O líder opositor cubano José Daniel Ferrer García saiu nesta segunda-feira, 13 de outubro, para Miami junto com sua família, após um longo processo de negociações que culminou em sua saída para o exílio, conforme confirmado nas redes sociais por seu irmão Luis Enrique Ferrer.
"De prisão Mar Verde para o aeroporto de Santiago de Cuba. Desterrado meu valente irmão. Nosso Senhor os acompanhe no voo em direção à LIBERDADE com o propósito de continuar a luta até alcançar a merecida LIBERDADE de todos os nossos PRESOS POLÍTICOS e nossa amada terra", confirmou também nas redes Ana Belkis Ferrer, irmã do opositor.

"O regime cubano libertou e desterrou José Daniel Ferrer, líder da UNPACU. O opositor agora viaja para Miami, confirmaram seus familiares ao Martí Noticias", informou também nas redes sociais o jornalista Mario J. Pentón.
El comunicador acrescentou que uma equipe consular da Embaixada dos Estados Unidos em Cuba acompanhou Ferrer e sua família em meio a um numeroso despliegue de agentes da polícia política.
A chegada do fundador da União Patriótica de Cuba (UNPACU) aos Estados Unidos marca o fechamento de um dos capítulos mais prolongados de perseguição política na ilha, e ocorre após mais de quatro anos de detenção e assédio por parte do regime.
A saída de Ferrer foi conhecida semanas depois que, em uma carta datada de 10 de setembro de 2025, o opositor confirmou sua decisão de aceitar o exílio como uma medida para proteger sua família, em meio a crescentes pressões da Segurança do Estado.
Naquela missiva, divulgada desde a prisão, denunciou as tentativas do governo de “desacreditar a luta pela liberdade” e de manipular seu caso como parte de possíveis negociações entre Cuba, Estados Unidos e a Igreja Católica.
“Estou pronto para morrer, mas não para viver sem honra, sem dignidade”, garantiu então, descrevendo um panorama de isolamento, tortura psicológica e chantagens políticas.
A comunidade internacional acompanhou com preocupação sua situação, apontando as autoridades cubanas por violações sistemáticas dos direitos humanos.
O exílio forçado de Ferrer simboliza tanto a vulnerabilidade dos opositores dentro de Cuba quanto a persistência de uma luta que agora o opositor continuará do exterior.
José Daniel Ferrer García: O rosto mais persistente da dissidência cubana
Nascido em 29 de julho de 1970 em Palma Soriano, na província de Santiago de Cuba, o nome de José Daniel Ferrer está estreitamente ligado à oposição política ao regime cubano desde os anos noventa, quando começou a se envolver em grupos pró-democráticos como o Movimento Cristiano Libertação, liderado por Oswaldo Payá, e participou do Projeto Varela, uma iniciativa cidadã que promovia reformas legais para ampliar as liberdades civis na ilha.
Ferrer alcançou notoriedade internacional em 2003, durante a chamada Primavera Negra, uma onda repressiva na qual o governo cubano prendeu 75 ativistas, jornalistas e opositores.
Foi condenado a 25 anos de prisão, acusado de atuar contra a segurança do Estado.
Durante seu encarceramento, protagonizou várias greves de fome e denunciou condições desumanas dentro das prisões cubanas.
Após oito anos de reclusão, foi liberado em 2011 sob uma licença extrapenal, graças a intervenções da Igreja Católica e do governo espanhol.
Ao contrário de outros opositores liberados na época, Ferrer recusou o exílio e decidiu permanecer em Cuba para continuar seu ativismo.
A criação da UNPACU
No mesmo ano de 2011, fundou a União Patriótica de Cuba (UNPACU), uma organização que buscou unificar diferentes grupos dissidentes sob uma estratégia comum de resistência pacífica.
Desde sua base no leste cubano, a UNPACU se tornou uma das plataformas de oposição mais visíveis dentro do país, com ações públicas, denúncias de abusos e apoio a comunidades marginalizadas.
