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O escritor cubano Leonardo Padura voltou a utilizar a apresentação de uma de suas novelas como plataforma para denunciar a crise que a ilha enfrenta.
Em plena promoção de “Morir en la arena”, definida por ele mesmo como “o romance mais triste” que escreveu, o Prêmio Princesa de Asturias de Letras 2015 reconheceu que em Cuba impera o “cada um por si”, um lema que retrata a fratura de um país que um dia prometeu o bem comum.
Queria falar sobre o destino final da minha geração, pessoas que trabalharam, se sacrificaram, sofreram proibições e limitações… e agora se deparam com o fato de serem mais pobres do que nunca”, disse Padura em Madrid durante um encontro com jornalistas, citado pela agência EFE.
A nova novela do autor de “O homem que amava cães” parte de um fato real: um parricídio que serve de gatilho narrativo. Mas, além do suspense, Padura quis mostrar a vida cotidiana daqueles que sobrevivem em meio à precariedade, aos apagões e à desigualdade.
"É a crônica de um colapso", resumiu.
“A miséria cria miseráveis”
“La miséria cria miseráveis”, afirmou Padura, aludindo ao aumento da violência, dos roubos e da desigualdade que tem caracterizado a recente Cuba.
Os preços exorbitantes, como um cartão de ovos a 3.000 pesos, em comparação com pensões de 2.000, refletem o deterioro da vida diária. “A possibilidade desses pequenos negócios vai muito bem em um país onde falta tudo, mas o problema são os preços”, destacou.
Os protagonistas de “Morir en la arena” são Rodolfo, um aposentado, e sua excunhada Nora, que conseguem se sustentar graças a algo que Padura considera crucial em Cuba: a ajuda de familiares no exterior. Uma radiografia de um país em que milhões de pessoas dependem de remessas para sobreviver.
Viver sob apagões e repressão
Padura também confessou que, para resistir aos apagões em Havana, investiu 4.000 dólares em painéis solares, segundo declarou ao jornal El País. “Nem todos podem se dar ao luxo disso”, admitiu, ciente de que a maioria de seus vizinhos sofre apagões de até 20 horas por dia.
Esse contraste entre privilégios e carências permeia tanto sua vida pessoal quanto sua obra, que combina o testemunho íntimo com a denúncia social. Na mesma entrevista, aludiu à repressão das protestas de 11 de julho de 2021. “Foram condenações exemplares; por quebrar um vidro, dez anos de prisão. As pessoas sofrem e se calam, porque o outro…”, disse.
Literatura como memória
Embora insista que não é político nem economista, Padura se reconhece com uma “responsabilidade” como escritor: contar o que vê ao seu redor. “Em Cuba, é impossível alienar-se da realidade, a realidade não é que bata à sua porta, é que abre e entra em sua casa”, apontou à EFE.
Padura defende a literatura como "reservatório da memória" frente aos tentativas de manipulação ou silêncio, tanto em Cuba quanto em outros países. E embora muitas de suas novelas não sejam publicadas na ilha, os cubanos encontram maneiras de lê-las, inclusive em cópias digitais piratas que circulam apenas dias depois de serem lançadas no mercado internacional.
Além da tristeza que impregna "Morir en la arena", Padura acredita que o povo cubano conserva algo essencial, "um espírito invencível".
Perguntas frequentes sobre a crise em Cuba e a postura de Leonardo Padura
Quais aspectos da crise cubana Leonardo Padura denuncia em seu novo romance?
Leonardo Padura utiliza seu romance "Morir en la arena" para denunciar a profunda crise que atravessa Cuba. Através de sua obra, Padura expõe o aumento da violência, dos roubos e da desigualdade que os cubanos enfrentam. O romance reflete a vida cotidiana marcada pela precariedade, pelos apagões e pela dependência das remessas do exterior para sobreviver. Padura retrata um país desgastado pela repressão e pela falta de esperança em uma mudança próxima.
Como a crise energética afeta o dia a dia em Cuba?
A crise energética em Cuba se manifesta em apagões prolongados que interrompem vidas e rotinas. Os cubanos enfrentam cortes de energia de até 20 horas diárias, o que afeta a refrigeração de alimentos, a comunicação e a qualidade de vida em geral. Muitos precisam recorrer ao uso de carvão ou lenha para cozinhar, e a falta de eletricidade também limita o acesso à internet e a possibilidade de reivindicar ou expressar inconformidades.
O que Padura disse sobre a repressão em Cuba?
Leonardo Padura criticou a repressão em Cuba, referindo-se aos protestos de 11 de julho de 2021. Em suas declarações, ele ressalta que as condenações foram "exemplarizantes", com penas desproporcionais como dez anos de prisão por quebrar um vidro. Padura destaca que os cubanos sofrem em silêncio diante da repressão e da falta de liberdades, o que reflete a dura realidade política na ilha.
Que soluções Padura implementou para enfrentar os apagões em sua casa?
Para enfrentar os apagões, Leonardo Padura instalou um sistema de painéis solares em sua casa, um investimento que custou 4.000 dólares. Padura reconhece que isso é um luxo inacessível para a maioria dos cubanos, que devem suportar cortes elétricos de até 20 horas diárias sem alternativas viáveis. Essa solução reflete a desigualdade no acesso a recursos na ilha.
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