José Daniel Ferrer: Quando a solidariedade é punida com repressão em Cuba

O líder da UNPACU foi detido novamente, apesar de ter cumprido sua pena, como parte da repressão do regime cubano. Seu trabalho solidário e denúncias constantes incomodam o governo de Miguel Díaz-Canel.


A detenção em 29 de abril de José Daniel Ferrer, líder da União Patriótica de Cuba (UNPACU), marca um novo capítulo na longa história de perseguição que o regime cubano mantém contra este ativista.

Mais do que uma simples revogação de liberdade condicional, a prisão constitui uma nova represália política contra aqueles que fizeram da denúncia pública e da ação humanitária sua trincheira.

Ferrer havia sido liberado no dia 16 de janeiro, após cumprir sua pena, conforme consta em um relatório jurídico do caso divulgado por CiberCuba em dezembro de 2024. Desde o primeiro momento, o opositor alertou sobre as manobras do regime para novamente encarcerá-lo.

Apesar de que a justiça reconheceu que “já havia extinto a totalidade da pena imposta”, ele foi mantido arbitrariamente sob medidas cautelares disfarçadas de “liberdade condicional”, uma figura ambígua que o deixava à mercê de uma legalidade seletiva, manipulada pelas autoridades.

Ação solidária diante de um país em ruínas

Após sua libertação, Ferrer não optou pelo silêncio nem pelo exílio. Pelo contrário, ele reatou suas atividades à frente da UNPACU, reabrindo as portas de sua casa em Santiago de Cuba como um centro de ajuda a pessoas vulneráveis.

Ancianos, mães solteiras e doentes encontraram na casa de Ferrer atendimento médico, alimentos e medicamentos. Sua esposa, a doutora Nelva Ismaray Ortega Tamayo, desempenhou um papel essencial neste esforço solidário.

Estas ações, longe de serem reconhecidas, foram objeto de vigilância, assédio e hostilização. No final de março, a residência foi cercada por agentes da Segurança do Estado, que impediram o acesso àqueles que buscavam assistência.

Ferrer denunciou o cerco como uma forma de criminalizar a compaixão e de punir o exercício livre da solidariedade cidadã. A resposta do regime foi violenta: interrupções de Internet, prisões breves de colaboradores, campanhas de difamação e, finalmente, a invasão da sede da UNPACU, com a detenção de sua família e companheiros.

Hostilização persistente e censura digital

A repressão não se limitou ao plano físico. Ferrer foi alvo de cortes sistemáticos de acesso à Internet, uma prática comum do regime para silenciar vozes críticas e impedir a denúncia internacional.

A pesar disso, conseguiu usar suas redes sociais para alertar sobre a situação repressiva, evidenciar a miséria dos bairros mais humildes e fazer apelos à comunidade internacional. Essas denúncias chegaram inclusive a organismos internacionais e governos democráticos que haviam celebrado sua libertação.

Sua voz, no entanto, nunca foi do agrado dos que controlam o poder. Em seus vídeos, Ferrer denunciava a fome, a falta de medicamentos, a repressão constante e a hipocrisia do aparelho judicial cubano. Essa coragem, longe de lhe oferecer proteção, se tornou o argumento final para sua detenção.

O que diz a "justiça" do regime?

O Tribunal Supremo Popular justificou a revogação da liberdade condicional alegando que Ferrer não compareceu a duas citações judiciais.

"Hermanos e amigos, acabo de ser citado para amanhã diante de um Juiz de Execução da tirania. NÃO VOU A LUGAR NENHUM. Se a intenção é me ameaçar com voltar à prisão, estão perdendo seu tempo. Pela liberdade e bem-estar do meu povo, dou até a vida. ¡Não tenho medo da prisão!", disse Ferrer no final de janeiro, poucos dias depois de sua libertação e retomando desde o primeiro momento sua ação solidária e oposicionista.

A explicação, escassa e opaca, evitou mencionar que Ferrer já havia cumprido sua pena, conforme documentou esta redação em dezembro de 2024, após a negação de um habeas corpus. A continuidade de medidas cautelares sem uma base penal sólida representa uma clara violação de direitos fundamentais.

Como se pode impor a “liberdade condicional” a um réu que cumpriu sua pena? O uso da "ausência" como pretexto legal para revogar essa medida arbitrária não é apenas juridicamente questionável, mas também reflete a forma como o aparato judicial em Cuba funciona como braço executor da repressão política.

Uma perseguição com nome e sobrenome

O que ocorreu na última terça-feira não é um fato isolado, mas parte de um padrão. Ferrer foi preso e condenado em diversas ocasiões desde que, em 2003, fez parte do "Grupo dos 75" encarcerados após a chamada “Primavera Negra”. Ele sofreu espancamentos, isolamento, celas de punição e, mesmo assim, manteve seu compromisso com a resistência cívica.

A UNPACU, organização que fundou em 2011, tem sido um dos principais movimentos de oposição do país, com foco na denúncia direta, na desobediência civil pacífica e na ajuda comunitária.

Essa combinação — ativismo político e ação social — o torna uma figura incômoda para um regime que não tolera alternativas de legitimidade fora do Partido Comunista.

A recente detenção de José Daniel revela, mais uma vez, o verdadeiro rosto da chamada “justiça revolucionária”: uma estrutura concebida para proteger o poder e punir qualquer forma de independência.

Ferrer, cuja condenação já estava extinta segundo o próprio expediente judicial, não representa um “perigo legal”, mas sim um perigo moral para um sistema corrupto, incapaz de lidar com a crítica nem de oferecer soluções reais para os problemas do povo cubano.

Hoje, Ferrer está preso, mas não silenciado. Suas ações, seu legado e seu exemplo já transcendem as grades. Cada cidadão que foi alimentado, cada enfermo que recebeu atenção, e cada denúncia compartilhada nas redes sociais são provas vivas de que, mesmo nos contextos mais sombrios, a dignidade e a solidariedade podem florescer.

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Iván León

Licenciado em jornalismo. Mestrado em Diplomacia e Relações Internacionais pela Escola Diplomática de Madri. Mestrado em Relações Internacionais e Integração Europeia pela UAB.