Centenas de cubanos reagiram indignados nas redes sociais após as declarações do doutor Francisco Durán García, diretor nacional de Epidemiologia do Ministério da Saúde Pública (MINSAP), que afirmou que “onde aparece um caso, se fumiga” e defendeu o trabalho das brigadas antivetoriais no país.
As respostas não tardaram a chegar. “Onde fumigam? De verdade, vocês têm uma classe cara”, escreveu um usuário. Outro acrescentou: “Isso não é verdade, de que fumigação ele está falando?”.
As críticas se multiplicaram em questão de horas. "Onde fumigam? porque nem sequer pesquisam", perguntou outra pessoa, enquanto uma cubana reprochou: "Onde aparece um caso se fumiga? Eu respeito as pessoas mais velhas, mas isso é indignante! Que maneira de mentir para o mundo, sim, para o mundo, porque o povo não vê isso pela falta constante de eletricidade".
Desde diferentes municípios do país, os testemunhos coincidiram em denunciar a ausência de fumigações, investigações e controle sanitário. “Onde estão fumigando? Em Micro X, Alamar, vários casos e ninguém aparece, nem mesmo para verificar. Meus netos em Casablanca, a avó e outros familiares lá e não fumigam. Do que esse senhor está falando? Como sempre, não confrontam a realidade”, comentou outro usuário.
“Desculpe, Dr., mas onde é que estão fumigando? Meu bairro está em quarentena e não vieram por nada nem por ninguém. Nem uma pesquisa, nada. Deixem de encher o saco e, com todo respeito, Dr., não se deixe manipular”, escreveu uma internauta.
Desde o centro do país também chegaram testemunhos: “Onde é que estão fazendo a fumigação? Aqui onde eu moro, em Santa Clara, não vejo um fumigador há mais de três anos, nem nas casas nem nas ruas. É preciso pagar por isso e, mesmo assim, todas as províncias, incluindo a minha, estão todas infectadas com todas essas doenças.”
Outro cubano relatou: “Dr. Durán, minha quadra em Versalles, Santiago de Cuba, está cheia de casos de chikungunya, com um comprometimento importante do estado geral dos pacientes. Nem fumigam, nem recolheram o lixo, escombros de árvores que são criadouros de mosquitos e jejenes, e já se passaram nove dias.”
“Com todo o respeito que o doutor Durán merece, gostaria que me dissesse quem lhe disse que onde há um caso dessa dita doença vêm e fumigam. Perdão, que não o enganem mais, isso é mentira e isso está acabando em todo o país. É por essa razão e muitas outras que as pessoas ficam desesperadas. Isso é algo nunca visto”, expressou outro usuário, refletindo o sentimento de frustração e desconfiança geral.
A indignação se espalhou com mensagens mais duras: “Onde é isso, porque aqui todos temos estado mal e nunca vieram fumigar. Já chega de mentiras”. “Que cara mais dura... vergonha deveria sentir ao sair dizendo tantas mentiras”, disse uma cubana. “Mas você tem que se respeitar e parar de falar tantas coisas incertas”, acrescentou outra pessoa.
Às críticas sobre a fumigação se somaram as reclamações pela escassez de medicamentos. “Senhor, fale claro, eles ficam desesperados porque não há medicamentos”, comentou um usuário. “Analgésicos? De onde? Dois ou três trabalhando, isso não é por causa do vírus, isso já vem de anos. É uma atrás da outra”, destacou outro. Uma cubana foi mais direta: “Em qual farmácia de Cuba vendem analgésico? Todos estão no mercado negro e, aliás, bastante caros. Até quando vão mentir nos meios oficiais? Por favor, ponham os pés no chão e acabem de aterrizar na realidade.” E alguém concluiu: “Tudo é mentira. Meus pais têm proibido assistir a essas bobagens, tudo é mentira.”
As reações dos cidadãos contrastam com as palavras do próprio Durán, que recentemente afirmou que as fumigações foram intensificadas em Havana, Matanzas e Cienfuegos com o apoio das Forças Armadas Revolucionárias (FAR), e que o objetivo era “abatendo a infestação de mosquitos para interromper a transmissão”. Suas declarações fazem parte de uma intervenção onde alertou que o chikungunya, a dengue e o Oropouche mantêm Cuba em alerta e assegurou que as ações de controle foram reforçadas nas áreas mais afetadas.
No entanto, os próprios relatórios do MINSAP revelam um cenário muito mais crítico. Em seu último boletim, o ministério reconheceu mais de 20 mil casos de chikungunya e admitiu que 62% dos focos do mosquito Aedes aegypti estão concentrados em Havana, Santiago, Camagüey e Villa Clara, o que evidencia um controle deficiente da infestação e contradiz o discurso oficial sobre a eficácia da fumigação.
As contradições entre o discurso estatal e as denúncias populares aprofundaram a perda de confiança no doutor Durán, cuja imagem foi respeitada durante a pandemia de COVID-19, mas hoje enfrenta uma crescente onda de questionamentos públicos. Meses atrás, cidadãos já haviam lhe advertido: “Doutor Durán, com respeito, pare de mentir ao povo”, após negar mortes por arboviroses e minimizar o colapso hospitalar, segundo testemunhos coletados na época.
Enquanto as autoridades insistem que os serviços de saúde e a fumigação continuam, os cidadãos descrevem uma realidade diferente: bairros sem controle vetorial, hospitais superlotados e famílias inteiras doentes sem acesso a medicamentos.
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