Regime cubano teme pressões dos EUA na próxima votação da ONU sobre o embargo

Bruno Rodríguez Parrilla convocou a imprensa internacional para dedicar cerca de uma hora a negar as acusações americanas sobre o recrutamento de mercenários cubanos por parte da Rússia e a denunciar o que qualificou como uma “campanha de chantagem e desinformação”.

Bruno Rodríguez Parrilla durante sua intervençãoFoto © X / @BrunoRguezP

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La Habana tentou nesta quarta-feira retomar a iniciativa diplomática com uma extensa coletiva de imprensa presidida pelo chanceler Bruno Rodríguez Parrilla, dedicada a denunciar a estratégia dos Estados Unidos para alterar o voto da próxima resolução sobre o embargo na Assembleia Geral da ONU.

Visivelmente nervoso, o chanceler do regime cubano convocou a imprensa internacional de maneira extraordinária para dedicar quase uma hora a negar as acusações estadunidenses sobre o recrutamento de mercenários cubanos por parte da Rússia e denunciar o que qualificou como uma “campanha de chantagem e desinformação”.

Captura de tela X / @BrunoRguezP

O chanceler acusou Washington de exercer “pressões brutais” sobre governos da América Latina e Europa para modificar sua postura tradicional de apoio a Cuba.

Segundo Rodríguez Parrilla, o Departamento de Estado estaria distribuindo “cartas ameaçadoras” a embaixadas estrangeiras, instando a votar contra Havana na sessão do dia 29 de outubro, que voltará a debater a resolução intitulada “Necessidade de pôr fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América contra Cuba”.

“Trata-se de uma campanha falsa, caluniosa e desrespeitosa da soberania dos Estados membros da ONU”, afirmou o ministro, mostrando supostos documentos diplomáticos americanos. “Os Estados Unidos tentam intimidar seus aliados com ameaças de sanções se não modificarem seu voto.”

Uma defesa repetida e sem respostas

O discurso de Rodríguez Parrilla, repleto de referências ideológicas e acusações contra Washington, evitou, no entanto, abordar os temas que mais têm deteriorado a imagem internacional do regime: a participação de milhares de cubanos na guerra da Ucrânia a serviço do Kremlin.

Denunciando os argumentos dos Estados Unidos como falsos, o titular do ministério das Relações Exteriores (MINREX) estendeu o descrédito e a difamação a meios internacionais como BBC, CNN, Deutsche Welle, Radio France, Reuters, Forbes, The Wall Street Journal e outros que, junto a fontes ucranianas e ao projeto ‘Quero Viver’ da contrainteligência desse país, publicaram depoimentos e evidências que documentam o recrutamento sistemático de cidadãos cubanos pelo exército russo.

Embora o chanceler tenha qualificado de “mentira” os números divulgados —que estimam entre 5.000 e 20.000 os cubanos inscritos nas forças russas—, as provas acumuladas nos últimos dois anos desmentem essa negação.

A inteligência ucraniana (HUR), juntamente com organizações como Prisoners Defenders e meios independentes de comunicação, como esta redação, identificou rotas aéreas a partir de Varadero e Cayo Coco em direção a Riazán, contratos assinados com o Ministério da Defesa russo e dezenas de depoimentos de recrutas e familiares.

Por sua parte, o Relatório sobre Tráfico de Pessoas 2025 (TIP) do Departamento de Estado dos Estados Unidos incluiu oficialmente o caso cubano como “uma forma de tráfico patrocinada pelo Estado”, ressaltando que o regime facilitou a saída de jovens com falsas promessas de emprego e acelerou a tramitação de passaportes e vistos com fins militares.

Para Washington, já não se trata de redes criminosas isoladas, mas de cumplicidade governamental direta.

Uma votação sob nova pressão internacional

Ao contrário dos anos anteriores, quando a votação nas Nações Unidas era um trâmite rotineiro com resultados previsíveis, este 2025 se apresenta com um clima inédito.

A administração de Donald Trump, reinstalada na Casa Branca, endureceu sua política em relação ao regime cubano e ativou uma estratégia diplomática para romper o consenso quase unânime que durante três décadas apoiou a resolução contra o embargo.

O cable interno do Departamento de Estado, vazado pela Reuters, instruiu as embaixadas americanas a “convencer governos aliados e parceiros internacionais a votarem contra ou se absterem”, argumentando que Cuba é o segundo país, depois da Coreia do Norte, com mais combatentes estrangeiros a serviço da Rússia.

O documento acrescenta que o regime de Díaz-Canel “não protegeu seus cidadãos de serem utilizados como peões na guerra de agressão” e que “seu silêncio equivale a cumplicidade”.

Fuentes diplomáticas em Nova York confirmaram a CiberCuba que Washington intensificou os contatos com representantes da América Latina e da União Europeia, enquanto Kiev também realiza esforços ativos para incluir o tema dos mercenários cubanos nas discussões sobre segurança internacional.

A coincidência temporal —a votação do embargo e o escândalo dos recrutas cubanos— colocou Havana na situação mais delicada de seu isolamento diplomático desde os anos noventa.

