dólares mensais, os médicos recebem apenas 200 dólares na moeda local, enquanto o restante é retido em uma conta em Cuba sob controle da ANTEX. Esse valor pode diminuir ainda mais por deduções de "indenizações" ou "medidas disciplinares".

Quais são os efeitos das sanções dos Estados Unidos sobre as missões médicas cubanas?

Estados Unidos impôs sanções migratórias a funcionários cubanos e de outros países envolvidos nessas missões, acusando-os de participar de um esquema de trabalho forçado. As sanções buscam pressionar o regime cubano para que cesse essas práticas e garanta direitos trabalhistas justos aos profissionais.

Como responde o regime cubano às acusações de exploração laboral?

O regime cubano defende as missões médicas como programas solidários e salvadores de vidas. Apesar das críticas e sanções internacionais, o governo cubano afirma que continuará com essas missões, que considera uma fonte importante de renda e projeção internacional.

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Equipe Editorial da CiberCuba

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