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Vários trabalhadores cubanos enviados ao Canadá como parte de acordos entre o regime de Havana e a empresa mineradora canadense Sherritt International denunciaram que o governo cubano confiscou até 90% de seus salários, em uma situação que especialistas e ex-empregados descrevem como uma forma moderna de trabalho forçado e exploração humana.
Um reportagem da CBC News revelou os testemunhos de profissionais cubanos que trabalharam em refinarias de níquel e cobalto em Fort Saskatchewan, Alberta, e nas Bahamas, que afirmaram que o dinheiro que recebiam era em grande parte retido por funcionários cubanos sob ameaça de represálias.
“Assim que você chega, percebe que é um abuso flagrante. Você trabalha aqui como qualquer canadense, mas recebe um salário ruim”, disse um dos ex-funcionários entrevistados, cuja identidade foi ocultada por segurança.
De acordo com os depoimentos, o esquema funcionava assim: Sherritt pagava os salários integrais aos trabalhadores cubanos, mas seus supervisores, designados pelo governo da ilha, os obrigavam a transferir entre 80 e 90% de seus rendimentos líquidos para contas controladas pelo regime.
“O diretor executivo cubano te senta e te explica como funciona: vão deduzir a moradia, os serviços e depois você enviará todo o dinheiro restante para Cuba,” relatou outro ex-trabalhador.
Com rendimentos anuais próximos a 100 mil dólares canadenses, muitos acabavam vivendo com apenas 500 ou 600 dólares por mês, recorrendo a lojas de baixo custo, vendas de garagem ou até mesmo bancos de alimentos para sobreviver.
“Comprávamos na Dollarama, que tinha os preços mais baixos, e em vendas de garagem para o restante”, contou um dos entrevistados. “Alguns colegas também dependiam dos bancos de alimentos.”
Controle político e medo de represálias
Além do despojo econômico, os trabalhadores descreveram um ambiente de vigilância constante e controle ideológico. De acordo com a ampliação publicada por Contacto Conce Chile, o Partido Comunista de Cuba exige que seus cidadãos em missões laborais participem de oficinas político-ideológicas, relatem o comportamento de seus colegas e até mesmo evitem relacionamentos pessoais com canadenses.
“Supõe-se que não devemos estabelecer relações com os canadenses com os quais trabalhamos oito horas por dia. Fora do trabalho, não nos é permitido fazer amizades nem nos apaixonar”, relatou um trabalhador.
Outro ex-funcionário confirmou que era necessário solicitar permissão para sair de Fort Saskatchewan e que nunca sabiam quem poderia denunciá-los à embaixada cubana.
O medo de serem enviados de volta a Cuba era uma forma de disciplinar e silenciar aqueles que reclamavam.
“Se você reclamar, dizem que você tem que ir a uma reunião em Cuba. Te dão um bilhete, você volta e nunca mais retorna”, explicou um dos entrevistados à CBC News.
A pesquisadora cubana María Werlau, citada pela CBC News, classificou essas práticas como tráfico de pessoas, apontando que o governo cubano age como "um intermediário que confisca salários, designa os trabalhadores a outros licitantes e mantém o poder de enviá-los de volta quando desejar".
Uma exploração com décadas de história
O reportagens da CBC News lembra que o acordo entre a Sherritt International e o governo cubano remonta a mais de três décadas.
Sob este acordo, o níquel é extraído na cidade de Moa, Cuba, e é transportado para o Canadá para refino. Desde então, dezenas de profissionais cubanos têm trabalhado nessas fábricas sob a supervisão direta do regime.
Ambos os ex-funcionários citados apresentaram contracheques e recibos de transferências eletrônicas para Cuba como prova de que até 84% de seus ganhos líquidos eram confiscados.
Enquanto isso, A Sherritt International negou ter conhecimento ou participação no esquema. “Qualquer sugestão de que a Sherritt possa ser parte de um plano de confiscamento de salários é falsa. A empresa cumpre todas as leis aplicáveis no Canadá e nos países onde opera”, disse Tom Halton, diretor de assuntos corporativos, em um comunicado citado pela CBC News.
Nem o Ministério das Relações Exteriores de Cuba nem a Embaixada de Cuba no Canadá responderam às solicitações de comentários feitas pela mídia canadense.
Silêncio oficial e um sistema que não protege
Embora as autoridades canadenses afirmem que todos os trabalhadores estrangeiros gozam dos mesmos direitos trabalhistas que os cidadãos do país, os ex-funcionários alertaram que o sistema depende de denúncias formais, algo praticamente impossível em casos onde o medo de represálias domina.
Uma porta-voz do Ministério do Emprego de Alberta disse que não existem queixas formais sobre a empresa conjunta, enquanto Imigração, Refugiados e Cidadania do Canadá (IRCC) afirmou que os trabalhadores temporários têm acesso a uma linha de denúncias anônimas 24 horas por dia. No entanto, até agora não há indícios de uma investigação sobre o caso.
Para muitos desses profissionais, o Canadá representava uma oportunidade de trabalhar e prosperar em liberdade. Mas logo descobriram que sua estadia era marcada pelo mesmo controle e submissão que tentavam deixar para trás.
“Para os cubanos que têm a sorte de conseguir um emprego em um país democrático como o Canadá, uma vida livre só pode ser observada, não desfrutada”, lamentou um dos ex-funcionários entrevistados.
O testemunho resume a paradoxalidade de um regime que exporta mão de obra sob um discurso de cooperação, mas que, na prática, reproduz mecanismos de escravidão moderna no pleno século XXI.
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