Francisco Durán admite que os números de dengue e chikungunya em Cuba não refletem a realidade

O especialista reconheceu na televisão que os números de dengue e chikungunya em Cuba não refletem a realidade, em meio a uma crise sanitária com mais de 47.000 internados e contágios em todo o país.

Francisco Durán GarcíaFoto © Captura de vídeo Facebook / Canal Caribe

O doutor Francisco Durán García, diretor nacional de Epidemiologia do Ministério da Saúde Pública (MINSAP), admitiu nesta terça-feira na televisão estatal que os números de contágios por dengue e chikungunya reportados pelo regime “nem sempre correspondem à realidade”, uma vez que muitas pessoas doentes não recorrem aos serviços médicos e, portanto, não são registradas oficialmente.

“La informação que é coletada nas estatísticas nem sempre corresponde à realidade, porque muitas pessoas não vão ao médico”, reconheceu o funcionário durante sua apresentação no programa Buenos Días da Televisão Cubana.

Durán explicou que o país enfrenta uma “complexa situação epidemiológica” marcada pela circulação ativa do dengue e pela rápida expansão do chikungunya em todas as províncias do país.

Segundo precisou, no dia anterior foram registrados 1.706 pacientes com síndrome febril inespecífico, e foram internadas 3.226 pessoas, das quais 84,1% continuam sob atenção domiciliar.

Em total, 47.125 pacientes permanecem internados em instituições de saúde.

O funcionário reconheceu que a chikungunya é atualmente o principal problema de saúde, devido ao número de contágios e à gravidade dos sintomas.

Somente na jornada anterior foram reportados 3.103 casos suspeitos, "embora muitos sejam", um número que foi qualificado de “elevado para um único dia”.

Detallou que a doença apresenta uma forte incidência em Camagüey, Sancti Spíritus, Cienfuegos, Matanzas, Villa Clara, Artemisa, Havana, Guantánamo e Granma, províncias onde a transmissão se mantém ativa.

Durán apontou que 2.216 pacientes com diagnóstico de chikungunya permanecem internados, dos quais 126 estão hospitalizados e 63 encontram-se em unidades de terapia intensiva.

De esses, 44 estão graves e 19 em estado crítico; no total, 34 são menores de 18 anos, o que evidencia o impacto do vírus na população infantil.

Em relação ao dengue, o epidemiologista lembrou que se trata de uma doença endêmica em Cuba, presente em 14 províncias e 43 municípios, e que tem ocasionado falecimentos em surtos anteriores e também no atual, embora não tenha oferecido números atualizados de mortes.

A província de Granma apresenta novos focos ativos nos municípios de Bayamo e Río Cauto, além dos surtos já existentes.

Durante sua intervenção, o doutor Francisco Durán também se referiu ao vírus Oropouche, uma arbovirose detectada pela primeira vez em Cuba no início deste ano, e que gerou alarme após sua rápida expansão inicial.

O funcionário assegurou que desde setembro não foram diagnosticados novos casos, embora tenha precisado que continuam os testes e a vigilância epidemiológica em todo o país.

O epidemiologista tentou minimizar a importância dessa doença ao afirmar que o Oropouche “já não é o principal problema” sanitário, diante do aumento constante do chikungunya.

Durán também informou que a infestação pelo mosquito Aedes aegypti permanece em 0,70%, um número que ele classificou como elevado, pois implica “possibilidades de transmissão importantes”.

A pesar das campanhas de fumigação e abatização, o próprio funcionário admitiu que as ações “continuam sendo insuficientes”.

“Cumpriu-se 79% do que foi planejado e 223 equipamentos não trabalharam, dos quais 163 por falta de força. As ações de fumigação ainda são insuficientes”, disse, apontando que a escassez de pessoal e de equipamentos afeta gravemente a luta antivetorial.

Nas províncias de Pinar del Río, Artemisa, Matanzas e Sancti Spíritus, não foram realizados tratamentos insecticidas devido a quebras ou falta de recursos.

Sobre a disponibilidade hospitalar, Durán afirmou que no país existem 3.703 leitos habilitados para a atenção de pacientes com chikungunya, e garantiu que “não há doentes que necessitem de internação e não possam ser hospitalizados”.

Segundo o funcionário, as receitas são priorizadas para crianças e adultos com comorbidades, enquanto o resto permanece sob observação domiciliar.

No entanto, essa afirmação não menciona a escassez de medicamentos nos hospitais, uma das razões pelas quais as pessoas preferem ficar em casa.

O epidemiologista também reconheceu a "desesperação" de muitos cubanos diante das dores intensas e da lentidão na resposta sanitária.

Relatou que uma paciente se aproximou dele em um policlínico de Havana “dizendo que estava morrendo de mal-estar”, o que, segundo ele, reflete o sofrimento e a ansiedade que a doença provoca.

Apesar disso, Durán insistiu que a população deve manter a calma, embora tenha admitido que “é difícil trazer tranquilidade a alguém que está sofrendo essas dores”.

Por outro lado, o funcionário negou a presença do vírus do Nilo Ocidental no país, assegurando que o Instituto de Medicina Tropical “não diagnosticou nenhum caso” após realizar centenas de testes, embora tenha admitido que circulam outras arboviroses na ilha.

O reconhecimento público de que os números não refletem a realidade representa um fato pouco habitual na narrativa oficial do regime, que costuma mascarar dados ou minimizar surtos epidemiológicos.

A admissão de Durán, no entanto, confirma o que muitos médicos e cidadãos têm denunciado nas redes sociais: a crise sanitária em Cuba se agrava, e o sistema de saúde carece de meios para enfrentar uma epidemia que se expande a toda velocidade.

Enquanto o MINSAP insiste em informar números parciais e apelar ao “autocuidado”, a população enfrenta a falta de medicamentos, as deficiências na fumgação e o colapso dos hospitais.

Nos últimos dias, testemunhos de várias províncias relatam policlínicas saturadas, longas esperas e pacientes que, diante da falta de atendimento, optam por se tratar em casa.

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