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O secretário de Transporte dos Estados Unidos, Sean Duffy, lançou uma campanha nacional para "recuperar a civilidade" nas viagens aéreas, convidando os cidadãos a se vestirem novamente de forma "elegante" para ir ao aeroporto, manterem o bom humor, ajudarem outros passageiros e agradecem ao pessoal das companhias aéreas.
A iniciativa, denominada "A idade de ouro das viagens começa com você", foi apresentada nas redes sociais por meio de publicações no Instagram e no X.
Duffy afirmou que o aumento do comportamento conflituoso a bordo - que cresceu 400% desde 2019, segundo o próprio Departamento de Transporte - exige uma resposta cultural.
O secretário insiste que os viajantes devem recuperar "a elegância e os bons modos", e que a solução pode começar com algo tão simples como "se vestir bem para ir ao aeroporto", "manter-se de bom humor" e ajudar estranhos a colocar a bagagem.
No entanto, o Departamento de Transporte não definiu exatamente o que significa "vestir-se com respeito".
Em um vídeo divulgado para a campanha, alternam-se cenas de voos do passado e fragmentos atuais de brigas em aviões, pessoas descalças com os pés pendurados em assentos abertos, discussões na área de retirada de bagagens e altercações com o pessoal dos aeroportos.
A narrativa conclui com Duffy olhando para a câmera e dizendo: "Os bons modos não param na porta".
Entre a moral e a sanção: relatórios de multas e advertências
Em contraste com o tom amigável das publicações de Duffy, o tablóide britânico The Sun relatou que a campanha da administração Trump poderia resultar em multas ou até proibições de voo se os passageiros não se "vestirem com respeito", uma medida apresentada como parte das regras de viagem para as festas de fim de ano.
O meio citou dados que indicam 1.431 incidentes de má conduta em 2025, resultando em 2,1 milhões de dólares em multas.
Enquanto isso, Duffy insiste em sua mensagem de civismo.
Em uma entrevista repleta de referências ao passado, afirmou que os passageiros devem evitar "se vestir como se fossem dormir".
Também pediu que se ajude gestantes e idosos, que os pais controlem seus filhos e que todos digam "por favor" e "obrigado".
Críticas: nostalgia idílica, soluções simbólicas e um sistema que continua falhando
Embora o governo tente promover uma "idade de ouro" baseada em modos de agir e vestimenta, especialistas, defensores dos consumidores e viajantes expressam dúvidas sobre a efetividade da mensagem.
Analistas consultados por CBS News concordam que pedir que as pessoas se vistam "com respeito" não modificará a raiz do problema: o estresse, o mal planejamento de voos, a superlotação e a deterioração do serviço aéreo.
Chris Elliott, especialista em direitos do consumidor, destacou que essa nostalgia pelo passado ignora uma diferença fundamental: "A classe turista era realmente agradável. Agora, todo mundo vai apertado nos aviões."
Para milhões de passageiros, vestir-se com elegância não atenuaria o desconforto de trajetos de várias horas em assentos cada vez menores.
Outros enfatizam que, quando nos anos 60 e 70 a maioria viajava bem vestida, voar era um privilégio reservado quase exclusivamente aos ricos.
Scott Keyes, fundador de Going.com, lembrou que a suposta "era de ouro" era pior do que a atual em muitos aspectos. "Os voos duravam mais, não havia wifi e a fumaça do cigarro se espalhava pelas cabines", detalhou.
Uma mensagem moral após uma gestão polêmica
Embora pregue cortesia, Duffy enfrenta críticas pelo seu histórico recente como funcionário responsável pelo transporte.
Durante sua gestão, supervisionou reduções de horários de voo e milhares de cancelamentos durante o fechamento do governo, em um sistema já saturado.
Além disso, apenas meses antes, a administração Trump revogou uma regra que obrigava as companhias aéreas a compensar os passageiros por atrasos e cancelamentos causados por elas mesmas, uma decisão considerada regressiva para o consumidor.
Para os críticos, pedir elegância na vestimenta enquanto se elimina a proteção aos passageiros é equivalente a focar nas aparências enquanto se ignoram os problemas estruturais que geram o caos.
Cortesia ou distração?
Embora a campanha seja divulgada como uma tentativa de elevar os padrões de comportamento, especialistas consultados pela imprensa americana insistem que não terá impacto prático e alertam que pode servir como uma cortina simbólica para uma gestão de transporte que não conseguiu garantir melhor infraestrutura nem direitos para os viajantes.
Como resumiu Daniel Green, cofundador da Faye Travel Insurance: "É apenas uma campanha bem-intencionada sobre como se comportar em público, que provavelmente não terá implicações reais para as pessoas".
Enquanto isso, as companhias aéreas continuam lotadas, os assentos continuam se estreitando, as regulamentações de proteção ao consumidor foram enfraquecidas...
Segundo Duffy, a "idade de ouro das viagens" começa com o passageiro. Para muitos, deveria começar com o governo que regula a indústria.
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