Tensão na Flórida: DeSantis ataca o ICE por roubar policiais

O governador da Flórida, Ron DeSantis, critica o ICE por recrutar policiais locais com altos bônus, gerando tensão na luta contra a imigração irregular. Xerifes locais denunciam a manobra.

Ron DeSantis junto a xerifes da FlóridaFoto © X/Ron DeSantis

Em uma reviravolta inesperada dentro de sua firme cruzada contra a imigração irregular, o governador da Flórida, Ron DeSantis, lançou duras críticas ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE), acusando-o de "roubar" pessoal dos departamentos de polícia do estado com bônus de contratação de até 50.000 dólares.

Durante uma aparição em Orlando na sexta-feira passada, DeSantis expressou sua insatisfação ao saber que o ICE está enviando e-mails de recrutamento para agentes locais recentemente treinados para tarefas migratórias, como parte de um esforço federal para aumentar seu quadro de funcionários com recursos da “One Big Beautiful Bill Act”, assinado por Donald Trump.

“Por que têm que vir buscar nossos agentes que já estão na briga?”, reclamou o governador. “Só estão trocando a camisa deles”, informou a estação membro da National Public Radio na área da Baía de Tampa, WUSF.

O xerife do condado de Polk, Grady Judd, foi um dos primeiros a denunciar publicamente a manobra do ICE. “Estamos recebendo e-mails oferecendo bônus e benefícios. É assim que nos agradecem por ajudar a fazer o trabalho deles?”, disse indignado.

Judd apontou diretamente para a secretária de Segurança Nacional, Kristi Noem, a quem exigiu um pedido de desculpas público. “Que ela tenha coragem e faça o que é certo”, afirmou.

A irritação se estende a outros condados como Pinellas, onde o xerife Bob Gualtieri também confirmou a ofensiva de recrutamento. “É uma traição. O ICE está usando nossa colaboração para retirar pessoal das nossas agências”, denunciou seu escritório.

Flórida, o epicentro da maquinaria migratória

A tensão ocorre em um contexto onde a Flórida se tornou o epicentro da ofensiva migratória americana. Com mais de 10.800 prisões realizadas pelo ICE até agora em 2025, o estado lidera os acordos de colaboração 287(g), que permitem que policiais atuem como agentes de imigração.

Em total, 295 agências locais, 43% do total nacional, participam ativamente nessas operações, muitas vezes em bairros latinos e centros de trabalho.

Cidades como Miami, Orlando, Tampa e Jacksonville lideram a lista de áreas com mais detenções. E nesse contexto, a perda de pessoal treinado gera preocupação, pois os agentes que o ICE pretende recrutar são os mesmos que foram preparados para atuar contra migrantes em suas comunidades locais.

Enquanto o governador se orgulha de tornar a Flórida o estado mais rigoroso contra a imigração irregular, com leis que criminalizam imigrantes indocumentados, reforçam o E-Verify e permitem detenções mesmo sem antecedentes criminais, a agência federal avança com seu próprio plano de expansão.

El próprio DeSantis disse que “isso não é minha política. Vem do ICE. Então, se vocês não concordam, levantem a voz”. Uma mensagem direta para os xerifes do estado, mas também um sinal de fratura na frente conservadora.

O impacto humano: mais operações, mais medo

Mientras as autoridades se disputam por pessoal e protagonismo, o saldo humano aumenta. Segundo o Deportation Data Project, pelo menos 36% dos detidos na Flórida não têm antecedentes criminais, e centenas foram presos em seus empregos ou na via pública. As denúncias por separação de famílias, deportações expressas e condições questionáveis em centros como “Alligator Alcatraz”, nos Everglades, estão se multiplicando.

Em comunidades onde muitos migrantes, incluindo cubanos, estão há anos construindo uma vida, o temor é palpável. E agora, a mesma rede de colaboração entre policiais e o ICE que colocou milhares em risco enfrenta uma crise interna que pode deixar um sistema ainda mais agressivo.

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