
Vídeos relacionados:
Restaurante Las Palmas, um querido ponto de encontro para gerações de trabalhadores do centro de Miami, fecha definitivamente nesta sexta-feira, 15 de novembro.
Com 45 anos de história, o restaurante não apenas alimentou corpos, mas também vínculos comunitários que agora se veem forçados a se despedir de um de seus espaços mais emblemáticos.
Ubicado na 209 SE First Street, no coração do Downtown, Las Palmas sobreviveu ao longo das décadas como uma raridade encantadora: um restaurante latino, familiar e acessível, que oferecia desde coladas e cortaditos matutinos até sanduíches cubanos e bifes na hora do almoço.
Seu modesto quiosque ao ar livre, com apenas 33 assentos, foi durante anos um ponto de encontro habitual para funcionários de escritório, motoristas de ônibus, turistas desorientados e vizinhos de longa data.
O anúncio do fechamento foi feito através de redes sociais:
“Isso foi tudo, amigos! Depois de 45 anos servindo à comunidade do Downtown de Miami, 9 dos quais sob nossa administração, chegou o dia em que devemos fechar nossas portas pela última vez”, escreveram os atuais proprietários.
Mais que um restaurante: uma missão comunitária
As mensagens de despedida não foram meras formalidades.
Em suas palavras, a administração atual -liderada por Mario Ferrari Magalhães e sua mãe Carla- destacou a dimensão solidária que marcou seus anos à frente.
“Temos conseguido fazer tantas coisas: alimentar pessoas em situação de rua, arrecadar fundos para vítimas de desastres naturais, ajudar crianças com doenças terminais... tantas causas boas”, recordaram.
Esse espírito de serviço foi parte do legado que os novos proprietários herdaram e transformaram. Embora nos últimos anos a clientela tenha se tornado majoritariamente brasileira, o local sempre manteve uma identidade mestiça, reflexo da alma migrante de Miami.
“É o tipo de lugar onde você vê pessoas de todos os tipos”, disse Magalhães ao El Nuevo Herald, enfatizando o caráter inclusivo do negócio.
Uma história de resiliência familiar
A história recente de Las Palmas é marcada por uma motivação profundamente pessoal.
A família Magalhães -brasileira de origem, mas com décadas de enraizamento em Miami- adquiriu o restaurante em 2016.
Para então, o pai de Mario havia sido diagnosticado com câncer metastático e buscava deixar um sustento sólido para sua esposa e filho.
“Quando criança, lembro que fazíamos rondas nos fins de semana ou depois da escola, e meu pai me levava ao banco e parávamos em Las Palmas”, contou Mario, relembrando a relação precoce de sua família com o local.
Nos anos recentes, o negócio até diversificou sua oferta organizando shows de comédia e eventos noturnos vinculados à Winter Music Conference.
Todo isso ajudou a manter o restaurante à tona, que conseguiu enfrentar a pandemia de COVID-19 com relativo sucesso.
O golpe da inflação e o desgaste
Mas 2025 trouxe consigo um cenário econômico insustentável para pequenos negócios familiares como este. “Houve enormes aumentos nos preços de tudo, desde a carne até os ovos, e mudanças nas políticas comerciais e nas tarifas que não favoreceram os pequenos negócios familiares”, explicou Magalhães.
A isso se somou um verão especialmente difícil para a hotelaria em Miami, com uma queda notável no número de clientes e uma crescente dificuldade para cumprir com o aluguel.
Embora o aumento nas vendas nas últimas semanas tenha sido significativo - “nas últimas três semanas tenho visto vendas diárias recordes” - comentou o proprietário - não foi suficiente para reverter uma decisão tomada por necessidade.
Despedidas e legado
Entre os muitos clientes que lamentam a perda está Mari Acero, funcionária do Club Space, cujas escritórios estão bem em frente ao restaurante.
“É um lugar muito acolhedor e de gestão familiar. Já não há muitos lugares assim por aqui”, afirmou.
Seu companheiro William Cormier acrescentou: “Estamos vindo aqui há tempo suficiente para saber o quanto é frustrante que isso aconteça.”
A matriarca do negócio, Carla Ferrari Magalhães, de 65 anos, encerra este capítulo com uma mistura de gratidão e resignação.
“Tenho boas lembranças deste lugar e fiz muitos amigos. Vou sentir falta do centro. Vivi aqui por mais de 35 anos e adoro. Mas estou cansada! E meu filho precisa traçar seu próprio caminho”, concluiu.
Um símbolo que desaparece
O fechamento de Las Palmas não é apenas a despedida de mais um restaurante.
É o fim de uma era para Miami, onde cada vez há menos espaços como este: informais, acessíveis, focados na comunidade, despretensiosos, mas cheios de vida.
Sua desaparecimento marca mais um passo na transformação do Downtown, cada vez mais entregue a uma lógica comercial de grandes cadeias e aluguéis elevados.
Na sua fachada, o aroma do café cubano e o burburinho do almoço cedem agora ao silêncio. Mas para muitos, Las Palmas continuará vivo na memória como aquele lugar para o qual se ia mais do que para comer: ia-se para estar, para conversar, para se sentir em casa.
Arquivado em: