Programa Mundial de Alimentos destinou 57,9 milhões de dólares a Cuba em quatro anos

Os fundos foram destinados à compra de arroz, grãos e óleo para auxiliar os setores mais vulneráveis e responder a emergências alimentares, que se tornaram parte do cotidiano no país. Enquanto cerimônias são realizadas em homenagem aos donativos, a produção agropecuária na ilha continua estagnada e a dependência internacional se aprofunda.

Almoço em uma escola cubanaFoto © CiberCuba

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O Programa Mundial de Alimentos (PMA) executou projetos em apoio à Segurança Alimentar e Nutricional de Cuba no valor de 57,9 milhões de dólares no ciclo de cooperação 2021-2025.

“Com esses fundos foram adquiridos arroz, grãos e óleo em benefício das pessoas mais vulneráveis e destinados a responder a emergências alimentares no país”, informou a área de Comunicação desta instituição da Organização das Nações Unidas à Agência Cubana de Notícias.

Según a informação, cinco milhões de dólares foram direcionados para garantir “uma dieta variada e nutritiva” a crianças do ensino fundamental nas províncias orientais, por meio do projeto “Apoio à alimentação escolar sustentável a partir do fortalecimento dos sistemas de produção local de alimentos em Cuba”. No entanto, esses esforços continuam limitados a “municípios selecionados”, sem impacto generalizado, nem garantia de sustentabilidade real.

Por outro lado, 32% dos 57,9 milhões de dólares foram aportados pela Federação da Rússia, através do Ministério da Proteção Civil, Emergências e Eliminação das Consequências de Desastres (EMERCOM)

Com os fundos russos, este ano foram adquiridas 844 toneladas métricas de óleo vegetal, das quais 656 toneladas já chegaram ao país. No dia 18 de junho foram entregues 470 toneladas, em um ato protocolar que contou com a presença de funcionários cubanos e do embaixador russo.

A isso se soma o projeto Actúa diferente, impulsionado pelo PMA, o governo cubano e a Agência de Cooperação Internacional da Coreia (KOICA), que entrou em sua segunda fase e se estenderá até 2029. Prevê alcançar cerca de 26.000 pessoas vulneráveis, das quais 54% incluem escolares de áreas rurais internas e semi-internas, crianças em creches, mulheres grávidas e pessoas idosas que recebem alimentos através de refeitórios comunitários e lares de idosos.

O projeto Actúa diferente pretende ampliar e consolidar os objetivos da primeira etapa, voltados para promover práticas agrícolas sustentáveis, aumentar e diversificar a produção, desenvolver insumos locais e conectar diretamente as formas produtivas com os centros das redes de proteção social.

De acordo com Etienne Labande, representante do PMA em Cuba, a iniciativa permitiu que os produtores locais “se adaptassem melhor aos desafios climáticos, reduzissem perdas e garantissem um abastecimento estável de alimentos para as comunidades, promovendo assim a segurança alimentar e a nutrição em um ambiente cada vez mais desafiador”.

Inicialmente, o projeto abarcou um município em cada uma das cinco províncias orientais, durante o período de 2021-2024. “A sua implementação permitiu aumentar os volumes de alimentos fornecidos pelas formas produtivas às redes de proteção social de 22,8 toneladas métricas para mais de 310 toneladas no último ano”, destacou Labande.

A segunda fase do projeto se estenderá até 2029, duplicando os municípios assistidos na região oriental: Jiguaní e Rio Cauto (Granma); Urbano Noris e Rafael Freyre (Holguín); Manatí e Jesús Menéndez (Las Tunas); Guamá e Songo La Maya (Santiago de Cuba); Niceto Pérez e Yateras (Guantánamo).

A cooperação, embora bem-vinda, revela a prolongada incapacidade do Estado cubano para garantir o mais básico: a produção eficiente e suficiente de alimentos. As ajudas são distribuídas em atos oficiais, mas tudo continua dependendo de recursos e tecnologia importados, em vez de um plano nacional coerente e autosuficiente.

A falta de soluções estruturais mantém Cuba no mesmo ciclo: receber para sobreviver. A segurança alimentar continua sendo construída de fora, sem respostas claras de dentro.

Em 2024, o governo cubano se viu obrigado a pedir apoio ao PMA para o fornecimento de leite em pó para crianças menores de sete anos, diante da grave situação econômica e alimentar que vive Cuba, foi ratificado com o país.

