O criador de conteúdo cubano conhecido no TikTok como @el.profesor.cubano, radicado em Cartagena, Murcia, provocou reações nas redes após publicar um vídeo no qual detalha com crueza o que se pode comprar hoje em Cuba com um salário médio.
“Para você, amigo espanhol que me vê, que não sabe como são as jogadas em Cuba, eu vou te explicar rapidinho o que se pode comprar com um salário,” começa dizendo o jovem, filho do humorista Antolín El Pichón.
O vídeo, que dura pouco menos de três minutos, provocou um aluvhão de comentários tanto de cubanos quanto de espanhóis, surpreendidos com a descrição de uma realidade que muitos desconhecem. “Você ganha cerca de 15 euros por mês, digamos 20... vai, digamos 20 por mês, você tem um salário tremendo. Você vai comprar isto: umas toalhinhas umedecidas. O preço é mais ou menos o mesmo, até mais caro, em Cuba”, diz o jovem enquanto mostra o produto em câmera.
Em seguida, explica que não se trata apenas de ir à loja para comprar, mas de se lançar numa corrida desesperada ao ouvir que “saiu toallita”. “Te chamou fulana: ‘ei, se apresse, que no mercado tal saiu toallita’. Nessa hora, se você está lavando, se você está... não, vai, pega a bicicleta, vai a pé, vai por ali para ver se consegue alcançar as toallitas”.
Além da descrição do desabastecimento, o vídeo revela o sistema de favores, trocas... que muitas vezes se impõe no acesso a bens básicos. “Você tem o número de telefone da pessoa que trabalha na loja. ‘Reserva um pacotinho pra mim que vou aí em 10 minutos’. Mas esse ‘reserva um pacotinho’ quer dizer que ela é muito sua amiga, ou que vocês têm um acordo”, explica. “Talvez você trabalhe na padaria e como o pão... já sabe como é... então você resolve um pãozinho de vez em quando”.
O cubano continua enumerando o que se pode comprar com um salário mensal: uma salsicha, um hambúrguer e, se tiver sorte, um xampu, dois quilos de arroz e um sabonete. “Essa gelatina não existe. Se você conseguir, já acho que seu salário está acabando. Esse tipo de coisa nunca se compra. Se você ganha 20 euros, o que vai comprar com isso que custa 3 e pouco em Cuba, 4? Isso tem que ser comprado por um amigo seu quando vai, talvez porque sabe que seu filho não come um biscoito há 500 anos.”
A publicação gerou dezenas de reações, muitas delas de apoio e confirmação por parte de outros cubanos. Uma usuária comentou: “Professora, 20 é muito. Minha irmã é formada em Direito e ganha aproximadamente 11 euros”, enquanto outra sinalizava que com 1.500 pesos, a pensão mínima, mal consegue comprar um quilo de arroz, alguns feijões e três ovos. “Triste a realidade. A maioria não chega a 10 euros mensais”, acrescentou outra pessoa. De fora de Cuba também houve comoção. “Que medo ser mãe lá. Não te permitem nem alimentar seus filhos”, escreveu uma espanhola, enquanto outra destacava: “Na Espanha temos que lutar, mas em Cuba...”.
O vídeo também gerou perguntas de usuários europeus que tentavam entender como é possível sobreviver com rendimentos tão baixos. “E como eles têm telefone ou internet se não têm para comer?”, perguntou um usuário. “Nós, os familiares que vivemos fora, os ajudamos... para você entender melhor: os sustentamos”, respondeu outro internauta. A realidade das remessas como suporte básico de milhares de famílias cubanas voltou a se tornar visível na seção de comentários.
Outros foram mais diretos em sua crítica ao sistema. “Tudo está assim por causa do comunismo. Pobre do país que seguir o modelo cubano”, opinou um usuário identificado como @roy. “Depois os cubanos que vivem na Espanha reclamam de tudo”, ironizou outro. Não faltaram aqueles que tentaram comparar a situação com a Espanha: “Com 1.800 euros não se faz nada aqui”, disse alguém. O próprio criador respondeu a várias dessas opiniões com frases como “Sim” e “Exatamente”, reforçando seu testemunho com o apoio de quem vive ou já viveu a mesma realidade.
