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A ativista cubana Anamely Ramos González levantou novamente sua voz para denunciar a situação dos mais de 700 presos políticos que, segundo organizações de direitos humanos, permanecem encarcerados em Cuba.
Através de um vídeo divulgado nas redes sociais, a professora de arte afirmou que as prisões do país se tornaram "centros de morte", onde são relatadas constantes violações dos direitos humanos, incluindo mortes por falta de assistência médica, maus-tratos, isolamento prolongado e transferências arbitrárias.
Faço isso porque em Cuba ainda temos 700 prisioneiros políticos. Porque as prisões cubanas se tornaram centros de morte onde todas as semanas temos que lamentar algum falecido ou alguma pessoa a quem se nega assistência médica”, afirmou Ramos González no vídeo.
A sua vez, criticou o recente processo de excarcelamentos realizado de forma parcial pelo regime, que qualificou como “uma farsa” que deixou nas masmorras muitos inocentes cujo único "crime" foi levantar suas vozes para denunciar as injustiças e protestar pela falta de direitos e liberdades na ditadura.
Da liberdade condicional à desesperança
No início de março, o regime cubano tornou pública uma série de libertações com critérios ambíguos. No entanto, investigações independentes —como as publicadas por Prisoners Defenders e meios de comunicação independentes— revelaram que tratou-se de um procedimento seletivo e limitado, no qual a maioria dos prisioneiros de consciência continuou atrás das grades.
“Muitos desses presos passaram noites inteiras sem dormir esperando que viessem buscá-los, pensando que o som das grades era o som da liberdade”, denunciou Ramos González.
A ativista também ressaltou o impacto psicológico desses eventos nos reclusos, mencionando Duannis Dabel León Taboada como exemplo de um preso deprimido que se recusou a falar com sua família durante dias após não ser liberado.
As mães: Vítimas silenciosas do regime
Em sua mensagem, Ramos González destacou as mães dos presos, mulheres que enfrentam não apenas a separação de seus filhos, mas também o assédio do aparato repressivo do Estado.
A ativista também destacou o caso das mães cubanas encarceradas por suas denúncias e manifestações, como Lisandra Góngora, mãe de cinco filhos —três deles menores de idade—, que foi presa e deslocada para mais de 300 quilômetros de sua casa, uma distância que impossibilita que seus filhos a visitem regularmente.
"Faço isso pelas mães, pelas avós idosas, pelas irmãs pequenas que estão esperando que esses presos voltem para casa. E que, mesmo assim, têm que suportar as ameaças da Segurança do Estado simplesmente por serem mães, simplesmente por clamarem por justiça", afirmou Ramos González, que viveu em primeira pessoa a experiência do desarraigo forçado. Desde 2021, foi impedido de retornar a Cuba.
Ramos González, licenciada em História da Arte pela Universidade de Havana e professora no Instituto Superior de Arte (ISA) de Havana até ser expulsa devido ao seu ativismo, participou ativamente do Movimento San Isidro (MSI). Ela tem sido uma figura chave na denúncia internacional do encarceramento de artistas e ativistas na ilha. Desde o exílio, continuou sua luta pelos direitos humanos e pela liberdade dos presos políticos cubanos.
Vozes desde a prisão: Maykel Osorbo e Luis Manuel Otero Alcántara
Dos figuras centrais desta luta desde as prisões são Maykel Castillo Pérez —conhecido artisticamente como Maykel Osorbo— e Luis Manuel Otero Alcántara. Ambos são ativistas e artistas fundadores do Movimento San Isidro (MSI), detidos desde 2021 por participar em manifestações pacíficas e expressar-se criticamente contra o governo cubano.
Em uma mensagem enviada da prisão de máxima segurança de Pinar del Río, Maykel Osorbo expressou: “Força para suportar uma emboscada é necessário ter força... mesmo nos momentos difíceis agi com força... Meus inimigos me emboscaram, mas tive força, quase morrendo, sempre tive a certeza de que o Altíssimo me coroou com muita força”.
Nascido em Havana em 1983, Maykel é rapper, ativista e preso político. É coautor de “Patria y Vida”, o hino de protesto que se tornou emblema das manifestações de 11 de julho de 2021. Foi preso em maio de 2021 e condenado em 2022 a nove anos de prisão. Sofreu problemas de saúde dentro da prisão e foi submetido a severas medidas de isolamento.
Otero Alcántara, por sua vez, enviou uma mensagem poética através da ativista Claudia Genlui: “Hoje me é impossível mover minhas mãos, meus pés ou minha boca, mas eu preciso fazer algo, algo que quebre minha estática. Ninguém espera nada do outro. Algo devo fazer, mesmo que não estejam esperando e não me acompanhem.”
Artista visual e ativista nascido em 1987, foi reconhecido internacionalmente por sua arte política e sua oposição aberta ao regime. Em 2021, foi detido após anunciar que participaria das protestas de 11J.
Desde então, ele se encontra recluído em uma prisão de máxima segurança. A Anistia Internacional o declarou prisioneiro de consciência. Sua saúde deteriorou-se devido a greves de fome e condições de isolamento.
Protesto em Miami e chamado global
En suas mensagens, Ramos González convocou a participar da protesto que ocorreu nesta sexta-feira na Pequeña Habana de Miami, como parte de uma campanha internacional pela liberdade de todos os presos políticos cubanos.
Esta ação se inseriu em uma onda de manifestações globais que buscam visibilizar a repressão em Cuba e exigir justiça.
"Temos que entender que se não recuperarmos nosso país, todo este processo de desarraigo, de insegurança, de precariedade não vai terminar", advertiu Ramos. "Quando penso na palavra 'Pátria', penso nos rostos daqueles jovens, e penso também na palavra 'Mãe'."
A juventude encarcerada: uma pátria sem futuro
Organizações como a Prisoners Defenders alertaram que boa parte dos presos políticos são jovens menores de 30 anos. Muitos foram presos após as protestas de 11J, quando milhares de cubanos saíram às ruas para reivindicar liberdade e melhorias em suas condições de vida. As autoridades responderam com repressão, condenações severas e detenções arbitrárias.
“A prisão em Cuba é hoje uma ferramenta de controle e punição política. O encarceramento sistemático de jovens, artistas e ativistas tem como objetivo semear o medo e aniquilar o dissentimento”, alertam analistas consultados por CiberCuba.
Um chamado à ação
A denúncia de Anamely Ramos González não é apenas uma exposição de injustiças, mas um chamado à ação coletiva da diáspora e da sociedade civil internacional. Em suas palavras: “Não pretendo me salvar. Eu só sei que devo fazer algo”.
Em um país onde a palavra "Liberdade" foi criminalizada, o eco dessas mensagens ressoa com força entre aqueles que acreditam que o futuro de Cuba passa pela liberdade de seus prisioneiros políticos e pela reconstrução de uma pátria sem repressão ou exílio.
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