Régimen cubano denuncia "cinismo cruel" dos EUA, mas teme receber deportados que solicitaram asilo político

La Habana enfrenta um dilema ao ter que receber migrantes deportados dos EUA, que afirmam ter fugido da repressão e da ditadura, o que representa um desafio à narrativa oficial sobre a emigração cubana.

Agentes da ordem patrulhando em MiamiFoto © Flickr / ICE

Vídeos relacionados:

O chanceler cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, atacou neste sábado políticos americanos que promovem a deportação de migrantes cubanos, qualificando como um “ato de cruel cinismo” as iniciativas legislativas que poderiam deixar centenas de milhares de ilhéus em situação irregular.

“A ameaça de políticos anticubanos de deportar cubanos que emigraram para os EUA é um ato de cruel cinismo. Empurrados pelo bloqueio econômico e estimulados a emigrar, o próprio governo desse país os incitou a mentir ao chegar à fronteira para protegê-los como refugiados”, escreveu Rodríguez em sua conta no X (antes Twitter).

Suas declarações chegam em um momento de grande incerteza para a comunidade cubana nos Estados Unidos, após ser revelado que quase 550 mil migrantes poderiam perder seus permissos de permanência se lhes for revogado o status migratório obtido por meio da via do “medo credível”, um argumento chave na solicitação de asilo político.

Enquanto o governo cubano reitera que continuará recebendo seus cidadãos deportados, como parte dos acordos migratórios bilaterais com Washington, a narrativa oficial se sustenta na ideia de que a emigração em massa é uma consequência direta das políticas americanas.

La Habana responsabiliza o embargo econômico —que denomina "bloqueio"— e a histórica Lei de Ajuste Cubano, que durante décadas ofereceu um caminho facilitado para a residência legal aos cubanos que chegavam ao território estadunidense, como causas principais do êxodo.

Segundo o regime, essas políticas incentivaram milhares de pessoas a abandonar a ilha sob a promessa de benefícios migratórios, distorcendo o fenômeno migratório e estimulando a emigração irregular. Em seu discurso, o governo cubano insiste que o êxodo não reflete uma crise interna estrutural, mas um desenho externo para desestabilizar o país.

No obstante, a realidade desmente essa postura. A maioria dos migrantes que solicitaram asilo político na fronteira dos Estados Unidos o fez sob juramento de ter fugido de uma ditadura, invocando perseguição política, censura, repressão, assédio por parte da Segurança do Estado ou a falta de liberdades básicas. Muitos apontaram o regime como a causa direta de sua decisão de escapar.

Essa contradição coloca o governo de Havana diante de um dilema político e moral. Aceitar o retorno em massa dessas pessoas implica receber de volta aqueles que testemunharam ter deixado Cuba com medo do sistema, uma narrativa que mina sua propaganda oficial de estabilidade e respeito aos direitos civis.

Além disso, uma parte significativa desses migrantes —que têm compartilhado nas redes sociais e na mídia suas críticas abertas ao sistema— pode enfrentar represálias ou vigilância ao retornarem, o que reforça a percepção internacional de que Cuba não é um país seguro para o dissenso.

Embora o regime tente se mostrar compreensivo, garantindo que os deportados "serão tratados com dignidade", como destacou recentemente o ministério das Relações Exteriores (MINREX), há um esforço evidente para encobrir a raiz do problema: o profundo mal-estar social, político e econômico que leva os cubanos a emigrar em massa.

A incongruência entre o discurso oficial e a experiência de quem parte revela um conflito de fundo. Enquanto o regime culpa fatores externos, evita assumir sua responsabilidade pela falta de oportunidades, a inflação descontrolada, a repressão política e a ausência de liberdades que afligem a ilha.

À medida que cresce o número de possíveis deportações, a postura de Havana se torna cada vez mais insustentável: deve aceitar o retorno daqueles que a apontam como culpada por sua fuga, sem conseguir desmentir completamente as causas que os levaram a pedir asilo como perseguidos políticos.

Arquivado em:

Equipe Editorial da CiberCuba

Uma equipe de jornalistas comprometidos em informar sobre a atualidade cubana e temas de interesse global. No CiberCuba, trabalhamos para oferecer notícias verídicas e análises críticas.

Equipe Editorial da CiberCuba

Uma equipe de jornalistas comprometidos em informar sobre a atualidade cubana e temas de interesse global. No CiberCuba, trabalhamos para oferecer notícias verídicas e análises críticas.