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México se tornou uma parada cada vez mais frequente para os cubanos que buscam escapar da crise que assola a ilha. Em meio a um êxodo que não cessa, os governos de Andrés Manuel López Obrador (2018-2024) e Claudia Sheinbaum, conhecidos como a Quarta Transformação (4T) e aliados do regime de Miguel Díaz-Canel, duplicaram o número de vistos concedidos a cidadãos cubanos, conforme revelou o jornal El Sol de México.
De acordo com cifras oficiais da Secretaria de Relações Exteriores citadas por esse meio, durante o governo de López Obrador foram emitidos 244 mil 896 vistos para cubanos, mais do que o dobro dos 122 mil concedidos durante a administração de Enrique Peña Nieto (2012-2018) e, até agora, no mandato de Claudia Sheinbaum, já somam mais de 43 mil.
No entanto, por trás desses números existe uma realidade mais complexa. Parte do fluxo cubano para o México ocorre através de convênios estaduais que trouxeram ao país asteca mais de 3.600 médicos cubanos, assim como delegações esportivas, acadêmicas e científicas.
Nestes casos, quando os viajantes possuem passaporte oficial e sua estadia é inferior a 90 dias, não necessitam de visto; mas quando os acordos implicam estadias prolongadas ou trabalho remunerado, são solicitados documentos migratórios específicos.
Isso significa que o total de vistos emitidos não reflete necessariamente um aumento equivalente de migrantes cubanos que chegam por conta própria, mas também a ampliação de uma rede de cooperação política e institucional entre os dois governos.
A afinidade entre Havana e a 4T se traduziu não apenas em contratos médicos milionários, mas também incluiu o envio de petróleo, colaboração educacional e um apoio diplomático constante diante do embargo americano.
Para o analista Eduardo Bueno, citado por El Sol de México, essa proximidade influenciou a percepção de que “o México é mais aberto e menos restritivo com os cubanos”, o que, por sua vez, alimenta as expectativas migratórias.
Restrições e facilidades que coexistem
A par do aumento de vistos, o México implementou medidas mais rigorosas para controlar os fluxos migratórios. Desde 22 de outubro de 2023, o governo mexicano exige que os viajantes em trânsito aeroportuário apresentem um “visto de visitante sem permissão para realizar atividades remuneradas”, mesmo que apenas façam escala no país.
Segundo informou o Consulado do México em Havana, a norma se aplica a todos os estrangeiros que necessitem de visto para ingressar no país, com a exceção de residentes permanentes em nações como Estados Unidos, Canadá ou os países do Espaço Schengen.
Ao mesmo tempo, até 2024, o México havia concedido quase 50 mil vistos humanitários a cubanos desde 2022, segundo dados da Secretaria de Governança. Esses documentos permitem trabalhar e permanecer por um ano no território mexicano, e são uma alternativa temporária para aqueles que não podem retornar à ilha.
Dos mais de 65 mil migrantes cubanos detidos no México entre 2022 e 2023, apenas unos 6 mil foram devolvidos a Cuba, enquanto a maioria recebeu “ofícios de saída” ou permissões humanitárias para continuar seu caminho rumo ao norte. A esse panorama se somam as restrições migratórias impostas pela atual administração de Donald Trump nos Estados Unidos.
Segundo dados da Comissão Mexicana de Ajuda a Refugiados (Comar), os pedidos de asilo de cubanos cresceram 115% entre 2021 e 2024, passando de 8.248 para 17.487 solicitações. Paralelamente, as travessias irregulares pela fronteira sul aumentaram em 52%. Muitos cubanos chegam exaustos, sem documentos e com o sonho de seguir rumo ao norte.
“México se tornou uma espécie de respiro intermediário”, comenta Bueno. “Para milhares de cubanos, representa a possibilidade de trabalhar ou esperar com dignidade enquanto buscam uma saída definitiva da crise que os expulsou.”
Nas ruas de Tapachula, Cancún ou Cidade do México, o sotaque cubano já faz parte da paisagem. Alguns abrem pequenos negócios de comida ou barbearias; outros sobrevivem vendendo produtos nos semáforos ou aguardando uma resposta ao seu pedido de refúgio. Todos compartilham o mesmo ponto de partida: uma ilha que os impulsionou a buscar futuro em outro lugar.
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