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A empresa BioCubaCafé S.A. apresentou na Feira Internacional de Havana (Fihav) 2025 seu novo café “Guantánamo 155”, um produto premium criado em homenagem à cidade, mas destinado a vitrinas e mercados exclusivos, longe da realidade dos guantanameros que não conseguem adquirir nem mesmo o café normatizado.
A nova marca foi concebida como um tributo ao 155º aniversário da vila do Guaso. A apresentação reuniu diretores da empresa e autoridades locais, que destacaram o suposto vínculo entre identidade, história e futuro por meio de um produto de alta gama, informou o jornal oficial Venceremos.
Segundo as informações divulgadas pela própria empresa, o grão foi projetado como “gêmeo” do Santiago 510, com 25% da variedade Arábica e 75% Robusta, pensado para oferecer uma xícara de corpo forte e caráter definido.
A degustação no estande incluiu um harmonização com bombons de chocolate elaborados na província oriental, em uma tentativa de exibir um conceito gourmet voltado para mercados especializados.
A cena, no entanto, replica o que ocorreu com outros cafés apresentados durante a Fihav 2025, de 24 a 29 de novembro, quando marcas de luxo como Don Robusto e Raíces geraram indignação entre os cubanos devido ao contraste entre a ostentação oficial e a realidade das prateleiras vazias.
O café misto que antes era distribuído pela caderneta desapareceu das armazéns, e no mercado informal, um pacote pode alcançar preços inadmissíveis para a população.
Enquanto na feira são lançados novos produtos "premium", a população continua sem acesso ao café básico e depende de preços inacessíveis no mercado informal.
O lançamento de Guantánamo 155 volta a colocar o foco sobre uma indústria que produz para exportação ou venda em divisas, e não para o consumo nacional.
Em um país onde o café se tornou um artigo de luxo e as famílias recorrem a substitutos improvisados, o surgimento de outra marca exclusiva aprofunda a distância entre o discurso de modernização e a vida cotidiana de milhões de cubanos.
Embora o governo fale de "estratégias integrais" para estimular a produção de café, a realidade mostra campos abandonados, salários miseráveis e camponeses exaustos.
Os campos e as plantações de café estão destruídos. Não há mão de obra. E uma questão terrível é que os produtores não recebem pagamento. Que pessoa pode permanecer nesses campos com salários tão baixos e condições tão precárias?”, questionou semanas atrás a jornalista independente Miriam Leiva, citada pelo Diário de Cuba, durante um painel do programa Os pontos sobre as íes.
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