Faculdade de Humanidades da UH exige renúncia do presidente da FEU após protestos contra tarifas da ETECSA

A Faculdade de Humanidades da Universidade de Havana exigiu a renúncia do presidente da FEU, Ricardo Rodríguez, por sua inação diante do aumento das tarifas da ETECSA, desencadeando uma crise de representação estudantil.

Ricardo Rodríguez González, presidente da FEUFoto © Revista Alma Mater

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A crescente onda de rejeição ao aumento de tarifas da Empresa de Telecomunicações de Cuba (ETECSA) escalou para um novo nível de confrontação dentro do próprio movimento estudantil.

Este 3 de junho, a Faculdade de Filosofia, História, Sociologia e Trabalho Social (FEU-FHS) da Universidade de Havana emitiu um sem precedentes no qual exigiu a renúncia imediata do presidente nacional da Federação Estudantil Universitária (FEU), Ricardo Rodríguez González, por considerar que ele tem sido incapaz de representar os interesses do estudante na atual crise.

Captura de tela Facebook / Reclamo Universitário

Em sua declaração, a FEU-FHS qualificou de “conformista, passiva e pouco crítica” a atitude de Rodríguez González diante do mal-estar gerado pelas novas tarifas impostas pela ETECSA, que excluem do direito de acesso à internet milhões de cubanos que não recebem seus salários em dólares nem têm familiares no exterior que possam custear sua conectividade.

Os estudantes também denunciaram a falta de respostas claras por parte dos diretores da empresa após um encontro com autoridades universitárias e exigiram a revogação total das medidas ou, pelo menos, a eliminação do limite de 360 CUP para recargas mensais.

“Nossos estudantes optam por não confiar em compromissos simbólicos e não vinculativos... escolhem se envolver, participar e agir”, destacou o comunicado, que também expressou solidariedade às posições manifestadas por outras faculdades como Psicologia, Comunicação e Matemática e Computação (MATCOM), esta última em greve acadêmica desde segunda-feira.

O documento de Humanidades representou a declaração mais frontal e estruturada da atual mobilização universitária, e não apenas elevou o tom das críticas em relação à ETECSA, mas também apontou para uma crise de legitimidade dentro da própria FEU nacional.

Rodríguez González, quien foi eleito em julho de 2024 como membro do Conselho de Estado —o órgão de maior poder institucional em Cuba—, tem estado no centro do escrutínio.

Seu papel como presidente nacional da FEU e sua relação com o aparelho estatal têm sido alvo de questionamentos por parte de estudantes que consideram que ele colocou a lealdade política à frente da defesa de seus representados.

Este lunes, Rodríguez González participou de uma emissão especial da Mesa Redonda televisiva dedicada a explicar as medidas da ETECSA e suas novas "ofertas" para universitários. Sua intervenção foi interpretada por muitos como um alinhamento com o discurso oficial, centrado nas justificativas técnicas e econômicas da empresa, sem dar espaço ao verdadeiro descontentamento do estudante.

Captura de tela Facebook / Ricardo Rodríguez González

No dia seguinte, o presidente da FEU publicou uma extensa mensagem em redes sociais onde defendeu o diálogo “dentro dos espaços legítimos da Revolução” e acusou “inimigos” e “fantoches de opinião” de manipular as inquietações estudantis.

“Não podemos permitir que nos arranquem a história dos nossos”, escreveu, em alusão ao legado da FEU como organização revolucionária, uma verdade histórica manipulada pelo regime que se construiu a partir de 1959. Em sua publicação, denunciou o que considerou uma campanha para desestabilizar a tranquilidade universitária.

No entanto, as declarações de Rodríguez não conseguiram aplacar o descontentamento. A FEU de Humanidades afirmou em seu pronunciamento que a mobilização estudantil é legítima, autônoma e profundamente política. Em suas palavras, não se trata apenas de um pedido por acesso à internet, mas pelo direito de ser ouvido, representado e respeitado.

O conflito ultrapassou os limites do acesso à tecnologia e se tornou uma disputa aberta pela representação juvenil em Cuba.

Em um país onde a juventude foi historicamente instrumentalizada como pilar de legitimidade política, o questionamento à cúpula da FEU apresenta um desafio inédito.

Por primeira vez em anos, estudantes de uma faculdade emblemática como Humanidades exigem publicamente a renúncia de seu máximo representante, agora também figura do Conselho de Estado que preside Miguel Díaz-Canel.

Enquanto outras faculdades continuam a se somar ao rejeição do aumento de tarifas e crescem as vozes críticas dentro e fora da Universidade de Havana, a direção nacional da FEU enfrenta uma crise de autoridade e confiança sem precedentes.

O futuro dessa confrontação ainda é incerto, mas algo ficou claro: a nova geração de estudantes está disposta a defender seus direitos e sua voz, mesmo que isso implique questionar aqueles que, até agora, falavam em seu nome com palavras ditadas pelo poder do regime totalitário.

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