Uma criadora cubana se tornou viral no TikTok após afirmar que na ilha há comida, mas os salários não são suficientes para comprá-la. A usuária @yaneisycanta_98 afirmou que “em Cuba, sim, há alimentos, o que não há é dinheiro” e explicou que “o salário não é suficiente, mesmo que você se sacrifique um mês inteiro; apenas a carne de porco tem um valor de 850 pesos cubanos, o que equivale a quase metade de um salário mínimo”.
A jovem insistiu que o problema afeta principalmente aqueles que dependem do setor estatal: “O salário de uma pessoa que trabalha com o Estado é tão baixo que se você comprar um par de sapatos ou uma roupa, não vai dar para a comida do mês. E digo isso sobre aqueles que trabalham com o Estado, porque os que trabalham em particulares, em mipymes ou em outras atividades, pelo menos conseguem se sustentar um pouco mais.”
Apesar da precariedade, destacou a resistência diária dos cubanos: “Não vi outras pessoas se esforçarem como os cubanos, que se viram, que buscam, que trabalham e não trabalham para ter muitos luxos, não, trabalham para ter sua comida, seu sustento, para dar uma vida melhor aos seus filhos”, disse antes de convidar a opinar: “Diga-me se você se identifica com este vídeo e se o que falo é realidade”.
O vídeo, que soma centenas de comentários, desencadeou um intenso debate. Alguns concordam com a sua mensagem, enquanto outros a contradizem, afirmando que o problema é a falta de produtos. “Em Cuba, sim há dinheiro… mas nas mãos do governo e de sua família, do criminoso e do corrupto, só o trabalhador e aquele que se sacrifica não têm”, escreveu um usuário. Outros perguntaram como é possível haver escassez quando se veem motos e carros na rua, enquanto vários pediram mudanças radicais: “Por que todos os cubanos não se levantam e derrubam o governo?”.
Uma crise mais profunda em Cuba: preços, apagões e salários que não sustentam
O testemunho de @yaneisycanta_98 reflete uma realidade amplamente documentada. Segundo uma pesquisa do Observatório Cubano de Auditoria Cidadã (OCAC), um cubano precisa de pelo menos 30.000 pesos por mês para cobrir uma dieta básica, enquanto o salário mínimo é de 2.100 CUP e a pensão mínima não ultrapassa 3.056 CUP. A conta não fecha: com essa renda, comprar alimentos se torna uma odisséia.
En as redes sociais abundam testemunhos que confirmam o descompasso. Uma criadora revelou que gastou “o salário de quatro meses” em uma compra básica de mais de 10.000 CUP, sem incluir carne. Outros expõem a cadeia de problemas: apagões de mais de 16 horas que estragam os poucos alimentos que conseguem conseguir. “A ninguém interessa o sacrifício para colocar um prato de comida na mesa”, lamentou um jovem ao mostrar como um pacote de salsichas se estragou pela falta de eletricidade.
A própria @yaneisycanta_98 mostrou em outro vídeo o que pôde comprar com a pensão mínima: “Só consegui comprar um pacotinho de macarrão e um litro de óleo. Nada mais, cavaleiro, nada mais. O cubano realmente passa fome e necessidade”. E, em contraste, contou que um dia em família em um hotel de Las Tunas custou 12.500 pesos, uma quantia que ela definiu como “algo exuberante” para a maioria dos cubanos.
Estes relatos se somam a outros virais, como o de Sheyla Reyes, que explicou que “a comida não é a que você gostaria de comer, mas a que aparece”, ao descrever a combinação de escassez, apagões e inflação que marca a vida diária. Comprar arroz pode significar não encontrar óleo e, quando finalmente há de tudo, “não há energia para cozinhar”.
Mais do que uma opinião, um retrato do país
A frase da criadora —“as pessoas vão para a rua arranhar o pratinho de comida”— ressoou porque sintetiza a incerteza diária. À pergunta “o que você vai cozinhar hoje?”, muitos cubanos não têm resposta. E, embora haja bancas que exibem frutas ou carne, a maioria não consegue pagá-las. Enquanto isso, o sistema de racionamento continua se deteriorando: desde maio de 2024, não são entregados ovos pela caderneta, e os preços do mercado informal superam qualquer renda média.
Em um país onde uma cartela de ovos custa mais do que uma pensão mínima, a afirmação de @yaneisycanta_98 não soa exagerada: “O cubano vive com a incerteza de não saber o que vai comer”.
Perguntas frequentes sobre a crise econômica e alimentar em Cuba
Por que em Cuba há escassez de alimentos se alguns afirmam que há comida?
Em Cuba, realmente há alimentos, mas os salários não são suficientes para comprá-los. A usuária @yaneisycanta_98 destaca que o problema reside nos baixos salários, especialmente no setor estatal, que impedem muitas famílias de adquirir o necessário para se alimentar. Além disso, a alta inflação e a escassez nas lojas complicam ainda mais o acesso a produtos básicos.
Qual é o salário mínimo em Cuba e a que uma pessoa pode ter acesso com ele?
O salário mínimo em Cuba é de aproximadamente 2.100 CUP. Segundo testemunhos, com essa renda não é possível cobrir uma dieta básica nem uma semana de alimentos. Por exemplo, apenas a carne de porco custa quase a metade desse salário. A situação se agrava para os aposentados, cuja pensão mínima não ultrapassa os 3.056 CUP, obrigando muitos a recorrer ao mercado informal ou depender de remessas do exterior.
Como afeta a dolarização parcial dos mercados aos cubanos?
A dolarização parcial dos mercados em Cuba aprofunda a desigualdade econômica. As lojas que operam em dólares aumentaram, mas são acessíveis apenas para aqueles que recebem remessas ou têm acesso a divisas. Isso deixa grande parte da população, que recebe seu salário em pesos cubanos, sem poder adquirir produtos básicos, o que aumenta a sensação de injustiça e segmentação econômica.
Qual é a situação dos apagões e como eles impactam a vida diária em Cuba?
Os apagões em Cuba são frequentes e podem durar mais de 16 horas. Esta situação afeta a conservação dos alimentos, pois a falta de eletricidade faz com que se estraguem. Além disso, os apagões dificultam as atividades diárias, como cozinhar ou realizar tarefas domésticas, e obrigam muitos a buscar soluções alternativas, como cozinhar com fogões a carvão.
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