Faculdade de Biologia da UH se distancia do presidente da FEU e apoia a protesto contra a ETECSA: "Representamos o sentimento do povo"

Os jovens apoiam a greve acadêmica e pedem para se reunir com uma representação do Conselho de Ministros: "Nossa voz não está financiada, é crítica e legítima".

Alunos da Faculdade de Biologia da UHFoto © Instagram / feu fbi e psicologia.uh

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A crescente rebelião universitária em Cuba ganha um novo capítulo: os alunos da Faculdade de Biologia da Universidade de Havana se distanciam oficialmente do presidente nacional da Federação Estudantil Universitária (FEU), Ricardo Rodríguez González, e apoiam os protestos contra as tarifas impostas pela ETECSA.

Em um comunicado lido de uma sala da Faculdade, os representantes estudantis de Biologia afirmaram que o presidente da FEU "não representa fielmente nossas opiniões nem reflete a voz da nossa comunidade estudantil".

Também reafirmaram seu apoio às declarações emitidas anteriormente pela Faculdade de Matemática e Computação (MATCOM), que se mantém em greve acadêmica indefinida.

"Representamos o sentir genuíno do povo ao qual pertencemos", destaca o documento, em clara confrontação com as tentativas oficiais de silenciar as expressões críticas dentro das universidades.

Biologia contra a narrativa oficial

Em sua declaração, os jovens refutaram categoricamente as acusações feitas por meios oficialistas e pelo próprio Rodríguez, que, ao intervir na Mesa Redonda na segunda-feira, atribuiu os protestos à suposta manipulação de "inimigos da revolução".

O Conselho Ampliado rejeitou esse discurso, afirmando que suas posições "não estão influenciadas nem manipuladas por agentes externos", e denunciou as tentativas do governo de classificar suas vozes como falsas ou financiadas do exterior.

"Constituem a reunião autêntica dos pensamentos críticos e o compromisso social dos estudantes de cada faculdade", enfatiza o texto.

Crítica direta à ETECSA: "Nenhuma crise justifica a insensibilidade"

Além do conflito dentro da FEU, o comunicado de Biologia emite uma condenação firme às medidas da ETECSA, ao afirmar que "aumentam as desigualdades sociais, limitam direitos fundamentais como a comunicação e afetam o acesso de estudantes e profissionais a recursos digitais essenciais".

Os estudantes reconhecem as dificuldades econômicas do país, mas alertam que "nenhuma crise justifica a insensibilidade em relação às necessidades do povo", e acusam a ETECSA de se afastar do princípio martiano de agir "com todos e para o bem de todos".

Propostas da sala de aula: diálogo com o Governo e equipe multidisciplinar

O Conselho da FEU em Biologia não se limitou à crítica. Em sua declaração, solicitaram um diálogo direto com o Conselho de Ministros, em busca de "um intercâmbio bilateral construtivo" onde os estudantes possam ser ouvidos como atores legítimos na construção de soluções.

Além disso, apoiaram a iniciativa da reitora da Universidade de Havana de criar uma equipe multidisciplinar composta por todas as faculdades, com o objetivo de analisar a crise atual e propor alternativas viáveis.

TEXTO ÍNTEGRO DA DECLARAÇÃO DA FEU DA FACULDADE DE BOOLOGIA DA UNIVERSIDADE DE HAVANA

Universidade de Havana

Faculdade de Biologia

Comunicado Oficial do Conselho Ampliado da FEU – Faculdade de Biologia

Aula 4ª, Faculdade de Biologia – 4 de junho de 2025, 9:00.

Após uma ampla consulta com os estudantes da nossa Faculdade, o Conselho Ampliado da Federação Estudantil Universitária (FEU) se reuniu para expressar o sentimento da maioria dos nossos jovens universitários.

Manifestamos nosso desacordo com a postura adotada pelo presidente nacional da FEU, que não representa fielmente nossas opiniões nem reflete a voz da nossa comunidade estudantil.

Respaldamos plenamente o comunicado emitido pela FEU da Faculdade de Matemática e Computação (MATCOM) através de seu canal oficial no Telegram, reconhecendo que representa o sentimento genuíno de seus estudantes. Refutamos qualquer tentativa de deslegitimar ou demeritar sua posição por meio de acusações infundadas que buscam silenciar a voz estudantil.

Representamos o sentimento genuíno do povo ao qual pertencemos, sendo a Federação Estudantil Universitária o espaço a partir do qual canalizamos nosso compromisso com as necessidades e aspirações de nossa sociedade.

Nossa opinião provém da Federação Estudantil Universitária da Faculdade de Biologia e não está influenciada nem manipulada por agentes externos à nossa organização, portanto denunciamos as declarações divulgadas em meios oficiais que qualificam nossos comunicados como falsos ou financiados do exterior, quando eles representam a reunião autêntica dos pensamentos críticos e do compromisso social dos estudantes de cada faculdade.

Rejeitamos categoricamente as medidas da ETECSA por considerá-las prejudiciais à justiça social, uma vez que aumentam as desigualdades sociais, limitam direitos fundamentais como a comunicação e afetam o acesso de estudantes e profissionais a recursos digitais essenciais. Embora compreendamos as dificuldades financeiras, nenhuma crise justifica a insensibilidade diante das necessidades do povo, o que contraria nosso princípio de agir “com todos e para o bem de todos”.

