A vários dias de concluído o juízo por espionagem contra o ex-ministro da Economia Alejandro Gil, o silêncio do regime contrasta com os testemunhos que começam a emergir do exterior.
Sua irmã, María Victoria Gil, ex-apresentadora da Televisão Cubana, rompeu novamente o cerco informativo e revelou um dado que impacta tanto no pessoal quanto no político, ao confirmar que Alejandro Gil poderia ter se tornado cidadão espanhol e não quis.
En entrevista com o jornalista Mario J. Pentón, de Martí Noticias, a irmã do ex-ministro de Economia e Planejamento, destituído em fevereiro de 2024, contou que ambos tinham direito à cidadania espanhola por parte de seus quatro avós galegos. Ela regularizou sua situação e tentou convencê-lo a fazer o mesmo. A resposta de Gil foi categórica.
“Irmão, aproveita que eu tenho toda a documentação para que você também se torne cidadão espanhol”, disse-lhe. “Não preciso disso. Eu vivo em Cuba, sou feliz, dou a vida pelo meu país e não preciso ser espanhol”, foi a resposta do então também vice-primeiro-ministro.
Essa decisão, tomada antes de sua queda, hoje pesa sobre toda a família. Seus filhos, afirma María Victoria, já não podem se beneficiar da Lei da Memória Democrática, o que os deixa amarrados a Cuba enquanto seu pai enfrenta acusações que podem levá-lo à prisão perpétua. “Eles terão que ficar em Cuba”, lamentou.
As revelações não param por aí. Segundo a irmã, fontes “muito confiáveis” lhe confirmaram que o regime acusa Gil de espionar para a CIA, algo que ela considera absurdo e que o ex-ministro, assegura, “nega categoricamente, ponto a ponto” desde o início das investigações. Ela também afirma que a defesa de seu advogado foi “brilhante”.
Outro ponto de impacto humano em seu testemunho é a cronologia da queda do ex-ministro, citando o primeiro-ministro cubano Manuel Marrero no centro da desgraça de sua família.
A irmã assegura que, após várias convocações e entregas de documentos, Gil e sua esposa foram levados para uma casa operacional do Ministério do Interior, onde ficaram quatro meses. Ela pensou que tudo era “um grande circo”, até que soube que depois o transferiram para a prisão de máxima segurança de Guanajay, onde ele só recebe visitas de 15 minutos a cada 15 dias.
María Victoria aponta para Marrero como o principal executor do processo: “É a pessoa que esteve à frente e por trás de tudo isso”. E embora geralmente se critique publicamente a Díaz-Canel, ela afirma que o governante “não sabia de nada” da investigação, o que, se for verdade, retrataria um mandatário desinformado dentro de seu próprio círculo.
“Ela não vai se livrar da prisão perpétua”, disse a irmã, convencida de que a sentença já está escrita.
Entre silêncios oficiais e vozes familiares que se atrevem a falar de longe, a história de Alejandro Gil mostra não apenas a brutalidade interna do poder em Cuba, mas também a tragédia íntima de um funcionário que poderia ter ido embora e escolheu ficar.
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