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Um grupo de moradores do povoado Cauto del Paso, em Granma, está há horas preso no telhado de uma bodega devido às inundações provocadas pelo transbordamento do rio Cauto após a passagem do furacão Melissa, segundo denúncias desesperadas publicadas nas redes sociais.
"De favor, peço que compartilhem, o pai do meu filho me ligou desesperado de Cauto del Paso, eles estão em cima da bodega daquela localidade, o telefone dele está com 13 por cento de bateria; disseram que iam procurar por ele e até agora ninguém apareceu, vão esperar que o pior aconteça", escreveu Day Puty Figueredo Pino no Facebook, alertando sobre a falta de resposta das autoridades.
A mensagem resume o desamparo que vivem milhares de famílias no leste cubano, onde as chuvas persistentes provocaram o colapso de moradias, estradas alagadas e comunidades completamente isoladas.
A versão oficial que se contradiz com a realidade
Apesar das súplicas de ajuda e das imagens que mostram a magnitude do desastre, as autoridades insistem que a situação está sob controle.
Em sua conta do Facebook, José Manuel Rodríguez Valdivia, do Poder Popular de Río Cauto, afirmou que, segundo "especialistas em recursos hídricos", a represa Cauto do Paso não representa perigo para o território riocautense, embora tenha reconhecido a existência de "riscos potenciais".
"O verdadeiro perigo são os despejos do rio Salado, afluente que leva ao rio Cauto as águas provenientes de Holguín, junto a outros escoamentos de Las Tunas", explicou.
Acrescentou que "o Conselho de Defesa Municipal e suas zonas de defesa estão ativados, prontos para tomar as decisões mais adequadas" e que os equipes de resgate "já se encontram mobilizados em vários pontos".
No entanto, o próprio texto oficial adverte que "é impossível prever o comportamento da natureza", ao mesmo tempo em que culpa as vítimas por "negligência pessoal" por terem colocado suas vidas em risco.
Uma narrativa habitual do regime, que minimiza sua responsabilidade e desvia a atenção do desastre estrutural e da falta de planejamento.
Presa no limite e evacuações de emergência
Imagens compartilhadas em Facebook por Marbelis Campos Busquet mostram a vertedouro auxiliar da represa Cauto del Paso despejando 150 m³ por segundo, evidência da enorme pressão à qual o reservatório está submetido, acumulando águas de várias províncias orientais.
As intensas chuvas associadas ao furacão Melissa, que atingiu Cuba em 28 de outubro, provocaram o transbordamento de rios e a saturação dos reservatórios, agravando a situação das comunidades rurais que já viviam à beira do colapso.
Durante a madrugada de sexta-feira, mais de mil habitantes de Guamo, em Granma, foram evacuados com urgência para o município de Jobabo, em Las Tunas, diante do risco iminente de inundações.
Segundo o que reportou CNC TV Granma, os evacuados foram levados para o Politécnico Manifiesto de Montecristi, onde "são garantidas as condições logísticas necessárias para sua acolhida".
O funcionário Yaidel Miguel Rodríguez Castro detalhou que cerca de 1.300 pessoas foram transportadas de trem, e que se espera a chegada de entre 5.000 e 7.000 evacuados adicionais durante o dia.
Rodríguez assegurou que as autoridades agiram "imediatamente", organizando um deslocamento de veículos e recursos, e até mesmo retirando parte do pão destinado à população de Jobabo para oferecer café da manhã aos deslocados.
"A água já está dentro das casas."
Enquanto os meios de comunicação oficiais falavam sobre eficiência e controle, os testemunhos nas redes sociais descreviam um panorama muito mais dramático.
Moradores de Grito de Yara relataram casas inundadas, ruas transformadas em rios e comunidades isoladas.
"A água já está dentro das casas... estamos sem comunicação e sem dormir", denunciou Day Puty Figueredo Pino em outra publicação.
Outros alertaram sobre pessoas presas em telhados e árvores, esperando por ajuda que não chegava.
Em Cauto del Paso, onde ocorrem as inundações mais graves, os habitantes afirmam que as equipes de resgate não conseguiram acessar várias áreas devido à força da correnteza.
Desastre natural, fracasso político
Embora o governo tente apresentar os danos como uma consequência inevitável de um fenômeno meteorológico, a realidade é que a crise estrutural do país deixou Cuba sem capacidade real de resposta.
A falta de combustível, de equipamentos especializados, de infraestrutura resistente e de coordenação eficaz magnifica cada tragédia e transforma as chuvas em catástrofes nacionais.
O triunfalismo do regime contrasta com o sofrimento de milhares de famílias que perderam tudo e que hoje dependem da solidariedade dos vizinhos ou da sorte para sobreviver.
Enquanto isso, os funcionarios se limitam a emitir comunicados e culpar o embargo dos Estados Unidos, em vez de reconhecer sua própria negligência e falta de previsão.
E em toda Cuba, milhares de pessoas continuam aprisionadas -não apenas pela água- mas pela indiferença de um Estado que já não consegue proteger nem alimentar seu povo.
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