Protesto em comunidade rural de Guisa após meses sem eletricidade: “Nos prometeram luz e levaram os cabos”

Os moradores de Bejuquero saíram em massa para protestar após mais de três meses sem eletricidade, denunciando o desmantelamento de cabos instalados para uma eletrificação que as autoridades prometeram desde o ano 2000.


A comunidade de Bejuquero, localizada no município montanhoso de Guisa, na província de Granma, protagonizou recentemente uma protesto público após ficar mais de três meses sem fornecimento de eletricidade.

A indignação dos moradores explodiu ao constatar que, em vez de avançar na prometida eletrificação, as autoridades retiravam fios elétricos enquanto ofereciam explicações evasivas.

Captura de tela Facebook / Angélica María Aliaga Carrazana

Um vídeo compartilhado pela usuária do Facebook Angélica María Aliaga Carrazana mostrou o descontentamento popular na região, onde se reuniram dezenas de moradores que vieram dos arredores para protestar ao tomarem conhecimento de que as autoridades estavam desmontando a fiação instalada para a eletrificação prometida.

“Estamos há mais de três meses no escuro. Desde 2000 nos disseram que iriam nos eletrificar, vieram, derrubaram os cabos e, enquanto conversavam conosco, estavam cortando-os”, denunciou Aliaga Carrazana em sua publicação.

Na gravação compartilhada, vê-se um oficial (aparentemente um Tenente-Coronel) com uniforme do ministério do Interior (MININT) oferecendo explicações que os moradores rejeitam com gritos e expressões desafiadoras. "Levem-nos para a cela se quiserem", é ouvido dizer uma residente.

Ao fundo do tumulto da vizinhança, pode-se ver um caminhão de cor verde (presumivelmente militar) com operários trabalhando na desmontagem da fiação instalada.

Protestos que se repetem diante de uma crise energética estrutural

Este novo episódio de descontentamento não é isolado. Em novembro de 2024, outra comunidade do mesmo município —o Reparto Militar de Guisa— enfrentou as autoridades locais após um transformador avariado deixar seus habitantes sem eletricidade.

As autoridades decidiram então conectar a população ao Sistema Electroenergético Nacional (SEN), uma medida que foi rejeitada pelos moradores, que temiam maior instabilidade devido aos contínuos apagões que afetam a rede nacional.

Em ambos os casos, os moradores saíram às ruas para exigir respostas. Os vídeos compartilhados pelos vizinhos mostram pessoas reivindicando com firmeza seu direito a uma vida digna, enquanto os funcionários locais eram confrontados pela falta de soluções concretas.

Em novembro, a visita da primeira secretária do Partido Comunista de Cuba (PCC) em Granma, Yudelkis Ortiz, não conseguiu acalmar os ânimos no Reparto Militar de Guisa. Uma publicação sua no Facebook se concentrou em temas gerais e evitou abordar o conflito, o que gerou ainda mais críticas entre os afetados.

Em 2017, CiberCuba reportou o caso do pequeno Osmani Suárez, residente de Bejuquero, que sofria de asma brônquica crônica e cuja vida foi seriamente comprometida pela falta de eletricidade.

Sua mãe denunciou então que eles dispunham apenas de uma planta geradora durante quatro horas por dia, e que, ao não contar com um consultório médico nem acesso rápido a medicamentos, seu filho acabou na terapia intensiva após uma crise. O povoado, habitado por cerca de 600 pessoas, depende da localidade de Horneros — a oito quilômetros — para qualquer urgência sanitaria, e muitas vezes nem mesmo conta com transporte de ambulância devido à escassez de combustível.

“Se meu filho morrer, será pela falta de eletricidade”, disse então a mãe, resumindo a tragédia cotidiana de muitas famílias rurais cubanas.

Propaganda oficial diante do abandono real

Enquanto isso, o aparelho de propaganda do regime continua exaltando supostos feitos no setor elétrico na província de Granma.

Yolaine Ramírez Carrazana, atual diretora da Unidade Empresarial de Base (UEB) 'Centro Integral de Atendimento ao Cliente' (CIAC), na Empresa Elétrica de Granma (empresa da qual também foi diretora geral), tem sido objeto de múltiplas reconhecimentos por sua “dedicação” e “liderança”, segundo Radio Bayamo.

Em 2019, a UEB de Guisa foi distinguida com a Bandeira de Vanguarda Nacional, e em 2024, a própria Ramírez Carrazana recebeu a medalha Ñico López por seus “resultados destacados”, conforme refletido pelo meio oficialista La Demajagua.

Esses prêmios contrastam com a realidade de centenas de famílias que vivem total ou parcialmente desconectadas da rede, ou que dependem de painéis solares sem manutenção e sem capacidade para atender suas necessidades básicas.

Segundo dados recentes oferecidos ao jornal Granma Geider Mompié Rodríguez, 587 dos 2.879 painéis solares instalados na província estavam danificados em abril de 2023. Naquela época, o diretor reconheceu que não contavam com os recursos necessários para sua reparação.

Entre a desinformação e o desencanto

A política energética do regime tem sido marcada por uma narrativa de autossuficiência e avanços tecnológicos, com promessas de mudanças na matriz energética e expansão de parques solares.

No entanto, os funcionários reconheceram que esses projetos não resolvem o déficit estrutural de geração elétrica. Granma, por exemplo, consome entre 100 e 120 MW no pico do meio-dia, mas seu maior parque solar entrega apenas cerca de 21 MW, ou seja, 20% do que é necessário, reconheceu o próprio Mompié Rodríguez à Radio Bayamo.

Nesse contexto, protestos como o de Bejuquero se tornam cada vez mais frequentes, alimentados pela frustração acumulada e pela ausência de soluções reais. Comunidades rurais inteiras continuam aguardando a chegada de um serviço básico, enquanto as autoridades celebram metas que existem apenas em discursos e manchetes oficiais.

A desconexão entre a retórica triunfalista e a vida cotidiana dos cubanos nessas áreas não eletrificadas revela o profundo desgaste de um sistema que perdeu a capacidade de responder, mesmo nas questões mais básicas.

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