Díaz-Canel aos empreendedores cubanos: "Não se pode permitir o desperdício, mesmo que possam pagar pela eletricidade."

“Subem as tarifas, lucram com a importação de equipamentos, exigem que você economize, racionam o combustível, multam você e te sobrecarregam com apagões… e mesmo assim, se você conseguir pagar a conta, fecham o negócio”, resumiu um usuário nas redes sociais.

Miguel Díaz-Canel, Manuel Marrero Cruz e outros "quadros" do regimeFoto © Facebook / Miguel Díaz-Canel Bermúdez

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O governante cubano Miguel Díaz-Canel alertou neste sábado que os negócios privados que não cumprirem seus planos de consumo elétrico poderão ser fechados, mesmo que seus proprietários consigam pagar as faturas, em meio a uma das crises energéticas mais severas dos últimos anos na ilha.

“É preciso visitar os centros do setor não estatal e verificar se estão cumprindo seu plano de consumo elétrico. Não se pode permitir o desperdício, mesmo que possam pagar pela eletricidade. O local que não cumprir seu plano será fechado”, publicou a conta oficial da Presidência de Cuba na rede social X (anteriormente Twitter), citando palavras do também primeiro secretário do Partido Comunista durante uma reunião sobre os problemas críticos de Havana.

O mensagem fez parte de um tópico em que a Presidência detalhou que Díaz-Canel está conduzindo desde quinta-feira uma “operação de apoio” à capital, focada na coleta de lixo, no abastecimento de água e no fornecimento de eletricidade, três frentes nas quais o governo reconhece um “deterioramento acumulado” e um “mal-estar popular” crescente, que resultou em protestos nas ruas.

As declarações do governante ocorrem em um contexto de apagões diários, aumento de tarifas, escassez de combustível e restrições impostas ao setor privado, que o próprio Estado acusa de “desperdício energético” apesar de muitas micro, pequenas e médias empresas (mipymes) terem que operar com geradores e combustível comprado em divisas.

Pressão oficial sobre as mipymes

Em novembro de 2024, o governo cubano aprovou o Decreto 110/2024, que obriga as mipymes e outros agentes econômicos não estatais a gerar, por seus próprios meios, pelo menos metade da eletricidade que consomem a partir de 2028, além de cumprir planos de economia e manter a climatização acima de 24 graus.

As sanções por não cumprimento dessas normas incluem multas de até 20.000 pesos e a suspensão do fornecimento de energia elétrica por 72 horas.

Aos efeitos das medidas de economia somam-se os impactos dos apagões que afetam todo o país e que, em muitos casos, provocaram a perda de mercadorias e alimentos pela falta de refrigeração.

Comerciantes e empreendedores denunciaram nas redes sociais que as interrupções elétricas prolongadas tornam impossível manter a cadeia do frio ou produzir regularmente, enquanto precisam arcar com o custo do combustível e da manutenção de geradores.

Pese a isso, as autoridades mantêm seu discurso de controle e disciplina. Díaz-Canel insistiu nesta sexta-feira que os inspetores devem “visitar os centros do setor não estatal” e verificar se cumprem com os planos energéticos impostos. “O lugar que não cumprir seu plano será fechado”, reiterou o mandatário.

Eletricidade racionada, combustível dolarizado

Embora o governo tenha prorrogado até 2026 a isenção de tarifas para importar geradores elétricos e painéis solares, essa medida apenas alivia parcialmente a crise, já que o combustível para fazer funcionar os geradores só é vendido em moeda livremente convertível (MLC) e com restrições.

Em alguns territórios, os postos de gasolina exigem que os proprietários transportem fisicamente seus geradores até o ponto de venda para poderem abastecer, um requisito que complica ainda mais o uso desses equipamentos.

Paralelamente, as tarifas elétricas aumentaram 25 % em 2024 para os consumidores que ultrapassarem 500 quilowatts-hora mensais, enquanto o Estado continua cobrando preços elevados pela energia a um setor privado que, no entanto, deve suportar apagões diários e sofrer apreensões ou sanções por "consumo excessivo".

O receio do poder em relação à iniciativa privada

Embora o regime cubano insista em apresentar as mipymes como “um pilar da reorganização econômica”, sua política em relação a elas continua marcada pela desconfiança ideológica e pelo controle político.

