Cubanos explodem no Facebook: Esperança e ceticismo diante do suposto plano de Trump para Cuba, segundo o The Telegraph

A publicação do meio britânico sobre supostas intenções de Trump em relação ao regime cubano após a pressão militar sobre a Venezuela provocou uma intensa polêmica. A notícia revela a divisão emocional do exílio: esperança, ceticismo e um profundo desejo de mudança na ilha.


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A publicação de CiberCuba sobre um artigo de The Telegraph —que afirmava que o verdadeiro objetivo do presidente Donald Trump não seria a Venezuela, mas sim o regime cubano— provocou uma avalanche de reações entre os leitores.

Em menos de 24 horas, mais de 1.200 comentários inundaram a página do meio em Facebook, tornando-se um dos debates mais intensos dos últimos meses sobre o futuro político da ilha.

Captura de tela Facebook / CiberCuba

A resposta popular, diversa e contraditória, revelou algo mais profundo do que uma simples reação a uma notícia: um retrato emocional do exílio e da desesperança interna de um povo dividido entre a fé em uma mudança iminente e o cansaço acumulado após décadas de promessas não cumpridas.

Fé, esperança e desejo de liberdade

Para muitos, o título soou como um sinal divino. “Que assim seja”; “Deus o permita”; “Não aguentamos mais”; ou “Seria o melhor presente de fim de ano”, foi repetido em dezenas de mensagens.

A notícia foi recebida como uma possibilidade de redenção, um novo “dia zero” que poria fim a mais de seis décadas de repressão e escassez.

“Que venha o que tiver que vir, mas que termine este pesadelo”; “Se eu tiver que morrer, que seja vendo minha pátria livre”; “Pelo menos meus filhos viverão sem medo”.

A fé se misturou com a desesperação. Muitos escreveram orações, outros pediram “intervenção humanitária e militar” e alguns afirmaram que “já não resta outra saída”. Foi a linguagem de um povo esgotado, que, mesmo do exílio, continua sonhando em retornar a uma Cuba livre.

Incredulidade e cansaço

Frente à euforia, surgiu o coro dos céticos. "Isto é pura conversa fiada"; "Há sessenta anos dizem a mesma coisa";  "Muito barulho e poucas nozes". A notícia foi lida por outros como um capítulo a mais em uma história interminável de promessas não cumpridas.

“Sempre anunciam manobras, tropas, porta-aviões, mas nunca acontece nada”; “Nos deixam arrumados e bagunçados”; “Guerra avisada não mata soldados”.

Para uma parte dos leitores, o suposto plano de Trump é simplesmente “mais uma manchete para criar ilusões”, mais uma manobra eleitoral. “Nem Venezuela nem Cuba: isso é política interna dos Estados Unidos”, resumiu um dos comentários mais compartilhados.

O humor como trincheira

Como costuma acontecer entre cubanos, o humor encontrou espaço mesmo em meio à tensão. “O que Trump vai querer em Cuba, dengue e mosquitos?”, perguntou um. “Aqui não tem petróleo, só lixo e marabú”; “Se entrar, que traga cloro e tilápias”.

Outros ironizaram sobre o poder militar da ilha: “Mísseis? Se nem duralgina tem”; “Os foguetes de Cuba estão enferrujados desde os anos 80”; “Os únicos lançamentos que existem são os apagões”.

O sarcasmo serviu como uma catarse coletiva, uma forma de rir do medo e da impotência. Mesmo entre as piadas, filtrou-se o cansaço: “Estamos morrendo de fome, mas continuamos fazendo piadas. É a única coisa que nos resta”.

Entre o medo e o desejo de mudança

O anúncio também reavivou velhas feridas históricas. Alguns alertaram que “uma invasão trará morte, não liberdade”.

“As bombas não têm nome”; “Nenhuma guerra limpa traz democracia”. Outros responderam com crueza: “E isso também não é guerra?”; “O povo já está morrendo de outra forma, sem remédios nem comida”.

O dilema moral se repetiu em dezenas de intercâmbios: vale a pena uma intervenção estrangeira se o preço é a destruição?

“A liberdade custa sangue”, escreveram alguns. “Não queremos mais mortos”, responderam outros. “Mas se não acontece nada, também morremos”, concluiu uma usuária, como quem se resigna diante do destino.

Desconfiança e fratura

Também se multiplicaram as mensagens de desconfiança em relação à mídia e à política.

“Notícia falsa”; “Isto é pura invenção para buscar cliques”; “Trump não faz nada sem benefício e Cuba não tem nada a oferecer”. Outros defenderam a publicação: “Pelo menos aqui se fala sem censura”; “CiberCuba diz o que o noticiário de lá oculta”.

As discussões derivaram, como tantas vezes, em uma fissura emocional entre os que vivem dentro e os que estão fora da ilha. “Vocês pedem de Miami, mas aqui é onde caem as bombas”; “Nós também somos povo, e também sofremos de longe”.

Era uma luta de espelhos: todos clamando amor a Cuba, mas de margens diferentes.

Entre a memória e a ironia

Alguns evocaram o fantasma da Guerra Fria. “Se tocarem em Cuba, haverá outra crise dos mísseis”; “Os foguetes chegarão em três minutos”.

Embora outros tenham desmontado a ameaça com humor: “Nem arroz temos, você vai falar de mísseis”; “Os únicos mísseis aqui são os mosquitos”.

O passado ressurgiu nas conversas como advertência ou como zombaria. A história, para muitos, já não inspira respeito, mas sim tédio. “Estamos há sessenta anos ouvindo a mesma música, mas o disco já está arranhado”.

O espelho da pobreza

Além das paixões políticas, a maioria concordou em um diagnóstico: a miséria cotidiana.

“Não há comida, não há remédios, os hospitais estão colapsados”; “As pessoas estão morrendo de fome e de doenças sem nome”; “O país é um lixão”; “Cuba está desaparecendo sem bombas, por abandono”.

Alguns pediram “ajuda internacional antes que seja tarde”. Outros viram em uma possível intervenção a única forma de parar a deterioração: “Se eles não virem, nos extinguirem”.

A desesperação foi transversal: crentes e ateus, otimistas e céticos, todos reconheceram um mesmo país quebrado.

Uma conversa que desnudam Cuba

Em meio aos insultos e às orações, dos sarcasmos e das súplicas, surgiu um sentimento comum: o esgotamento. “Isso não é uma notícia, é um espelho”, escreveu alguém. “Aqui se vê como somos: desesperados, incrédulos e vivos”.

A publicação não apenas deu início a um debate: revelou a fratura emocional de uma nação dispersa. No fundo, a conversa digital foi um termômetro do país real —aquele que não aparece nos discursos oficiais—, um espaço onde os cubanos, por algumas horas, falaram sem medo.

Entre os "oxalás", os "já chega" e os "não acredito em nada", desenhou-se a Cuba do presente: um povo dividido, mas ainda expectante, ainda olhando para fora em busca de sinais.

E embora o futuro continue incerto, as redes deixaram uma certeza: a esperança, por mais frágil que pareça, continua viva.

Porque mesmo nos comentários mais céticos, o desejo se repete uma e outra vez, como um eco que se recusa a desaparecer: “Oxalá. Mas que seja agora”.

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Equipe Editorial da CiberCuba

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