A revolução devora seus próprios filhos: O julgamento de Gil reabre a longa lista de sacrificados pelo castrismo



O julgamento de Alejandro Gil por espionagem revela um padrão histórico do castrismo: sacrificar seus leais para desviar a atenção em tempos de crise. Sem transparência e garantias, o regime procura um bode expiatório.

Carlos Lage, Alejandro Gil e Felipe Pérez RoqueFoto © Collage

O juízo por espionagem contra o ex-ministro da Economia Alejandro Gil não apenas marca a queda de um dos homens mais próximos de Miguel Díaz-Canel; também revive um padrão que acompanha o castrismo há décadas: a necessidade de fabricar culpados internos para proteger a elite e desviar a atenção do país em crise. A cena é conhecida e se repete com precisão quase ritual. Quando o sistema entra em decomposição, alguém deve cair. E desta vez, esse alguém é Gil.

Este lunes, o jornalista de Martí Notícias Mario J. Pentón o descreveu com uma frase que resume o momento político: “Em Cuba, a revolução sempre devora seus próprios filhos como Saturno”.

É uma acusação devastadora que faz sentido quando se observa a trajetória de outros altos funcionários que, como Gil, foram promovidos, celebrados e depois jogados na fogueira pública quando deixaram de ser úteis.

Carlos Lage caiu primeiro. Depois, Felipe Pérez Roque foi apresentado como traidor após ser um dos rostos visíveis do regime. Em seguida, veio a queda de Marino Murillo, que continua vivendo com privilégios, apesar de ter conduzido o fracassado ordenamento econômico.

Cada um, em seu momento, foi convertido em exemplo disciplinar. Todos serviam à revolução até o dia em que a revolução decidiu sacrificá-los.

O próprio Gil seguiu o mesmo caminho. Ele foi o rosto da reorganização, o homem que repetia que “o único caminho é o socialismo”, o funcionário que defendia cada ajuste enquanto a população sobrevivía entre filas infinitas e apagões.

Não tomou decisões sozinho, lembra a irmã do ex-ministro, María Victoria Gil, tudo foi aprovado por Díaz-Canel, por Raúl Castro, por Manuel Marrero e por todo o Buró Político. Mas agora está abandonado, isolado e apresentado como espião da CIA em uma armação que nem mesmo seus críticos mais severos consideram credível.

O sacrifício tem um propósito político que não requer muita explicação. O país vive um colapso econômico profundo. As protestas se repetem diariamente, os apagões desesperam a população e a fome atinge cada vez mais forte.

O regime precisa de um inimigo interno. Precisa de alguém que absorva a culpa acumulada por uma década de erros, improvisações e arbitrariedades. Precisa de um bode expiatório que esconda a incompetência generalizada da cúpula.

Enquanto isso, a família de Gil vive o outro lado do processo. A filha,  Laura María Gil, que foi impedida de entrar no julgamento a portas fechadas, afirma "sentir-se vigiada por um carro preto que a segue onde quer que vá", diz sua tia. A esposa esteve detida durante quatro meses. A casa foi vasculhada sem aviso prévio; telefones, documentos e computadores foram confiscados.

Não há transparência, não há garantias processuais, não há acesso público às acusações. O julgamento ocorre em completo secretismo, como exige um sistema que silencia quem sabe demais.

A queda de Gil revela, mais uma vez, como funciona o poder em Cuba. Os mesmos que assinam as decisões são os primeiros a desaparecer quando a situação se descontrola. A revolução precisa devorar seus próprios quadros para manter a aparência de ordem. E enquanto o país afunda, o castrismo continua consumindo aqueles que um dia chamou de “os filhos mais leais da pátria”.

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