Regulados: Cubanos denunciam que o regime impede seu retorno aos EUA após viajar para a ilha

Cubanos enfrentam restrições para sair da ilha, apesar de serem residentes nos EUA. O governo justifica essas medidas por "segurança nacional", afetando cidadãos comuns sem explicação.

Fila para imigração no aeroporto de HavanaFoto © Facebook / Aeroporto Internacional José Martí

Cubanos denunciaram que, após viajar para a ilha para visitar suas famílias, lhes foi proibido sair novamente do país. Embora muitos deles sejam residentes legais nos Estados Unidos e não tenham causas pendentes nem histórico político, ao tentarem retornar, são informados de que estão “regulados”.

O jornalista Mario J. Pentón abordou o tema em suas redes sociais ao lado do advogado Ismael Labrador, do escritório Gallardo Law Firm, após receber algumas mensagens de pessoas retidas em Cuba sem uma justificativa legal clara.

Um desses casos foi enviado por uma mulher desesperada. “Meu marido viajou para Cuba no dia 4 de julho. O retorno dele era no dia 2 de agosto e a imigração não o deixou sair. Disseram a ele que estava com proibição de viagem. Ele nunca teve nada a ver com o governo.”

Captura de Vídeo/Mario J. Pentón

Outro caso semelhante envolve um médico especialista que foi visitar sua família e, ao tentar retornar, foi informado de que também estava regulado. “Não é a primeira vez que isso acontece”, afirmou Pentón. “Há casos que levam meses para serem resolvidos, enquanto as pessoas perdem o emprego, estabilidade e até mesmo seu status legal nos EUA.” Embora não tenha revelado nomes, o jornalista de Martí Noticias antecipou que está preparando uma reportagem sobre o assunto.

Segundo o advogado Labrador, essas situações são especialmente graves para aqueles que chegaram aos EUA alegando temor de retorno. “Se uma pessoa solicitou asilo dizendo que tinha medo de voltar a Cuba e depois faz dez viagens por ano à ilha, pode se tornar alvo das autoridades americanas por fraude”, explicou. “O governo está analisando esses casos com atenção redobrada”.

Labrador alertou que permanecer tempo demais fora dos Estados Unidos, seja em Cuba, Venezuela, Nicarágua ou outros países, pode colocar em risco a residência permanente. “Podem reter sua residência e levá-lo diante de um juiz. O único que pode tirá-la é um juiz, mas o processo pode ser longo e doloroso”.

O regime admite regulamentações, mas as justifica por "segurança nacional"

Embora oficialmente o governo cubano afirma que impõe regulamentações apenas por motivos de “segurança nacional ou interesse público”, a prática mostra o contrário. Em declarações à Associated Press (AP) no ano passado, o coronel Mario Méndez Mayedo, do Ministério do Interior (MININT), reconheceu que Cuba se reserva o direito de impedir a saída do país por causas “discricionárias”.

A justificativa, disse, é que Cuba vive em um contexto de “agressividade permanente” devido às sanções dos EUA., o que obriga o regime a ponderar “o custo político” de permitir a saída de certas pessoas.

No entanto, ativistas, jornalistas, médicos e até mesmo cidadãos comuns foram afetados por essas regulamentações sem aviso prévio, sem direito à defesa e sem explicação formal.

Em 2023, foi divulgado que o regime havia começado a proibir a saída do país de contribuintes com dívidas pendentes com a Oficina Nacional de Administração Tributária (ONAT). Medida que, ao que parece, ainda se mantém vigente.

Segundo dados da própria entidade, naquele ano, já existiam mais de 600 pessoas foram reguladas desde a assinatura em 2022 de um acordo entre a ONAT e a Direção de Identificação, Imigração e Estrangeiros (DIIE) do Ministério do Interior. A medida impede a viagem daqueles que possuem “dívidas significativas” e também permite emitir avisos de entrada para viajantes que já estejam fora do país, mas que acumulam pagamentos em atraso.

Outro setor prejudicado é o da medicina, sobretudo os médicos especialistas, a quem o regime começou a controlar com mais rigor diante do êxodo em massa do pessoal de saúde.

O caso do doutor José Manuel Suárez Villalobos, cirurgião com 28 anos de serviço, é um exemplo dessa política. “Até quando terei que sofrer a punição de ter me tornado médico especialista?”, perguntou em uma mensagem pública em 2024.

Suárez, que cumpriu missões internacionalistas ganhando apenas 20 dólares por mês, não pode obter passaporte nem viajar para ver seus filhos e netos.

Em dezembro passado, soube-se que dois médicos ginecólogos de Sancti Spíritus foram impedidos de sair do país apesar de terem passagens e planos de emigrar. “É como ter voltado ao passado escravagista”, denunciou o doutor Alexander Figueredo dos EUA, que também foi vítima de regulamentação.

Uma carta assinada, também em 2024, por mais de 4.000 profissionais da saúde, agrupados no Observatório Cubano Saúde Unidos, exige ao governo que coloque fim a essas regulamentações, mas até o momento não houve resposta oficial além de negativas ou silêncios institucionais.

O que podem fazer os afetados?

Os advogados recomendam a quem se encontra nessa situação que documente cada passo, entre em contato com uma representação legal o mais rápido possível e evitem permanecer longos períodos fora dos EUA se forem residentes.

“O mais importante é não se confiar”, adverte Labrador. “Hoje você entra em Cuba sem problemas e amanhã pode ficar preso. Não sabemos quem será o próximo.”

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