Com o tempo, Ferrer passou a ser considerado o principal líder da dissidência interna após a morte de Oswaldo Payá.
Seu discurso tem insistido na necessidade de uma transição pacífica para a democracia, a liberdade de associação e a anistia para os presos políticos.
Detenções, campanhas internacionais e perseguição constante
A liderança de Ferrer também o tornou um dos alvos mais frequentes da repressão estatal.
Desde sua libertação, foi detido em numerosas ocasiões, submetido a vigilância permanente e vítima de campanhas oficiais de descrédito.
Em 2019, foi preso por vários meses sob acusações de agressão, em um processo amplamente denunciado por organizações internacionais como arbitrário e sem garantias.
Seu caso gerou uma forte resposta diplomática e levou o Parlamento Europeu a exigir sua liberação imediata.
Durante os protestos de 11 de julho de 2021, Ferrer foi novamente preso e permaneceu na prisão por mais de três anos.
Diversas ONGs denunciaram sua incomunicação prolongada e o deterioro de sua saúde.
Em janeiro de 2025, foi liberado sob liberdade condicional, mas três meses depois, as autoridades revogaram essa medida e o devolveram à prisão, alegando descumprimento de normas judiciais.
A comunidade internacional considerou essa decisão um novo exemplo de retaliação política contra vozes críticas dentro do país.
Reconhecimentos e legado
Ao longo de sua trajetória, Ferrer recebeu vários prêmios internacionais de direitos humanos, entre eles o Prêmio Democracia da NED, o Homo Homini e o Prêmio Libertad Truman-Reagan.
Pese aos anos de prisão, ao assédio e ao visível deterioro físico, mantém uma posição firme contra o autoritarismo cubano, e tem insistido que sua luta não busca vingança, mas “o direito dos cubanos a viver sem medo”.
Para muitos dentro e fora de Cuba, José Daniel Ferrer representa a resistência persistente diante de um sistema que tentou silenciá-lo por mais de duas décadas, tornando-se um dos símbolos mais visíveis - e castigados - da oposição política na ilha.
Perguntas frequentes sobre o desterro de José Daniel Ferrer
Por que José Daniel Ferrer foi desterrado de Cuba?
José Daniel Ferrer foi desterrado de Cuba como resultado de um longo processo de negociações que incluiu pressões extremas do regime cubano e a necessidade de proteger sua família. A decisão de aceitar o exílio foi tomada para evitar mais hostigamento e garantir a segurança de seus entes queridos, em meio a um contexto de repressão e violações de direitos humanos.
O que simboliza o exílio de José Daniel Ferrer para a oposição em Cuba?
O exílio forçado de José Daniel Ferrer simboliza a vulnerabilidade dos opositores dentro de Cuba e a persistência de uma luta que agora continuará do exterior. Ferrer tem sido um dos rostos mais visíveis e castigados da dissidência cubana, e sua saída do país evidencia a repressão sistemática que enfrentam aqueles que se opõem ao regime.
Como a comunidade internacional reagiu ao caso de José Daniel Ferrer?
A comunidade internacional tem acompanhado com preocupação a situação de José Daniel Ferrer, apontando o regime cubano por violações sistemáticas dos direitos humanos. Organizações e governos condenaram sua prisão e exigiram sua libertação imediata e o respeito aos direitos fundamentais na ilha. A pressão internacional tem sido um fator-chave nas negociações que culminaram em seu exílio.
Qual tem sido o papel da UNPACU na oposição ao regime cubano?
A União Patriótica de Cuba (UNPACU), fundada por José Daniel Ferrer em 2011, tem sido uma das plataformas de oposição mais visíveis em Cuba, focando na resistência pacífica, na denúncia de abusos e no apoio a comunidades marginalizadas. A UNPACU teve um papel crucial na oposição ao regime, unificando diversos grupos dissidentes e promovendo a liberdade de associação e a anistia para os prisioneiros políticos.
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