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Em meio à onda de indignação pelas imagens de várias crianças dormindo nos jardins do hotel Muthu, em Havana, o músico oficialista Arnaldo Rodríguez Romero reapareceu nas redes sociais com uma publicação que muitos interpretam como uma tentativa de “limpeza de imagem” do regime.
O artista, conhecido pelo seu fervoroso apoio ao governo cubano, compartilhou fotos nas quais apareceu cercado por estudantes com lenços vermelhos em uma sala de aula de aparência aceitável, com crianças sorridentes e uniformizadas, acompanhadas de um texto no qual agradeceu ao “governo” por ter lhe permitido estudar gratuitamente.
“Obrigado mil, Mãe minha, por tudo. Obrigado, Governo, por me oferecer o direito de assistir gratuitamente à escola, independentemente da minha cor de pele, da minha condição econômica ou da minha afiliação religiosa”, escreveu Rodríguez Romero em sua conta do Facebook, em uma mensagem que concluiu com a palavra “Moraleja”.
A publicação surge exatamente quando a imprensa independente e os cidadãos cubanos denunciavam o abandono infantil e a pobreza extrema após a divulgação das imagens de seis crianças dormindo no chão em frente ao hotel Muthu, na interseção da 1ra com a 70, no município de Playa, em Havana.
O fato provocou um reconhecimento incomum de falhas institucionais por parte de um deputado oficialista e até uma reação da chefe de imprensa de Miguel Díaz-Canel, a guardiã institucional Leticia Martínez Hernández, colocada sob as traves do Palácio para tentar deter quantas denúncias e revelações aumentem o volumoso marcador de iniquidades do regime.
No entanto, enquanto amplos setores da população expressam preocupação com o deterioro do sistema de proteção infantil, o músico optou por destacar os “avanços” do regime na área da educação, em um discurso alinhado com a propaganda estatal.
Imagens cuidadosamente escolhidas
Nas fotos publicadas por Rodríguez, ele aparece rodeado de crianças sorridentes em uma sala de aula do ensino fundamental. As imagens, com a bandeira cubana em forma de coração, projetam uma atmosfera de harmonia e otimismo que contrasta drasticamente com a realidade denunciada por jornalistas e moradores da capital.
Para muitos internautas, o post do artista não é por acaso, mas sim parte de uma estratégia de contrapropaganda projetada para desviar a atenção do caso Muthu e reforçar a narrativa de que “em Cuba nenhuma criança fica desamparada”.
O discurso oficialista
Em seu texto, o músico tentou separar a responsabilidade familiar da estatal, ao relatar anedotas de sua infância nos anos 80: como sua mãe o obrigava a assistir às aulas, o repreendia por não estudar ou o incentivava a se superar.
“Me enviou minha mãe, não foi o governo”, repetiu várias vezes o tracatán da ditadura, para sublinhar a responsabilidade das famílias no bem-estar das crianças cubanas e isentar o regime pela terrível realidade do aumento da vulnerabilidade dos menores na Ilha. E concluiu: “Obrigado Governo, por me oferecer o direito de assistir gratuitamente à escola…”.
A contradição da mensagem —agradecer ao Estado depois de insistir que foi sua mãe quem o educou— não pareceu chamar a atenção de centenas de genuflexos que aplaudiram sua publicação repetindo o mesmo esquema mental dos doutrinados: exculpar o governo pela situação de desamparo de muitos jovens e menores de idade em Cuba, apontar as famílias como responsáveis últimas pelo seu bem-estar, e ao mesmo tempo agradecer à “revolução” por suas supostas políticas sociais e de igualdade.
Contexto e contradições
O mensagem do artista se inseriu em uma profunda crise social. Segundo dados do Observatório Cubano de Direitos Humanos, 89 % dos lares vivem em pobreza extrema e 9 % das crianças sofrem com a pobreza alimentar. Organizações internacionais alertam que cada vez mais menores estão mendigando, buscando comida ou vivendo nas ruas.
Nesse contexto, a publicação de Rodríguez Romero parece se enquadrar em um novo gesto de desconexão e oportunismo político, típico de sua trajetória recente.
O músico, empresário e deputado da Assembleia Nacional do Poder Popular (ANPP) —que recebeu distinções do ministério das Forças Armadas e foi premiado por seu “apego à Revolução”— assumiu nos últimos anos um papel de porta-voz do regime, celebrando atos oficiais enquanto evita se referir aos problemas reais do país.
Enquanto as imagens das crianças do hotel Muthu continuam a gerar comoção e denúncias, Rodríguez Romero insiste em pintar uma Cuba ideal, onde todas as crianças vão à escola e ninguém fica para trás, exceto aqueles que são vítimas da negligência e da "crapulência" de famílias desestruturadas e não integradas na sociedade comunista e revolucionária.
Sua publicação, no entanto, parece ter conseguido o efeito contrário: lembrar a distância entre a propaganda oficial e a vida real das crianças cubanas.
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