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O músico oficialista Arnaldo Rodríguez, diretor do grupo El Talismán, um nome que brilhou no início dos anos 2000, mas que hoje sobrevive apenas em atos patrióticos do governo, reapareceu nesta segunda-feira para alinhar-se publicamente com a ofensiva do regime contra o meio independente El Toque.
Ele fez isso com uma mensagem no Facebook onde repete o roteiro da Segurança do Estado e acusa aqueles que defendem o portal de terem perdido “a vergonha, o decoro e a capacidade de raciocinar”.
Sua publicação chega no momento mais intenso da campanha estatal contra El Toque, convertido em um dos alvos preferidos da propaganda oficial por publicar a Taxa Representativa do Mercado Informal (TRMI), ferramenta que milhões de cubanos consultam diariamente para se orientar diante da falta de informação econômica confiável.
Em sua mensagem, Arnaldo assegura que o governo enfrenta "uma tarefa titânica": lutar contra o "inimigo externo", os "erros internos" e, acima de tudo, contra os "cientistas, sabe-tudo e cipayos do quintal" que, segundo ele, culpam injustamente o Estado.
Para o músico, El Toque não é vítima de uma campanha de difamação, mas sim parte da narrativa inimiga contra a Revolução. No entanto, a realidade que o regime tenta esconder conta outra história.
Somente nas últimas semanas, a maquinaria estatal desencadeou uma operação coordenada para tentar desacreditar o meio independente.
A Segurança do Estado circulou áudios manipulados com inteligência artificial para incriminar seu diretor em supostos acordos financeiros; Humberto López o acusou na televisão de “terrorismo financeiro”, “tráfico de divisas” e “evasão fiscal”; o chanceler Bruno Rodríguez falou sobre “provas” que nunca apresentou; e o Banco Central repetiu o discurso oficial responsabilizando a TRMI pela crise cambial.
Tudo isso, em meio à inflação mais alta das últimas décadas, apagões prolongados e um peso cubano que não para de cair.
Vozes que desmentem a narrativa oficial
Pero, enquanto Arnaldo Rodríguez acusa de "cipayos" aqueles que defendem El Toque, a reação de economistas, jornalistas e cidadãos tem sido contundente.
O acadêmico cubano radicado na Colômbia Mauricio de Miranda qualificou de “conto de caminho” a ideia de que um portal digital possa desestabilizar uma economia destruída por décadas de má gestão.
Ariel Terrero, jornalista oficialista, admitiu que culpar El Toque é “grotesco” e carece de fundamento econômico. E especialistas como Ileana Díaz, Oscar Fernández e Hiram Marquetti apontaram diretamente para a falta de um mercado cambial funcional, a dolarização parcial, a emissão monetária sem lastro e a incapacidade do Banco Central.
Por sua parte, o diretor de El Toque, José Jasán Nieves, respondeu no domingo reafirmando seu compromisso com a democracia e denunciando o hostilização do regime, que inclui tentativas de fabricar causas penais e atos de repúdio até mesmo no exterior.
A ofensiva contra El Toque não busca esclarecer nada, mas sim criar um inimigo útil que desvie a frustração social acumulada por anos de incompetência econômica. E nesse roteiro, figuras como Arnaldo Rodríguez cumprem o papel de repetir a narrativa oficial para tentar desacreditar aqueles que apresentam dados desconfortáveis.
Enquanto isso, a realidade que o governo tenta ocultar continua sendo a mesma que milhões de cubanos enfrentam diariamente: salários insuficientes, apagões, inflação e um país que depende cada vez mais do mercado informal, que o Estado não consegue controlar.
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