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Milhares de prisioneiros cubanos são forçados a trabalhar na produção de tabaco e carvão de marabú destinados à exportação, em condições que organizações internacionais qualificam como “escravidão moderna”.
Um relatório da Organização Não Governamental (ONG) Prisoners Defenders, com sede em Madrid, estima que pelo menos 60.000 detentos na ilha estão submetidos a trabalhos forçados com pouca ou nenhuma remuneração, sob ameaças, violência e sem equipamentos de proteção adequados.
A pesquisa, publicada nesta segunda-feira pelo The Guardian e pelo Euronews, documenta abusos sistemáticos nas prisões cubanas, onde os detentos são utilizados para sustentar negócios milionários ligados à exportação. Os produtos, incluindo os mundialmente famosos charutos cubanos e o carvão vegetal de marabú, chegam aos principais mercados europeus.
O relatório atribui a responsabilidade direta ao governo cubano, ao qual acusa de manter um sistema institucionalizado de exploração penitenciária com fins econômicos. Segundo a ONG, entre abril e agosto de 2025, foram entrevistadas 53 pessoas de 40 prisões, além de familiares de presos, e foram realizadas 60 entrevistas adicionais corroboradas com documentos.
O resultado foi uma estimativa de pelo menos 60.000 prisioneiros forçados a trabalhar sob coerção, ameaças, represálias ou violência. Os 98% dos entrevistados afirmaram não ter as ferramentas nem o treinamento necessário, e 45% declarou ter sofrido violência física durante as jornadas de trabalho.
Um ex-recluso contou ao The Guardian que se um preso se negasse a trabalhar, “colocavam uma nota em seu registro” que depois servia para negar visitas familiares ou benefícios de liberdade condicional.
Puro Cohiba feito atrás das grades
A pesquisa confirma que pelo menos sete prisões produzem tabaco destinado à exportação. Em Quivicán, uma prisão de máxima segurança conhecida como Aguacate, 40 prisioneiros tinham a meta de fabricar 60 charutos diários, que eram contabilizados apenas se cumprissem os padrões de qualidade para exportação.
Se estima que al menos 11,6 milhões de charutos ao ano são produzidos por meio de trabalho forçado em prisões, o que representaria 7,5% da produção nacional. Embora os cigarros saiam sem marca das prisões, Prisoners Defenders assegura que acabam integrando as "marcas mais reconhecidas e veneradas", incluindo Cohiba, símbolo de luxo que uma vez foi fumado por Fidel Castro.
O carvão de marabú, por sua vez, é rotulado como “ecológico” e é enviado principalmente para Espanha, Portugal, Itália, Grécia e Turquia.
O relatório também documenta violência sexual contra mulheres presas. Duas denunciaram assédio de funcionários penitenciários e uma relatou ter sido estuprada por outro detento, sem receber atendimento médico nem psicológico.
Outro achado preocupante é o impacto desproporcional na população afrocubana. Embora representem 34% da população geral, os afrodescendentes constituem 58% dos encarcerados em Cuba.
Segundo depoimentos coletados, os prisioneiros negros são quase sempre enviados para os trabalhos forçados mais pesados, enquanto os brancos costumam ser designados para tarefas mais leves, como limpeza em escritórios ou cozinhas militares.
“Na prisão, o racismo é moeda corrente”, afirmou um ex-recluso negro entrevistado.
O Canadá também levanta a voz
A denúncia da Prisoners Defenders coincide com uma crescente pressão internacional sobre o regime cubano. Paralelamente, o Canadá pediu para investigar as importações de tabaco cubano devido a suspeitas de trabalho forçado, no âmbito de sua política para combater a escravidão moderna nas cadeias de suprimento.
O governo canadense, que desde 2020 proíbe a entrada de produtos feitos com trabalho forçado, reforçou em 2024 e 2025 seus mecanismos de controle e pode expandir medidas mais severas contra os bens provenientes de Cuba.
Prisoners Defenders assegura que o sistema penitenciário cubano não busca a reabilitação, mas sim o castigo e a exploração. Por isso, pede que o regime de Havana abra as prisões a missões internacionais independentes e que se proíba o comércio de produtos vinculados ao trabalho forçado.
“A transformação estrutural do sistema penitenciário é uma dívida contraída com a dignidade humana”, conclui o relatório.
Enquanto isso, os charutos fumados na Europa e o carvão vegetal queimado nos lares do Mediterrâneo carregam uma marca invisível: a dor de milhares de cubanos que, atrás das grades, são explorados como mão de obra cativa.
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