O setor agrícola cubano tem enfrentado múltiplos desafios nos últimos anos, como o envelhecimento da maquinaria, a falta de fertilizantes e insumos, assim como as restrições impostas aos pequenos produtores privados. A isso se soma a inflação galopante e as dificuldades logísticas decorrentes da crise econômica que o país enfrenta.

Os dados oficiais mais recentes refletem quedas significativas na produção de alimentos essenciais como carne de porco, arroz, raízes, ovos, leite de vaca, feijão e hortaliças, uma situação que confirma uma grande crise alimentar em Cuba.

Nem o salário mínimo, nem o salário médio, nem as ínfimas pensões que a maioria das pessoas aposentadas recebe são suficientes para cobrir as necessidades mais básicas de alimentação hoje em Cuba, onde uma hora de trabalho mal dá para comprar um punhado de arroz ou menos de um ovo.

Em meio a apagões que ultrapassam 24 horas, cozinhas paralisadas e alimentos que se estragam sem refrigeração, o acesso à comida em Cuba se tornou um privilégio. Muitas famílias em Cuba são obrigadas a comer apenas uma vez ao dia, e nas escolas e universidades a comida é cada vez mais escassa e de má qualidade, relatam algumas organizações.

Segundo dados oficiais, 39% dos aposentados cubanos recebe a pensão mínima mensal equivalente a 1,528 CUP por mês, e estão todos em risco de aumentar a lista de pessoas em situação de extrema pobreza.

Especialmente complicada é a situação de aqueles que não têm família no exterior para enviar dólares e conseguir ter acesso a uma dieta equilibrada na reta final de suas vidas. Dependem, exclusivamente do que chega às lojas, marcadas pelo racionamento extremo, a escassez e atrasos na distribuição de alimentos básicos como arroz e açúcar.

A inflação desenfreada derivada da malograda tarefa de Ordenamento encareceu os produtos de primeira necessidade, enquanto os salários permanecem estagnados e se deteriora o poder aquisitivo dos cubanos, exaustos das filas, dos apagões, da fome e da desesperança.

No primeiro semestre de 2025, a crise alimentar em Cuba deixou de ser uma consequência pontual para se consolidar como uma emergência humanitária crônica, denunciou recentemente o Food Monitor Program (FMP), uma organização independente que monitora a (in)segurança alimentar na ilha.

Perguntas frequentes sobre a crise alimentar em Cuba e a ajuda internacional

Quanto dinheiro o Programa Mundial de Alimentos destinou a Cuba nos últimos anos?

O Programa Mundial de Alimentos (PMA) destinou 57,9 milhões de dólares a Cuba no período de 2021 a 2025, com o objetivo de apoiar a segurança alimentar e nutricional no país. Esses fundos foram utilizados para a aquisição de alimentos básicos como arroz, grãos e óleo, destinados principalmente às pessoas mais vulneráveis.

Qual foi o impacto da ajuda internacional na segurança alimentar de Cuba?

Apesar da ajuda internacional, a segurança alimentar em Cuba continua sendo uma preocupação crítica, uma vez que o apoio externo não conseguiu mitigar completamente a crise alimentar. Os projetos financiados por organizações internacionais como o PMA e a FAO costumam estar restritos a determinadas áreas e não garantem uma sustentabilidade a longo prazo, evidenciando a dependência do país em relação a recursos e tecnologia importados.

Qual é a situação atual da distribuição de alimentos em Cuba?

A distribuição de alimentos em Cuba enfrenta sérios problemas de escassez e atrasos, afetando particularmente produtos da cesta básica como arroz, açúcar e leite em pó. A situação é especialmente crítica nas províncias orientais e centrais, onde a logística de emergência e os problemas de transporte agravam a falta de abastecimento.

Em que consiste o projeto "Actúa diferente" em Cuba?

O projeto "Actúa diferente", implementado pelo PMA, pelo governo cubano e pela Agência de Cooperação Internacional da Coreia, busca promover práticas agrícolas sustentáveis e melhorar a segurança alimentar nas províncias orientais de Cuba. A iniciativa pretende aumentar e diversificar a produção local de alimentos, embora seu alcance ainda seja limitado e dependa da cooperação internacional.

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