O arquiteto cubano Abel Tablada convocou a Assembleia Nacional do Poder Popular (ANPP) a fornecer respostas sobre o destino das receitas multimilionárias geradas na última década pela estatal e única Empresa de Telecomunicações de Cuba (ETECSA), em decorrência do aumento das tarifas que gerou uma onda de descontentamento entre os cidadãos.
Tabalada reconheceu que a empresa precisa de divisas para sustentar sua infraestrutura, mas foi enfático ao afirmar que pertence ao Grupo de Administração de Empresas S.A. (GAESA), um conglomerado de empresas não auditáveis do setor militar que, em conjunto, representa entre 40% e 70% da economia ou das receitas de divisas do país.
A empresa foi esgotada economicamente e “segundo a sua própria presidenta, não decide o destino de suas receitas, pois parte delas vai parar em outros setores”, sublinhou Tablada no texto “O destino das receitas da ETECSA. Reflexão e três perguntas incômodas à Assembleia Nacional de Cuba”, publicado em seu perfil no Facebook.

A análise também abordou a devaluação da moeda nacional após a falha da Tarefa Ordenamento promovida pelo governo, que levou as tarifas atuais a perderem valor real em relação à inflação. Essa situação fez com que “o serviço de internet se tornasse relativamente mais barato” e que os cidadãos cubanos preferissem comprar os pacotes em pesos cubanos a pedir que seus familiares os comprassem do exterior, afirmou Tablada.
O aumento gradual da pobreza nacional devido a causas externas e internas é o que realmente merece uma protesto nacional, porque é a razão pela qual qualquer cidadão cubano não consegue, com seu salário ou pensão, arcar com as despesas necessárias para, primeiro, ter uma vida minimamente digna (…) e, menos ainda, para com seus impostos, manter uma infraestrutura de qualidade nos serviços telefônicos e de internet", sublinhou.
Recordou também que, por um lado, o próprio governo tem eliminado produtos alimentares básicos subsidiados ou o abastecimento geral em CUP, e, por outro, os preços nas lojas que arrecadam divisas e no mercado não estatal aumentaram.
“Como sabemos, essa pobreza como país também não permite manter nenhuma outra infraestrutura, por mais vital que seja: eletroenergética, alimentar, transporte, habitação, saúde, educação ou vias. O país está em uma crise multissistêmica, descapitalizado e profundamente endividado”, enfatizou.
Recordou que o monopólio das telecomunicações era uma das empresas que mais gerava divisas graças aos pacotes de recarga do exterior ou à compra de cartões em CUC, o equivalente ao USD antes do “Ordenamento”.
“Durante vários anos, acumulou centenas ou milhares de milhões por esse caminho, um número que desconhecemos devido à falta de transparência que existe no modelo de governança em Cuba e ao pouco respeito, por mais que queiram disfarçar, pela cidadania por parte do poder centralizado”, afirmou.
Com um tom crítico e direto, lançou três perguntas ao Parlamento:
- Em que foram investidas as divisas acumuladas pela ETECSA nos últimos 10 anos?
- Foi discutido na ANPP o destino desses fundos e seu impacto na sustentabilidade da empresa? Como é possível que o maior conglomerado de empresas do país não seja auditável?
- Quando e como o Parlamento exigirá ao Conselho de Ministros, ao Conselho de Estado e ao Partido Comunista de Cuba que assumam sua responsabilidade de liderar a nação, enfrentando a guerra econômica de décadas por meio da elaboração de estratégias inteligentes para que, com nossos próprios recursos naturais e humanos, nossa terra produza, nossos profissionais inovem, nossos empreendedores e suas empresas floresçam, e os cidadãos não queiram emigrar em massa?
O arquiteto concordou que essa alta de tarifas, “no estilo dos pacotes neoliberais de qualquer país latino-americano”, provocou mais reação do que a perda progressiva do salário, a caderneta de abastecimento ou os abusos repressivos do regime contra cidadãos que exercem seus direitos de protesto.
Adicionalmente, ressaltou que o problema vai além do repentino aumento e da comunicação deficiente sobre o pacote de tarifas da ETECSA: “O principal problema é a falta de um modelo democrático com participação cidadã real, é a falta de um sistema socioeconômico que estimule o trabalho e a ausência de uma liderança com visão estratégica que saiba lidar com o enorme impacto do bloqueio e fazer dialogar as forças internas para que toda a nação e seus cidadãos possam avançar”.
Anunciadas em 30 de maio, as novas medidas impostas pelo monopólio das telecomunicações ETECSA limitam o acesso à internet para a maioria dos cubanos e exigem que, uma vez esgotado o exíguo pacote permitido para navegação, as recargas dependam de pagamentos por planos a preços elevados em CUP e em moeda estrangeira.
A decisão foi rapidamente rejeitada pela imensa maioria da população que sobrevive em pesos cubanos e vê como a chamada “dolarização parcial da economia” avança para áreas de serviços públicos e a venda de produtos de primeira necessidade.
Até a imprensa oficialista, organizações estudantis como a FEU e a Associação Hermanos Saíz, que reúne jovens artistas e intelectuais, manifestaram-se publicamente contra o aumento das tarifas.
A maior parte da cidadania cubana reagiu com indignação às justificativas apresentadas pela ETECSA sobre perdas milionárias por supostos “fraudes” nos últimos quatro anos. A esse respeito, criticaram a gestão estatal e acusaram a empresa de incompetência e manipulação para aplicar tarifas abusivas.
O economista Pedro Monreal qualificou a situação como “um caso de incompetência monumental”, tanto por parte da empresa estatal quanto do próprio governo cubano, ao admitir que a suposta fraude operou por mais de três anos sem que fossem tomadas medidas efetivas para detê-la.
O regime cubano sabia que o aumento abrupto das tarifas da ETECSA geraria rejeição popular e, prevendo um cenário de mal-estar social, ativou mecanismos repressivos e medidas dissuasórias antes e depois do anúncio oficial.
O novo aumento de tarifas não impacta apenas diretamente a economia doméstica, mas também restrige ainda mais o acesso à informação, à comunicação com o exterior e à atividade nas redes sociais, em um momento em que o descontentamento popular se canaliza cada vez mais por esses meios.
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