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O Ministério das Relações Exteriores do Peru anunciou em sua conta de X nesta sexta-feira que o embaixador de Cuba, Carlos “el Gallo” Zamora, “encerrou suas funções e deixou o país de forma definitiva”, após ser convocado pelo vice-ministro Félix Denegri Boza no dia 28 de outubro, para discutir as atividades realizadas durante sua gestão.
A saída do diplomata ocorre em meio a tensões políticas e diplomáticas regionais, após o pedido mexicano de salvoconducto para Betssy Chávez, a ex-primeira-ministra durante o mandato do deposto presidente de esquerda Pedro Castillo, e processada no Peru por suposta rebelião.
No comunicado oficial, a Cancelleria informou que, após uma análise jurídica e consultas com especialistas, o Governo considera que a prática do asilo diplomático se desnaturalizou ao ser utilizada para proteger pessoas acusadas de crimes comuns.
Segundo o documento, o Executivo peruano qualificou como “uso indevido” da Convenção de Caracas de 1954 a interpretação que permite classificar delitos comuns como perseguições políticas, o que, sustenta, distorce o espírito original do acordo.
“O direito de asilo foi distorcido ao ser concedido a quem não sofre perseguição em Estados democráticos”, aponta o texto divulgado pela Chancelaria.
O governo peruano anunciou ainda que apresentará à Organização dos Estados Americanos (OEA) uma proposta para modificar a Convenção de Caracas, com o objetivo de evitar sua “deturpação” e garantir que “o império da lei seja respeitado por todos os habitantes das Américas”.
Embora o comunicado não detalhe as razões específicas da saída do embaixador cubano, a menção a suas “atividades” sugere que o Executivo peruano questionou a atuação da missão diplomática durante sua estadia em Lima.
Zamora, quien apresentou no final de 2021 suas cartas credenciais como embaixador no Peru, deixou o país em meio a um ambiente de crescente tensão entre Lima, Cidade do México e Havana.
A Chancelaria peruana concluiu que as decisões adotadas serão comunicadas “oportunamente”, enquanto se desenvolvem as consultas com outros países membros da OEA.
Entretanto, a saída do representante cubano marca um novo episódio de fricções diplomáticas na região, onde os debates sobre o uso do asilo político voltam a ocupar um lugar central.
De acordo com o jornal peruano El Comercio, Zamora começou seu período como embaixador de Cuba no Equador em 1984. Mais tarde, ocupou representações diplomáticas no Panamá (1998), Brasil (2009) e El Salvador (2017-2018).
Em março de 2019, apresentou suas credenciais ao então presidente Evo Morales, como novo embaixador na Bolívia.
Por sua vez, o jornal Perú 21 afirmou que o diplomata iniciou sua carreira na Inteligência cubana em 1968. Desde então, seus múltiplos cargos diplomáticos teriam funcionado como uma cobertura ou fachada para suas atividades reais.
Esta dupla função foi confirmada pelo ex-agente cubano Enrique García em declarações ao Perú 21, que afirmou: “Seus colegas o chamávamos de 'o Galo'. Trabalhei junto à sua esposa Maura Juampere; ambos têm o posto de coronéis dentro da Direção de Inteligência cubana.”
Mais recentemente, em agosto deste ano, ex-oficiais da Marinha aposentados no Peru emitiram uma carta pública na qual apontaram diretamente Carlos Zamora Rodríguez como um operador de inteligência e exigiram sua expulsão imediata do país, por considerá-lo um perigo para a segurança nacional, especialmente em relação às eleições de 2026.
O Governo do México, através da Secretaria de Relações Exteriores (SRE), rejeitou na véspera a declaração de “persona non grata” emitida pelo Congresso do Peru contra a presidenta Claudia Sheinbaum Pardo.
O México argumentou que a decisão do parlamento peruano se baseia em “afirmações falsas” e negou categoricamente que a presidente mexicana tenha incorrido em “ingerência” nos assuntos internos do Peru.
A chancelaria mexicana reafirmou que a concessão de asilo político à ex-primeira-ministra Chávez foi realizada em “estrito apego ao direito internacional” e aos princípios da política externa do México.
A SRE lembrou que o asilo político é um ato humanitário e pacífico, de acordo com a ONU.
Este incidente agrava as tensões diplomáticas entre os dois países, parceiros na Aliança do Pacífico.
As disputas originaram-se devido ao apoio que o ex-presidente Andrés Manuel López Obrador deu a Pedro Castillo, que está detido desde dezembro de 2022.
A situação se tensou ainda mais com a ruptura das relações diplomáticas por parte do governo interino do Peru, liderado por José Jerí, no início da semana.
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