O governo cubano defende as missões médicas internacionais e as compara com programas dos EUA.

O vice-chanceler cubano Carlos Fernández de Cossío defendeu as missões médicas internacionais de Cuba. No entanto, suas declarações omitem as denúncias sobre controle estatal, confisco de salários e violações dos direitos trabalhistas dos médicos cubanos no exterior.

Médicos cubanos em missões (Imagem de referência)Foto © Misiones.minrex.gob.cu

En uma recente entrevista no programa Democracy Now!, o vice-chanceler cubano Carlos Fernández de Cossío tentou desmontar as acusações de trabalho forçado nas missões médicas internacionais de Cuba, afirmando que o programa estatal “é muito similar” ao de organizações americanas, europeias ou até mesmo agências das Nações Unidas.

"Os termos desta cooperação [...] estão em total consonância com o que a Organização das Nações Unidas pratica e o que muitos países fazem ao prestar assistência", afirmou o funcionário, ao responder a declarações do secretário de Estado dos EUA Marco Rubio, que denunciou em várias ocasiões que “o regime cubano não paga esses médicos. Toma seus passaportes e, basicamente, é, em muitos sentidos, trabalho forçado”.

En suas declarações, Fernández de Cossío acusou Rubio de mentir: “Ele conhece muito bem [...] que esses médicos recebem seu salário integral em Cuba enquanto prestam serviços em outro país, [e que] recebem um estipêndio digno, amplo, que aumenta seu nível de vida e é melhor do que o que seus colegas têm em Cuba”.

O vice-chanceler defendeu o programa como um gesto de solidariedade e cooperação internacional, alegando que “recebeu elogios de governos, de vários secretários-gerais das Nações Unidas, pela capacidade que teve de prestar assistência médica a milhões de pessoas”.

No entanto, seu discurso omite o essencial: que o governo cubano fica com a maior parte do salário que os países receptores pagam por esses serviços, e que muitos médicos não podem se recusar a participar sem enfrentar represálias, desde sanções laborais até restrições de saída do país.

Embora Fernández de Cossío insista que as missões se baseiam em acordos “bilaterais com cada país”, o regime não permite que os médicos negociem suas condições, nem que exerçam livremente sua profissão fora da supervisão do Estado.

Diversos informes, entre eles os da Human Rights Watch e depoimentos coletados por meios independentes, documentam um padrão constante: confisco de passaportes, retenção de salários, vigilância nos países de destino e punições a quem desertar ou se recusar a cumprir uma segunda missão.

A afirmação de que os médicos são “melhor remunerados” e “dignamente tratados” contradiz o que os próprios médicos cubanos têm denunciado há anos. Muitos deles fogem durante as missões, rompem com suas famílias e enfrentam a punição de não poder retornar à ilha por pelo menos oito anos.

Fernández de Cossío também tentou justificar o sistema de missões médicas dentro do discurso oficial de “agressão econômica” por parte dos EUA: “O objetivo [do embargo] é cercar Cuba e isolá-la da economia internacional. [...] Isso repercute na vida dos cubanos”, disse.

O que o vice-canceler não menciona é que, enquanto denuncia um “bloqueio econômico sem precedentes”, as missões médicas representam uma das principais fontes de receita para o regime, que arrecada anualmente bilhões em moeda forte às custas do trabalho dos profissionais de saúde.

O impacto humano: entre a vocação e o sacrifício forçado

Mais além do discurso diplomático, as missões médicas são para muitos cubanos uma experiência ambivalente: a possibilidade de melhorar suas condições de vida temporariamente, mas também uma ferramenta de controle político, isolamento familiar e exploração.

A comparação com a ONU, longe de esclarecer, busca despolitizar um modelo criado para beneficiar o Estado, e não seus trabalhadores. Nas palavras do próprio vice-ministro: “Rubio [...] deve ter mentido. Primeiro os acusou de serem agentes do governo cubano, agentes de inteligência [...]. Agora mudou sua narrativa e diz que é trabalho forçado, que se trata de escravos, que não são pagos. Tudo isso é uma falácia”.

Para os médicos cubanos, no entanto, essas “falácias” descrevem uma realidade que muitos vivenciaram na pele. E para milhares de cubanos dentro e fora da ilha, o debate não é sobre diplomacia, mas sim sobre direitos, dignidade e liberdade.

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