Um relato esgotado

O regime cubano insiste em responsabilizar o embargo por todos os males econômicos da ilha, repetindo o número —dificilmente verificável— de "mais de 170 bilhões de dólares em perdas" acumuladas desde 1960.

No entanto, estudos de instituições como a Brookings Institution e a Universidade de Columbia concordam que esses números carecem de respaldo técnico e omitem um fato essencial: os Estados Unidos continuam sendo um dos principais fornecedores de alimentos e produtos médicos para Cuba.

Segundo dados do Departamento de Agricultura (USDA), somente em 2024, Cuba importou 370 milhões de dólares em alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, incluindo frango congelado, trigo, milho e suplementos farmacêuticos.

Além disso, empresas estatais e privadas cubanas adquiriram maquinário agrícola, refrigeradores e peças industriais norte-americanas por meio de intermediários autorizados, evidenciando que não existe um “bloqueio total”, mas sim um sistema de sanções financeiras e comerciais - que afetam fundamentalmente os negócios da cúpula do regime, protegidos sob o guarda-chuva da GAESA - com claras exceções humanitárias.

A contradição entre o discurso e a prática econômica é cada vez mais visível. Enquanto Rodríguez Parrilla denuncia um “cerco genocida”, dezenas de Mipymes cubanas continuam a importar contêineres de produtos americanos, europeus e latino-americanos, que depois são revendidos no mercado interno a preços que triplicam seu valor de compra.

Cuba teme perder seu abrigo político

O nervosismo do chanceler não reflete apenas o peso das acusações sobre os mercenários, mas também o medo real de Havana de perder seu apoio tradicional na ONU.

Desde 1992, a resolução contra o embargo tem sido aprovada quase por unanimidade — 187 votos a favor em 2024 —, com os Estados Unidos e Israel como as únicas nações contrárias. Mas desta vez, a conjunção de fatores — a guerra na Ucrânia, as denúncias de tráfico humano, a campanha diplomática de Washington — pode fragmentar essa maioria e deixar o regime mais isolado do que nunca.

A este panorama se soma um contexto regional cada vez mais adverso para o eixo autoritário que integra Cuba, Venezuela e Nicarágua. Desde seu retorno ao poder, a administração Trump reativou uma política de contenção hemisférica baseada na velha doutrina de zonas de influência, que busca frear a expansão dos aliados da Rússia, China e Irã na América Latina.

Nas últimas semanas, o Comando Sul dos Estados Unidos tem intensificado sua presença no Caribe, com manobras navais conjuntas ao lado da República Dominicana, Barbados e outros parceiros regionais, no que Washington descreve como uma luta contra o narcotráfico e a captura do estado venezuelano pelo Cartel dos Soles, mas que em Havana e Caracas são percebidos como uma mensagem inequívoca de advertência.

Paralelamente, o regime de Nicolás Maduro enfrenta uma pressão diplomática crescente, sanções financeiras renovadas e um isolamento político que ameaça quebrar o suporte energético de Cuba, dependente do petróleo venezuelano. A Nicarágua, por sua vez, se encontra sob escrutínio internacional pela sua repressão interna e seus vínculos com Moscou e Teerã.

Neste novo tabuleiro geopolítico, a ilha deixa de ser um problema bilateral entre Cuba e os Estados Unidos para se transformar em um elo estratégico dentro de uma confrontação global pela influência no hemisfério ocidental, onde Washington pretende restaurar sua primazia e enfraquecer os regimes aliados de potências extra-hemisféricas.

Segundo Rodríguez Parrilla, “essa ansiedade reflete que o governo dos Estados Unidos compreende que o bloqueio provoca seu isolamento e descrédito”. Mas para muitos analistas, a ansiedade não está em Washington, mas em Havana. A diferença é que, desta vez, o regime não controla a narrativa.

A imagem de Cuba como "vítima" perde força diante dos dados, relatórios e testemunhos que a mostram como um ator cúmplice do expansionismo russo e um Estado que explora seus próprios cidadãos em missões médicas, militares ou laborais.

O chanceler prometeu que "a verdade prevalecerá sobre a pressão e a calúnia", mas a realidade é que o regime chega a esta votação enfraquecido, com sua economia em colapso, sua diplomacia sob suspeita e seu relato histórico em crise.

E se há algo que o castrismo teme mais do que as sanções, é o silêncio de seus antigos aliados quando chegar o momento de votar. Uma mudança no padrão dessas votações na ONU significaria um torpedo na linha de flotação de uma ditadura que, fracassada em todas as suas facetas econômicas, políticas e sociais, teme perder um dos poucos ativos que lhe restam no cenário mundial: esse poder simbólico de uma pequena ilha comunista, “revolucionária” e ferozmente “soberana”, enfrentando o "império" capitalista mais poderoso da história.

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Iván León

Licenciado em jornalismo. Mestrado em Diplomacia e Relações Internacionais pela Escola Diplomática de Madri. Mestrado em Relações Internacionais e Integração Europeia pela UAB.