Sheinbaum triplica os envios de petróleo mexicano para Cuba

O governo de Claudia Sheinbaum enviou a Cuba mais do que o triplo do combustível subsidiado que o México exportou durante os dois últimos anos de López Obrador, segundo a MCCI.

Miguel Díaz-Canel e Claudia SheinbaumFoto © X / Presidência Cuba

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O governo de Claudia Sheinbaum triplicou os envios de petróleo e derivados subsidiados a Cuba em apenas quatro meses, de acordo com uma investigação publicada pelo portal Mexicanos contra a Corrupção e a Impunidade (MCCI).

A pesquisa, assinada por Verónica Ayala, detalha que entre maio e agosto de 2025, o México enviou a Cuba 58 carregamentos de hidrocarbonetos, com um valor total de 3.002 milhões de dólares, equivalentes a quase 60.000 milhões de pesos.

O volume enviado nesse período é três vezes maior do que o reportado pela Petróleos Mexicanos (Pemex) durante os dois últimos anos do governo de Andrés Manuel López Obrador, quando as exportações de combustíveis para Cuba alcançaram cerca de 1.000 milhões de dólares entre julho de 2023 e setembro de 2024.

Segundo a MCCI, todas as remessas foram realizadas pela Gasolinas Bienestar, S.A. de C.V., uma subsidiária criada pela Pemex em 2022 com o propósito de fornecer hidrocarbonetos a Cuba em condições preferenciais, uma evidência do financiamento do México ao regime cubano.

A empresa reportou perdas de 5,836 milhões de pesos em seu primeiro ano de operações, devido ao combustível concedido à ilha, o que agravou o endividamento geral da petroleira estatal mexicana.

O acompanhamento marítimo realizado pela MCCI permitiu identificar que o navio cubano Sandino, sancionado desde 2019 pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e incluído na lista negra da OFAC, tem sido utilizado para o transporte de parte desse combustível.

No dia 20 de agosto, o Sandino partiu da terminal marítima da Pemex na Laguna de Pajaritos, em Coatzacoalcos, Veracruz, e chegou sete dias depois à refinaria “Camilo Cienfuegos”, no centro-sul da ilha.

O uso de uma embarcação sancionada por Washington pode acarretar riscos diplomáticos e sanções financeiras ao governo mexicano, uma vez que a legislação americana proíbe transações com entidades incluídas na lista do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC).

Apesar disso, o Sandino manteve sua rota regular entre Havana e os portos do Golfo do México, segundo o rastreamento satelital consultado pela MCCI.

Durante o segundo quadrimestre do ano, os envios de combustível atingiram níveis inéditos. Em maio, foi registrado um carregamento avaliado em 24,6 milhões de dólares; em junho, 38 embarques que somaram 826 milhões; em julho, 11 carregamentos por 1,425 milhões de dólares; e em agosto, 8 envios avaliados em 726,7 milhões, elevando o total do período para 3,002 milhões de dólares.

Os analistas da MCCI apontam que o montante enviado a Cuba equivale ao orçamento federal completo da Secretaria de Segurança e Proteção Cidadã, liderada por Omar García Harfuch, e é quatro vezes superior ao dinheiro destinado pela Procuradoria Geral da República (FGR) para a persecução de crimes federais.

Também supera amplamente os recursos do Fundo de Aportações Múltiplas (FAM) para infraestrutura educativa básica, que dispõe de entre 13.000 e 15.000 milhões de pesos.

O valor dos hidrocarbonetos enviados por México para a ilha ultrapassa os 3.000 milhões de dólares, um montante que, segundo o relatório, é considerado "extraordinário" para uma empresa como a Pemex, que enfrenta uma das piores crises financeiras de sua história, com uma dívida superior a 100.000 milhões de dólares e dificuldades para manter sua produção interna.

Além do Sandino, o Ocean Mariner, um navio com bandeira da Libéria, foi identificado como outro dos principais transportadores de hidrocarbonetos entre o México e Cuba.

A nave partiu do porto de Tampico no dia 23 de maio com destino a Santiago de Cuba e, posteriormente, realizou pelo menos três viagens adicionais para portos cubanos como Havana, Moa e Cienfuegos, segundo registros de acompanhamento por satélite.

A maioria dos embarques partiu de Coatzacoalcos, Veracruz, embora três tenham sido realizados a partir de Tampico, Tamaulipas.

Na maioria dos casos, a empresa Coreydan, S.A., uma estatal cubana com domicilio no mesmo prédio da União Cuba-Petróleo (CUPET) no centro de Havana, é indicada como importadora do combustível.

Em três operações, a Secretaria de Relações Exteriores do México aparece também como importadora.

Os produtos enviados incluem petróleo cru, turbosina, óleo diesel, gasóleo e gasolina, destinados principalmente às refinarias cubanas “Ñico López” e “Camilo Cienfuegos”, ambas sob administração estatal.

