O chanceler cubano Bruno Rodríguez Parrilla protagonizou nesta terça-feira uma troca tensa com o representante dos Estados Unidos na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, Michael Waltz, que qualificou o regime de Havana de "ilegítimo e brutal" durante o debate anual sobre a resolução contra o embargo americano.
A sessão, que costuma se desenvolver com discursos previsíveis e diplomáticos, derivou desta vez em um duro confronto verbal quando o delegado norte-americano acusou o governo cubano de apoiar organizações terroristas, traficar armas e permitir o envio de mercenários para a guerra na Ucrânia.
“Este é um regime ilegítimo e brutal que tenta se apresentar como vítima enquanto conspira com nossos adversários”, disse Waltz, que também pediu aos países membros da ONU “para deixar de apaziguar o regime” com seu voto.
O representante dos Estados Unidos, que manteve o tom firme apesar das interrupções da presidenta da Assembleia, a alemã Annalena Baerbock, afirmou que “não existe nenhum bloqueio”, ao recordar que os Estados Unidos exportaram 500 milhões de dólares em alimentos, medicamentos e bens humanitários para Cuba em 2024.
“Explique-me como isso é um bloqueio”, disse Waltz, sublinhando que o embargo não impede o regime de comerciar com o resto do mundo, mas busca exigir responsabilidade por violações dos direitos humanos e a exploração de profissionais médicos no exterior.
"Isto não é um grupo do Signal."
As palavras do representante americano provocaram a reação imediata de Bruno Rodríguez, que pediu a palavra “por questão de ordem” e interrompeu o discurso para denunciar o que qualificou como uma “expressão grosseira e autoritária” contra a presidência da Assembleia.
“O representante dos Estados Unidos não apenas mente desviando-se do assunto, mas se expressa com falta de cultura e rudeza. Esta é a Assembleia Geral da ONU, não um grupo de Signal nem a Câmara de Representantes”, afirmou o chanceler cubano.
A presidenta do debate concedeu brevemente a palavra a Havana, mas pediu em seguida ao representante dos Estados Unidos para continuar sua intervenção. Waltz, longe de recuar, respondeu com uma frase que ressoou em toda a plenária:
“Sei perfeitamente onde estamos, e isso também não é uma legislatura comunista ilegítima em Havana. Este é um lugar onde falamos com fatos.”
O intercâmbio tensionou ainda mais o ambiente na sala, em um momento em que o regime cubano enfrenta uma de suas piores crises diplomáticas em décadas, acusado de recrutar cidadãos para combater na Ucrânia ao lado das forças russas e de manter mais de 700 presos políticos em condições desumanas.
Um contexto de pressão crescente
O incidente ocorre apenas uma semana depois que Rodríguez Parrilla ofereceu uma longa coletiva de imprensa em Havana para acusar Washington de exercer “pressões brutais” sobre governos latino-americanos e europeus antes da votação do próximo 29 de outubro sobre a resolução contra o embargo.
Durante essa comparecência, o chanceler cubano denunciou uma suposta “campanha de chantagem e desinformação” dos Estados Unidos, após veículos de comunicação internacionais e órgãos de inteligência documentarem a participação de milhares de cubanos na guerra da Ucrânia a serviço do Kremlin.
Fontes diplomáticas confirmaram que o Departamento de Estado dos Estados Unidos intensificou contatos com países aliados para pedir que votem contra Havana ou se abstenham, em uma estratégia inédita em três décadas de votações praticamente unânimes contra o embargo.
A administração de Donald Trump, de volta à Casa Branca, busca romper esse consenso histórico, argumentando que Cuba é hoje "um Estado patrocinador da trata e aliado militar da Rússia".
O fim de um relato
O choque entre Waltz e Rodríguez não apenas refletiu o deterioro do diálogo bilateral, mas também o esgotamento da antiga narrativa da “vítima bloqueada” que o castrismo tem utilizado por mais de meio século para justificar seu fracasso econômico.
Enquanto o chanceler insiste em falar de "cerco genocida", os dados oficiais do Departamento de Agricultura dos EUA mostram que Cuba continua importando alimentos, medicamentos e maquinário americano, inclusive através de intermediários privados.
Para muitos analistas, o nervosismo do regime não se deve tanto ao embargo, mas ao medo de perder seu escudo político internacional.
Uma fratura no apoio majoritário dentro da ONU deixaria o governo de Díaz-Canel mais isolado do que nunca, em meio a um colapso econômico interno e à perda de apoio de aliados tradicionais como Venezuela e Nicarágua.
“Desta vez, o regime não controla a narrativa”, alertam os observadores. “E se há algo que o castrismo teme mais do que as sanções, é o silêncio de seus antigos amigos quando chegar a hora de votar.”
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