A voz encarcerada da arte cubana: LMOA agradece prêmio internacional desde prisão de segurança máxima

Luis Manuel Otero Alcántara, preso em Cuba, recebe o Prêmio Václav Havel 2025, destacando sua luta artística contra a repressão. Seu caso ressoa globalmente pela liberdade de expressão.


Luis Manuel Otero Alcántara, encarcerado na prisão de máxima segurança de Guanajay, em Cuba, foi agraciado nesta terça-feira com o Prêmio Internacional Václav Havel à Dissidência Criativa, concedido pela Human Rights Foundation (HRF) no contexto do Oslo Freedom Forum.

Desde sua cela, o artista enviou uma mensagem gravada na qual agradeceu o reconhecimento e reafirmou seu compromisso com a liberdade e a criação como formas de resistência.

"Minha voz é o eco de milhões que sofrem e gritam contra a ditadura cubana hoje, ontem e sempre", expressou Otero Alcántara em sua mensagem, na qual também se descreveu como um “privilegiado neste momento de escuridão nacional”.

O artista compartilhou o prêmio, no valor de 50.000 dólares, com a síria Azza Abo Rebieh e a russa Sasha Skochilenko, ambas presentes na cerimônia em Oslo.

Fundador do Movimento San Isidro (MSI), Otero Alcántara tem utilizado a arte como um veículo de denúncia contra a repressão e a censura impostas pelo regime cubano.

Foi detido após as manifestações de 11 de julho de 2021 e condenado em 2022 a sete anos de prisão por supostos crimes de ultraje aos símbolos da pátria, desacato e desordens públicas. Em 2022, a ONU declarou arbitrária sua detenção e pediu sua liberação imediata.

Durante o fórum, o escritor cubano Enrique del Risco convocou a uma intensificação da pressão internacional sobre o regime de Havana. "Não podemos esperar que o regime ceda o poder de forma voluntária", destacou. Segundo 14ymedio, o acadêmico e ativista também instou a sancionar empresas estrangeiras que o apoiam, como os hotéis Meliá e Blue Diamond.

Por sua parte, Skochilenko, liberada em 2024 após uma troca de prisioneiros, denunciou a repressão na Rússia e advertiu: "Perder a liberdade fora do cárcere é muito mais aterrador do que perdê-la dentro dele".

O Fórum da Liberdade de Oslo é realizado anualmente desde 2009 e é uma plataforma fundamental para dar visibilidade a vozes que lutam contra regimes autoritários em todo o mundo.

Um preso político que o mundo não esquece

Desde aquele 11 de julho de 2021, quando tentou se juntar aos protestos antigovernamentais em Cuba e foi preso por agentes do regime, Otero Alcántara não foi liberado. Mas nem as grades, nem o silêncio que o poder tenta impor, conseguiram silenciar sua voz ou sua influência.

Desde sua cela na prisão de máxima segurança de Guanajay, continuou a projetar sua arte e pensamento para o mundo.

"Lucho porque ao fechar os olhos em um sono profundo minha alma sai a caminhar junto aos meus entes queridos; note que em dois anos de prisão nunca tive um pesadelo. Assim que nada destruiu os dons da criação", declarou em um áudio divulgado pela Anistia Internacional em fevereiro de 2024.

“Nada me quitará o impulso e não deixarei minha obra inacabada”, acrescentou em um áudio enviado à ONG. Semanas depois, descrevia com crueza a monotonia do seu encarceramento: “Todos os dias são iguais”.

Ainda nesse contexto de isolamento e repressão, os reconhecimentos internacionais não tardaram a acontecer. Em 2022, as Nações Unidas reconheceram que sua detenção era arbitrária e exigiram sua liberação imediata.

Em setembro de 2024, a Fundação Rafto da Noruega concedeu seu prestigioso prêmio de Direitos Humanos, destacando sua “coragem para usar a arte como forma de resistência diante do autoritarismo cubano”.

A entrega do Prêmio Internacional Václav Havel à Dissidência Criativa em maio de 2025 reforça o impacto simbólico e político que sua figura representa: um artista que resiste desde as sombras, convertido em um símbolo global de luta pela liberdade de expressão sob regimes totalitários.

Ao longo desses quase quatro anos, diversas organizações, intelectuais e governos pediram a sua libertação. Mais de 50 artistas e acadêmicos cubanos e estrangeiros assinaram uma declaração em 2022 exigindo a anulação de sua condenação.

Por sua parte, a Amnistía Internacional reiterou sua condição de “prisioneiro de consciência”, e em novembro daquele ano lançou uma campanha global para visibilizar seu caso.

A saúde de Otero Alcántara também tem sido motivo de alarme. Em maio de 2023, familiares e ativistas alertaram que ele estava doente há dias sem receber atendimento médico adequado, o que se somou a greves de fome anteriores e denúncias sobre condições desumanas de reclusão.

Lonje de ser esquecido, Otero Alcántara é hoje um nome que percorre fóruns internacionais, instituições de direitos humanos e plataformas artísticas. Sua arte continua transcendendo as grades, tornando-se resistência, símbolo e eco de uma Cuba que ainda sonha com liberdade.

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Iván León

Licenciado em jornalismo. Mestrado em Diplomacia e Relações Internacionais pela Escola Diplomática de Madri. Mestrado em Relações Internacionais e Integração Europeia pela UAB.