Desde sua legalização em 2021, o setor privado tem crescido de forma constante, criando empregos, abastecendo mercados e suprindo as carências do Estado, mas esse mesmo crescimento despertou no governo uma mistura de medo e hostilidade em relação aos novos atores econômicos.

A contradição é evidente: o Estado tolera a atividade privada porque a necessita, mas ao mesmo tempo a vigia, a regula e a castiga com um zelo que beira o inquisitorial. Isso, quando não as controla diretamente por meio de laranjas a serviço das elites governantes, essa oligarquia de um Estado capturado por seu afã extrativista.

As inspeções constantes, as multas desproporcionais, as apreensões arbitrárias e as exigências mutáveis em relação aos preços, licenças ou consumo energético formam uma teia que desestimula o investimento e fomenta a corrupção.

Na prática, os empreendedores cubanos vivem em um estado de insegurança jurídica permanente, dependentes de permissões, controles e “autorizações” que podem ser revogadas por qualquer funcionário ou inspetor.

A isso se soma a pressão fiscal e burocrática: o governo responsabiliza as mipymes pelo aumento no custo de vida, as acusa de “acaparação” e “especulação”, e justifica assim novos controles e sanções, enquanto evita reconhecer seu próprio papel na inflação, na escassez e no deterioramento produtivo do país.

A paradoxa econômica: O mercado avança apesar do Estado

Como lembra Luis Flores, CEO de CiberCuba em seu artigo “A transição para a economia de mercado em Cuba: inevitável e urgente”, as mais de 11.000 mipymes registradas na ilha geram mais de 31% do emprego, contribuem com 23% das receitas fiscais e dominam 55% do comércio varejista.

Esses dados confirmam que o verdadeiro motor da economia cubana já não é a empresa estatal socialista, mas sim a iniciativa privada que o próprio regime sufoca com restrições e impostos.

“A empresa socialista distribui miséria, enquanto as mipymes geram emprego e dinamismo”, aponta o autor, que considera “inevitável e urgente” a transição para uma economia de mercado.

Seu argumento coincide com a percepção geral de que o sistema de planejamento centralizado não apenas freia o desenvolvimento, mas reproduz a escassez e a desigualdade que diz combater.

A análise também ressalta uma contradição estrutural: o governo teme o mercado não por razões econômicas, mas políticas. Permitir que o setor privado cresça e prospere implicaria aceitar a existência de um espaço autônomo —social e financeiro— que escapa ao controle partidário.

Daí a retórica da "igualdade socialista" que é usada para justificar restrições, enquanto na prática a desigualdade é maior do que nunca: entre os que têm acesso a divisas e os que dependem do salário estatal, entre os que produzem e os que sobrevivem com uma ficha de racionamento cada vez mais vazia.

Entre a asfixia e a incerteza

“Subem as tarifas, lucram com a importação de equipamentos, exigem que você economize, racionam o combustível, multam você e te drenam com apagões… e mesmo assim, se você conseguir pagar a conta, fecham o negócio”, resumiu um usuário nas redes sociais após conhecer as declarações de Díaz-Canel.

O comentário reflete o sentimento generalizado entre os empreendedores cubanos, que se debatem entre o medo das sanções e a impossibilidade de manter sua atividade econômica em um ambiente onde cada decisão estatal parece agregar novas barreiras.

Enquanto o governo insiste em controlar o consumo elétrico do setor privado, o sistema nacional continua sofrendo déficits superiores a 1.800 megawatts, dezenas de unidades geradoras fora de operação e apagões que chegam a ultrapassar 20 horas diárias em várias províncias.

Em Cuba, nem mesmo "poder pagar a conta de luz" garante que se possa acendê-la.

E embora a transição para o mercado pareça uma heresia ideológica para o Partido Comunista, cada negócio que sobrevive —apesar das quedas de energia, dos impostos e das ameaças— demonstra que essa transição já começou, de baixo para cima e contra a corrente.

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Iván León

Licenciado em jornalismo. Mestrado em Diplomacia e Relações Internacionais pela Escola Diplomática de Madri. Mestrado em Relações Internacionais e Integração Europeia pela UAB.