O vídeo de @el.profesor.cubano se inscreve dentro de uma onda de conteúdos que, nos últimos meses, têm documentado a impossibilidade de cobrir necessidades básicas em Cuba com os salários estatais. Recentemente, de Matanzas, uma jovem mostrou que com a pensão mínima de um aposentado conseguiu comprar apenas arroz, feijão, três ovos e um pouco de picadillo. Em outro caso recente, um criador conhecido como El Henry publicou um passeio por quiosques habaneros onde tentou fazer uma compra com o salário mínimo de 2.100 pesos: teve que sacar dinheiro extra para completar duas pizzas.
Também uma professora cubana, em licença-maternidade, revelou que seu salário reduzido mal era suficiente para produtos básicos, sem poder se permitir um brinquedo de 1.000 CUP para seu filho. E em outro vídeo viral, uma mulher explicou como o salário de seu marido, advogado com um salário mensal de 4.700 pesos, não era suficiente para cobrir a compra semanal de alimentos.
Os preços em Cuba continuam em alta. No mercado de 19 e B em El Vedado, Havana, foram registrados mangas a 500 pesos por libra, limões a 600, ají cachucha a 1.000 e tomate a 120. Na recente Feira do Livro de Matanzas, livros recortáveis infantis foram vendidos por 1.050 CUP. Uma jovem também documentou ter gasto 22.000 pesos em alimentos e produtos básicos, conforme ficou registrado neste vídeo viral.
Incluso funcionários do regime reconheceram a inviabilidade da situação. Em fevereiro deste ano, o vice-presidente Salvador Valdés Mesa admitiu que “nem mesmo com um salário de 6.000 pesos se pode viver na ilha”, sem oferecer medidas concretas.
Embora em outras ocasiões tenha ganhado notoriedade por seus vídeos humorísticos, como um em que vendia produtos “à cubana” em um mercadinho na Espanha ou outro em que explicava à sua sogra o que deveria levar na mala para ir a Cuba, desta vez @el.profesor.cubano optou por um tom mais sério e direto. O encerramento de seu vídeo deixa claro: “Que ninguém te faça história. A jogada é como estou dizendo eu”.
Perguntas frequentes sobre a situação econômica em Cuba
O que se pode comprar com um salário médio em Cuba?
Com um salário médio em Cuba, que gira em torno de 15 a 20 euros mensais, é possível comprar muito poucos produtos básicos. O vídeo de @el.profesor.cubano mostra que com essa renda mal se consegue adquirir itens como toalhas umedecidas, uma salsicha, um hambúrguer, e com sorte, um shampoo, dois quilos de arroz e um sabão. Além disso, o acesso a esses produtos não é direto, pois implica em uma corrida para alcançá-los devido ao desabastecimento generalizado.
Como as remessas influenciam a economia dos cubanos?
As remessas desempenham um papel crucial na economia de muitas famílias cubanas. Uma vez que os salários em Cuba são insuficientes para cobrir as necessidades básicas, os familiares no exterior costumam enviar dinheiro para ajudar seus entes queridos na ilha. Esse apoio financeiro é indispensável para a sobrevivência de muitas pessoas, permitindo-lhes acessar bens e serviços que, de outra forma, seriam inalcancáveis.
Qual é a percepção dos cubanos sobre o acesso a produtos básicos em Cuba em comparação com outros países?
Os cubanos percebem uma grande diferença no acesso a produtos básicos em comparação com outros países. Em Cuba, a escassez e os altos preços são uma realidade cotidiana, enquanto em países como Espanha ou Estados Unidos, os produtos essenciais estão mais disponíveis. Este contraste se reflete na surpresa dos emigrantes cubanos ao ver a variedade de produtos em outros lugares e a dificuldade de imaginar como se sobrevive com os rendimentos atuais na ilha.
Quais estratégias os cubanos utilizam para sobreviver com baixos rendimentos?
Os cubanos recorrem a uma variedade de estratégias para sobreviver com baixos rendimentos. Isso inclui a troca, conexões pessoais para garantir produtos escassos e a dependência das remessas do exterior. Além disso, muitos participam da economia informal como uma forma de complementar seus rendimentos estatais e acessar bens básicos que não podem comprar com seu salário oficial.
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