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Com os mercados vazios e o campo exausto, a província de Guantánamo volta suas atenções para o plantio experimental de trigo e sorgo como uma tábua de salvação agrícola, em meio a uma crise alimentar que não dá trégua.
A iniciativa foi avaliada esta semana durante uma reunião na Universidade de Guantánamo (UG) como resposta à necessidade de encontrar culturas mais resistentes e adaptadas às condições climáticas do leste cubano, destacou o jornal oficial Venceremos.
Desde setembro de 2024 até janeiro de 2025 foram realizadas três semeaduras experimentais com rendimentos entre 1,93 e 4,04 toneladas por hectare, explicou Alain Castañeda Álvarez, estudante de Agronomia da UG e responsável pela pesquisa como parte de sua tese de graduação, em colaboração com o Centro de Investigações Agropecuárias da Universidade Central Martha Abreu de Las Villas.
Segundo Castañeda, os resultados indicam potencialidades na província para ambas as culturas, que contribuem com alimento para animais e humanos.
"O trigo obtido de maneira experimental foi utilizado para produzir farinha para pães e doces, enquanto se trabalha na implementação do sorgo como parte da segurança alimentar municipal", indicou o meio de comunicação.
As projeções, embora positivas no discurso oficial, ainda não passam de planos em fase de teste. Na reunião onde foram apresentados os resultados, participou o primeiro secretário do Partido na província, Yoel Pérez García, autoridades municipais e professores da UG, que conheceram outros experimentos semelhantes focados na obtenção de grãos “que contribuirão para a soberania alimentar a curto e médio prazo”, destacou.
Em um país onde os altos custos, o deterioramento do sistema agrícola e a falta de insumos básicos impedem qualquer tentativa de inovação, falar de “potencialidades” não é suficiente. O projeto de trigo e sorgo em Guantánamo reflete mais uma intenção do que um resultado.
Enquanto as autoridades celebram os ensaios com trigo e sorgo como sinais de avanço, a realidade de outras culturas estratégicas coloca em dúvida essa narrativa, como demonstrou a recente colheita de batata em Guantánamo, a tentativa mais recente de expandir o tubérculo que terminou em fracasso.
Em abril, divulgou-se que a Unidade de Ciência e Tecnologia de Pastagens e Forragens de Sancti Spíritus está testando o cultivo de mais de 25 variedades de sorgo e prevê o encadeamento com a indústria para elaborar alimentos que beneficiariam especialmente pessoas celíacas, entre elas 42 crianças diagnosticadas com essa doença na região.
Este programa poderia se tornar uma solução agrícola local diante de uma necessidade médica crônica e negligenciada em Cuba: uma dieta segura e acessível para pacientes celíacos.
A doença celíaca é um distúrbio autoimune no qual o consumo de glúten - presente no trigo, cevada e centeio, além de variedades de aveia - danifica o intestino delgado. A condição dificulta a absorção de nutrientes e é controlada apenas com uma dieta rigorosa sem glúten.
Se já é difícil em Cuba para seus habitantes terem acesso a uma alimentação rica e balanceada, a situação é ainda pior para aqueles que foram diagnosticados como celíacos.
No país existem cerca de 900 pessoas diagnosticadas com doença celíaca; no entanto, estima-se que possam existir outras que permanecem assintomáticas, apontou em maio de 2024 o jornal oficial Granma.
Em 2020, uma reportagem publicada em Juventud Rebelde mostrou a difícil situação que enfrentam ao não poder ingerir produtos como pão, biscoitos, pizza, macarrão, doces, leite, sorvetes, embutidos e sopas instantâneas, entre outros.
O setor agrícola cubano tem enfrentado múltiplos desafios nos últimos anos, como o envelhecimento da maquinaria, a falta de fertilizantes e insumos, assim como as restrições impostas aos pequenos produtores privados. A isso se soma a inflação galopante e as dificuldades logísticas derivadas da crise econômica que atravessa o país.
Os dados oficiais mais recentes refletem quedas significativas na produção de alimentos essenciais como carne suína, arroz, raízes, ovos, leite de vaca, feijões e hortaliças, uma situação que confirma uma grande crise alimentar em Cuba.
Perguntas frequentes sobre a crise alimentar em Guantánamo
Quais cultivos experimentais estão sendo implementados em Guantánamo para enfrentar a crise alimentar?
Guantánamo está experimentando com o cultivo de trigo e sorgo como uma solução para enfrentar a crise alimentar. Essas culturas são consideradas mais resistentes e adaptadas às condições climáticas da região.
Qual é o objetivo do cultivo de sorgo em Cuba?
O objetivo principal de semear sorgo em Cuba é produzir alimentos sem glúten para pessoas celíacas. Isso é crucial em um país com acesso limitado a produtos adequados para aqueles que sofrem dessa doença.
Quais dificuldades a agricultura enfrenta em Guantánamo?
A agricultura em Guantánamo enfrenta problemas de falta de insumos, maquinaria obsoleta e condições climáticas adversas. Esses fatores têm levado ao fracasso de cultivos como a batata e a uma profunda crise alimentar na região.
Como a escassez de farinha afeta a população de Guantánamo?
A escassez de farinha levou a restrições na distribuição do pão normatizado, limitando sua entrega a crianças e algumas instituições prioritárias. Isso agrava a crise alimentar que a população já enfrenta.
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