La Empresa de Telecomunicaciones de Cuba S.A. (ETECSA), único fornecedor de serviços de telecomunicações na ilha, tem estado no centro da polêmica após o recente aumento das tarifas de internet móvel implementado na última sexta-feira.
A presidenta da companhia, Tania Velázquez Rodríguez, compareceu na televisão estatal no dia seguinte para justificar o aumento, atribuindo-o à perda de 60% da receita devido a fraudes nas recargas internacionais.
No entanto, a pergunta que muitos cubanos se fazem é: o que a ETECSA fez com os milhões de dólares obtidos ao longo dos anos pela exportação de serviços de telecomunicações?
As dúvidas e suspeitas da cidadania têm sua raiz na absoluta opacidade com que opera a ETECSA, uma característica que é compartilhada com o restante das instituições do Estado cubano.
A empresa, por ser um monopólio controlado pelo governo, não presta contas públicas nem apresenta relatórios detalhados sobre sua gestão financeira, investimentos ou prioridades orçamentárias.
Essa falta de transparência alimenta a desconfiança popular e abre espaço para especulações sobre o verdadeiro destino das receitas em divisas, especialmente em um contexto de desinvestimento estatal agudo, crescente deterioração dos serviços, preços impagáveis para a maioria e uma conectividade precária que não condiz com os recursos arrecadados ao longo dos anos.
Ingresos milionários e gastos mínimos
Entre 2005 e 2019, Cuba recebeu mais de 21.000 milhões de dólares por serviços de comunicação, computação e informação, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) citados por elTOQUE com base em uma investigação de YucaByte. Isso representa uma média de 1.438 milhões de dólares por ano.
No entanto, nesse mesmo período, o governo cubano gastou apenas 1,975 milhões de dólares em equipamentos de comunicação, o que equivale a menos de 10% da receita obtida.
Por sua parte, como destacou o economista Pedro Monreal, a Oficina Nacional de Estatísticas e Informação (ONEI) informou que em 2020 foram arrecadados 807 milhões de dólares com a exportação de serviços de telecomunicações. Desde então, as receitas caíram drasticamente: 159 milhões em 2021, 128 milhões em 2022 e 112 milhões em 2023.
Esta queda de 86% nas exportações afetou gravemente a capacidade de investimento da ETECSA. A empresa reconheceu publicamente que não dispõe mais de divisas para manter o ritmo de investimentos tecnológicos que mantinha até 2022.
Investimentos em infraestrutura: Cabos submarinos e radiobases
A ETECSA mencionou que as receitas em divisas dos últimos anos permitiram construir a atual rede de telecomunicações, incluindo dois cabos submarinos, 8 milhões de celulares e mais de 5.600 estações rádio-base.
O primeiro cabo, ALBA-1, foi implantado em 2011 e colocado em operação em 2013, com um custo de 70 milhões de dólares, financiado em 60% por Venezuela e em 40% por Cuba, segundo Wikipedia.
O segundo cabo, ARIMAO, iniciou seu desenvolvimento em dezembro de 2022 em colaboração com a empresa francesa Orange S.A. Embora não tenham sido divulgados números oficiais sobre seu custo total, um dossiê citado por elTOQUE estimou que a instalação na ilha francesa da Martinica custou 1,2 milhões de euros.
Em relação às radiobases, em maio de 2024 o diário oficialista Juventud Rebelde estabeleceu o preço de instalação de uma em 100.000 dólares. Com 5.600 radiobases, o investimento total seria de aproximadamente 560 milhões de dólares.
Desvio de receitas para outros setores e dolarização encoberta
Durante sua comparecimento, Velázquez Rodríguez admitiu que ETECSA não decide o destino de uma parte de suas receitas, uma vez que elas costumam ir para outros setores. No entanto, ele não especificou quais são esses setores nem em que o dinheiro é gasto.
Essa falta de transparência gerou críticas e suspeitas sobre o uso dos milhões de dólares obtidos pela empresa. Embora a empresa negue que haja uma dolarização dos serviços, essas medidas afetam principalmente os cubanos que não têm acesso a moedas estrangeiras.
A vice-presidente Comercial da ETECSA, Lidia Esther Hidalgo Rodríguez, confirmou que quase metade dos usuários será afetada por essas novas medidas, o que aprofunda a desigualdade econômica e limita a conectividade de uma grande parte da população.
Apesar de ter gerado receitas milionárias com a exportação de serviços de telecomunicações, a ETECSA enfrenta uma crise financeira que afetou a qualidade do serviço e levou à implementação de medidas impopulares.
A falta de transparência sobre o destino das receitas e a priorização da captação de divisas em detrimento do bem-estar dos cidadãos geraram descontentamento e questionamentos sobre a gestão da empresa estatal.
A pergunta continua no ar: o que a ETECSA fez com seus milhões de dólares em receitas?
Arquivado em:
