O governo cubano assegurou nesta sexta-feira que os Estados Unidos não concretizaram nenhuma oferta de ajuda humanitária após a passagem devastadora do furacão Melissa, que deixou um panorama de destruição no leste da Ilha.
A declaração foi feita por Johana Tablada, subdiretora geral da Direção dos Estados Unidos do Ministério das Relações Exteriores (MINREX), que afirmou que a embaixada cubana em Washington se dirigiu ao Departamento de Estado “em razão do que foi publicado”, mas que até agora “os Estados Unidos não concretizaram nenhuma oferta nem responderam às perguntas” formuladas sobre a ajuda anunciada.
Segundo Tablada, outros países e organismos das Nações Unidas já fizeram propostas que estão em vias de concretização, e reiterou que "em nenhum caso o governo de Cuba impôs condições extraordinárias".
Também destacou que existem "caminhos" para que pessoas e organizações estadunidenses canalizem doações para os atingidos, embora - segundo a funcionária - essas iniciativas precisem "superar restrições impostas pelo governo dos Estados Unidos".
Da diplomacia à arrogância
As declarações de Tablada surgem após várias mensagens contraditórias e arrogantes por parte de altos funcionários cubanos que, longe de demonstrar preocupação pela tragédia humana, optaram pelo confronto político.
O embaixador de Cuba na União Europeia, Juan Antonio Fernández Palacios, desencadeou a polêmica ao qualificar a oferta de Washington como "esmolas".
No more handouts or conditions. A comunidade internacional, de forma esmagadora, já disse o que eles têm que fazer. Nada mais a dizer", escreveu Fernández Palacios, com o desprezo com que o regime costuma responder a qualquer gesto de cooperação proveniente dos Estados Unidos.
O comentário provocou indignação entre cubanos dentro e fora do país, que questionaram a falta de humanidade do governo e sua decisão de priorizar a retórica política em detrimento do sofrimento do povo.
Uma ajuda condicionada apenas pela política
A polêmica surgiu depois que o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio anunciou a disposição de Washington para oferecer ajuda humanitária imediata e sem intermediários ao povo cubano.
"Estamos preparados para oferecer ajuda humanitária imediata ao povo de Cuba afetado pelo furacão", expressou.
Em um comunicado, o Departamento de Estado precisou que existem isenções legais para doações privadas de alimentos, medicamentos e suprimentos de emergência, e instou aqueles que desejam colaborar a entrar em contato diretamente com o escritório de ajuda humanitária a Cuba.
Posteriormente, publicou uma guia oficial que detalha as licenças e isenções que permitem enviar alimentos, medicamentos e suprimentos de emergência para a ilha, apesar do embargo vigente.
A primeira reação do regime, através do vice-ministro de Relações Exteriores, Carlos Fernández de Cossío, foi menos confrontativa.
Em uma mensagem divulgada no X, confirmou que Havana estava “em contato” com o Departamento de Estado para conhecer os detalhes da oferta e saber "como e de que maneira estão dispostos a ajudar".
No entanto, as publicações posteriores dos altos funcionários do Partido Comunista e do Ministério das Relações Exteriores marcam uma postura de rejeição política aberta.
O secretário de Organização do Partido Comunista, Roberto Morales Ojeda, qualificou de "indigno" a oferta americana e assegurou que, se houvesse verdadeira vontade de ajudar, “teriam levantado o criminoso bloqueio e retirado Cuba da lista de países patrocinadores do terrorismo”.
Por sua parte, a vice-ministra de Relações Exteriores, Anayansi Rodríguez Camejo, afirmou que se Washington tivesse "alguma mínima preocupação com o povo cubano", deveria "suspender ou fazer exceções humanitárias ao bloqueio" diante dos danos causados pelo furacão.
Essas posturas, reiteradas inúmeras vezes desde os mais altos níveis do regime, contrastam com o silêncio do chanceler Bruno Rodríguez, que até agora não fez nenhuma declaração sobre a ajuda oferecida pelos Estados Unidos nem sobre a dramática situação dos afetados.
Triunfalismo oficial e realidade em ruínas
Enquanto os funcionários do MINREX trocam comunicados e reproches, o leste cubano continua mergulhado no caos.
Em Santiago de Cuba, Holguín e Granma, centenas de comunidades permanecem isoladas, com moradias destruídas, colheitas devastadas e hospitais sem suprimentos básicos.
No entanto, nos meios estatais controlados pelo Partido Comunista, o discurso oficial continua sendo o mesmo de sempre: "tudo está sob controle" e "ninguém ficará desamparado".
Uma retórica que choca com a realidade de milhares de pessoas que perderam tudo e sobrevivem, mais uma vez, sem apoio institucional nem recursos.
O governo insiste em culpar o embargo por todos os males, mas o desastre humanitário de Melissa revela algo muito mais profundo: a ruína do próprio sistema, incapaz de prever, organizar ou proteger sua população frente aos desastres naturais.
A soberba não alimenta nem reconstrói
Os Estados Unidos, por sua vez, reiteraram que sua intenção é apoiar diretamente o povo cubano, sem passar pelas mãos do regime.
"Enquanto o embargo permanece em vigor, o governo dos EUA prioriza o apoio humanitário ao povo cubano", destaca o comunicado do Departamento de Estado.
Mas para Havana, a "soberania" continua sendo o argumento favorito para justificar a paralisia e opta por reavivar o discurso do confronto.
Em vez de permitir que a ajuda chegue diretamente às comunidades afetadas, o governo prefere manter o controle absoluto sobre qualquer envio de suprimentos, mesmo que isso custe a fome e a dor de seu povo.
Assim, enquanto as famílias do leste esperam colchões, medicamentos e alimentos, os funcionários do regime discutem conceitos ideológicos e acusam Washington de ingerência.
Mais uma vez, a tragédia expõe a realidade do poder em Cuba: um Estado que fala de dignidade enquanto deixa seu povo abandonado entre os escombros.
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