O portal mexicano Contralacorrupcion.mx, que faz parte da MCCI, alerta que o aumento dos envios de combustível coincide com uma acentuação do déficit energético cubano, enquanto a ilha enfrenta uma crise prolongada de apagões, desabastecimento de petróleo e deterioração em sua rede elétrica.

Especialistas citados pelo meio consideram que a política de Sheinbaum consolida a aliança energética e política entre o México e o regime cubano, apesar dos avisos dos Estados Unidos sobre as possíveis repercussões financeiras de colaborar com entidades sancionadas pela OFAC.

Enquanto isso, os subsídios aos combustíveis enviados para a ilha aumentam a pressão sobre as finanças públicas mexicanas, e vários setores da oposição têm questionado o uso de recursos nacionais para apoiar governos estrangeiros em vez de destiná-los a programas sociais internos.

O maior valor registrado até agora ocorreu em julho de 2025, quando o México despachou onze carregamentos de petróleo e derivados com um valor superior a 1,425 milhões de dólares, o que equivale a mais de 28,000 milhões de pesos, cifra que ultrapassa o orçamento federal para a manutenção de estradas em todo o país.

A pesquisa da MCCI conclui que os envios de petróleo e derivados “transformaram a Pemex em uma ferramenta diplomática de apoio energético ao regime cubano”, enquanto a empresa enfrenta perdas crescentes e uma queda sustentada em sua produção nacional.

México se tornou um dos principais financiadores do regime cubano através do fornecimento contínuo de petróleo subsidiado. Nos primeiros meses do ano, os envios diários haviam alcançado os 196 mil barris, superando com folga os registros históricos de cooperação energética entre os dois governos.

Este fluxo sustentado colocou o México acima da Rússia como o maior fornecedor de petróleo para a ilha, consolidando seu papel como suporte econômico chave em meio à crise energética cubana, segundo dados de comércio exterior citados em relatórios especializados.

Os carregamentos se intensificaram mesmo em momentos de máxima escassez interna na rede elétrica mexicana.

A despeito da magnitude dessas operações, Pemex se negou a esclarecer os detalhes dos embarques, alegando que são “questões de segurança nacional”, o que gerou questionamentos sobre o uso de recursos públicos mexicanos para sustentar um regime estrangeiro.

As cifras confirmam que este apoio não é irrelevante: apenas entre janeiro e novembro do ano passado, as exportações energéticas mexicanas para Cuba atingiram 500 milhões de dólares, valor superior ao orçamento de várias instituições federais mexicanas e que reflete uma política de subsídio externo sustentado, sem uma contraparte econômica clara.

Perguntas Frequentes sobre o Aumento de Envios de Petróleo do México para Cuba

Por que o México aumentou os envios de petróleo para Cuba?

O aumento dos envios de petróleo do México para Cuba está inserido em uma política de consolidação de alianças energéticas e políticas entre os dois países. Durante o governo de Claudia Sheinbaum, os envios triplicaram em apenas quatro meses, alcançando um valor de 3.002 milhões de dólares. Essa estratégia busca apoiar o regime cubano em meio à sua crise energética e, ao mesmo tempo, fortalecer os laços diplomáticos entre o México e Cuba.

Quais riscos o México enfrenta pelo uso de navios sancionados para esses envios?

O uso de navios sancionados, como o Sandino, para transportar petróleo a Cuba pode acarretar riscos diplomáticos e sanções financeiras para o México. A legislação americana proíbe transações com entidades na lista da OFAC, e o emprego de tais embarcações poderia gerar tensões com os Estados Unidos.

Como afeta o aumento desses envios nas finanças da Pemex?

O aumento dos envios de petróleo para Cuba agrava a situação financeira da Pemex, que já enfrenta uma das piores crises econômicas de sua história, com uma dívida superior a 100 bilhões de dólares. A empresa tem registrado perdas significativas devido ao combustível subsidiado enviado a Cuba, o que aumenta seu endividamento e pressão financeira.

Qual é a opinião da oposição política no México sobre esses envios de petróleo para Cuba?

Diversos setores da oposição no México criticaram o uso de recursos nacionais para apoiar governos estrangeiros, em vez de destiná-los a programas sociais internos. Questionam a transparência dessas operações e a prioridade dada aos envios de petróleo em vez de atender às necessidades internas.

Qual é o papel da empresa Gasolinas Bienestar nesses envios para Cuba?

Gasolinas Bienestar, uma subsidiária da Pemex criada em 2022, é a responsável por realizar os envios de hidrocarbonetos para Cuba em condições preferenciais. A criação desta entidade visa evitar sanções internacionais e gerenciar os envios sem passar por subsidiárias que operam no sistema internacional de pagamentos, como a PMI.

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