Solicitamos um intercâmbio bilateral direto com uma representação do Conselho de Ministros, com o objetivo de estabelecer um diálogo construtivo onde possamos transmitir nossas preocupações. Precisamos que nos ofereçam apoio institucional e, fundamentalmente, que nos escutem como atores legítimos na construção de alternativas que beneficiem toda a sociedade.

Apoiamo a proposta da Reitora da Universidade de Havana para a criação de uma equipe multidisciplinar com a integração de todas as faculdades a fim de oferecer soluções ótimas e analisar conjuntamente a situação atual do país".

Um rompimento institucional

A declaração de Biologia agrava a crise de legitimidade que atravessa a liderança nacional da FEU. O presidente Ricardo Rodríguez, também membro do Conselho de Estado, tem sido duramente criticado por sua resposta passiva e alinhada com o governo frente ao "tarifazo" da ETECSA.

O dirigente acusou meios independentes e os "fantasmas de opinião" de promover o "ódio" e a "traição" na universidade. "Aqui estou eu para continuar fazendo a Revolução pela qual nossos mártires morreram", disse em tom desafiador.

Na segunda-feira, na Mesa Redonda, disse que os reclames estudantis foram usados por atores externos com "muito má intenção" para distorcer a postura legítima dos universitários, que, segundo afirmou, tiveram uma atitude de respeito e diálogo.

Rodríguez defendeu que a FEU agiu "dentro da revolução" e assegurou que houve múltiplos espaços de intercâmbio entre estudantes, diretores da ETECSA, representantes do Partido Comunista e ministros para canalizar as inconformidades.

Na segunda-feira, a Faculdade de Filosofia, História, Sociologia e Trabalho Social (Humanidades) emitiu um comunicado no qual exigiu a renúncia imediata do dirigente, por considerá-lo incapaz de representar os interesses dos estudantes na atual crise.

En sua declaração, a FEU qualificou de "conformista, passiva e pouco crítica" sua atitude frente ao descontentamento gerado pelas novas tarifas da ETECSA, que excluem do direito de acesso à Internet milhões de cubanos que não têm dólares.

"Nossos estudantes optam por não confiar em compromissos simbólicos e não vinculativos... escolhem envolver-se, participar e agir", diz o texto.

Esta mobilização sem precedentes dentro das universidades cubanas responde às novas restrições impostas pela ETECSA, que limita o serviço em pesos cubanos enquanto oferece planos mais amplos em dólares.

Diante da indignação generalizada, a ETECSA anunciou como resposta parcial um pacote adicional de 6 GB por 360 CUP, exclusivamente para estudantes universitários, junto com o acesso gratuito a mais de 40 sites educativos.

Mas os universitários rejeitam pacotes de dados móveis apenas para eles e enfatizam que não buscam privilégios setoriais, mas sim justiça social e equidade no acesso à Internet para todos os cidadãos.

Em meio ao crescente clima de tensão nas universidades cubanas, o secretário de coordenação provincial da FEU de Havana, José Alberto Almeida Cabrales, assegurou que o movimento estudantil não resultará em caos.

Em um comunicado, Almeida defendeu a via do consenso e do debate estruturado dentro das universidades.

"Somos revolucionários. Queremos soluções em paz e com todos. A FEU nunca permitirá que se estimulem desavenças banais entre seus membros", declarou, em aparente resposta às crescentes greves estudantis e pronunciamentos públicos de várias faculdades.

O que começou como uma queixa pontual sobre as tarifas, transformou-se em uma revolta estudantil sem precedentes na Cuba pós-revolucionária, que coloca em pauta não apenas a luta pelo acesso à Internet, mas também a crise de representação e a urgência de uma nova liderança universitária.

Perguntas frequentes sobre os protestos estudantis e as medidas da ETECSA em Cuba

Por que os estudantes da Universidade de Havana estão protestando contra a ETECSA?

Os estudantes estão protestando contra as novas tarifas impostas pela ETECSA que limitam as recargas a 360 CUP mensais e obrigam a pagar preços altos por dados adicionais. Consideram que essas medidas restringem o acesso à internet, afetando seu desenvolvimento acadêmico e a equidade social.

Qual é a postura da Faculdade de Biologia da Universidade de Havana em relação ao presidente da FEU?

A Faculdade de Biologia se distanciou do presidente da FEU, Ricardo Rodríguez González, afirmando que não representa as opiniões nem a voz de sua comunidade estudantil. Os estudantes apoiaram os protestos contra as tarifas da ETECSA e se uniram a outras faculdades em suas reivindicações.

Quais propostas os estudantes de Biologia fizeram para abordar a crise com a ETECSA?

Solicitaram um diálogo direto com o Conselho de Ministros para encontrar soluções construtivas e apoiaram a criação de uma equipe multidisciplinar com todas as faculdades para analisar a crise e propor alternativas viáveis.

Qual é o efeito das novas tarifas da ETECSA nos estudantes universitários?

As novas tarifas limitam significativamente o acesso à internet para os estudantes, afetando sua capacidade de acessar plataformas educativas, comunicar-se com professores e realizar pesquisas. Isso gera uma desigualdade no acesso à informação e limita o desenvolvimento acadêmico.

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