"Que se nos vão deportar, que nos deportem. E se não, que nos soltem." Assim resume Aris Reyes, cubano detido no centro de detenção migratória conhecido como "Alligator Alcatraz", o clamor desesperado de centenas de pessoas que estão há semanas enclausuradas sem informações claras, sem acesso à justiça e sob condições desumanas.
"Queremos um processo justo. Que sejamos processados, que nos têm aqui pior do que indocumentados", declarou a Telemundo Reyes, que foi detido por dirigir sem uma licença válida, mas já tinha uma ordem de deportação anterior.
Desde o coração dos Everglades, onde se localiza este antigo aeroporto reconvertido em prisão administrada pelas autoridades da Flórida, centenas de migrantes clamam por uma solução para seus casos.
O que deveria ser um passo intermediário enquanto se resolvem seus casos migratórios se transformou, segundo os testemunhos, em um pesadelo.
“Aqui estamos como cães, estamos trancados em jaulas”, detalhou o cubano.
O governador Ron DeSantis comentou recentemente que os detidos no centro recebem ao entrar um folheto onde são informados de que podem optar por um voo de volta para seu país de origem, com todas as despesas pagas pelo governo federal.
"Ninguém é obrigado a ficar", afirmou.
No entanto, os presos contradizem essa versão. "Não nos dizem nada, não há informação, não acontece nada... aqui o único que acontece é que as coisas ficam piores", insistiu Reyes.
Familiares e advogados denunciam uma falta total de comunicação por parte das autoridades e da equipe do centro.
O advogado de imigração John De La Vega explicou que os processos migratórios podem levar semanas ou até meses para serem resolvidos, especialmente se os detidos não tiverem representação legal ou enfrentarem obstáculos burocráticos.
"Muitos estão presos em um vácuo legal. Estão detidos administrativamente, mas sem clareza sobre seu futuro nem acesso efetivo ao devido processo", alertou.
Telemundo reportou a história de Fernando Artese, argentino que ainda está detido em Alligator Alcatraz apesar de ter solicitado diretamente sua deportação: "Eu quero ir embora, eu estava me preparando para ir, mas os dias passam e passam", disse.
Condições infra-humanas
Esta semana veio à tona o caso de outro migrante cubano: Pedro Lorenzo, pai de três cidadãos americanos, que já havia cumprido uma pena por um crime cometido no passado.
No dia 8 de julho, apresentou-se voluntariamente no escritório de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) em Miramar para um controle de rotina; desde então, permanece detido, sem novas acusações e sem informações legais.
"Ele não está preso por um crime. Ele estava se apresentando como exigido e foi detido sem motivo", declarou sua esposa, Daymaris Lorenzo.
São numerosas as denúncias sobre as condições dos detidos: 32 pessoas encerradas em jaulas, dormindo em beliches sem privacidade, cercadas por calor extremo, sem ar-condicionado, com chuveiros e sanitários abertos e compartilhando três pias por cela.
Muitos devem beber e escovar os dentes com a água do mesmo lugar onde defecam.
Segundo os testemunhos, as pessoas detidas não têm as luzes apagadas para descansar, dormem apenas duas horas por dia, não recebem refeições quentes e são alimentadas de forma irregular, às vezes com simples sanduíches.
Além disso, estão incomunicados: não têm acesso a telefones, nem papel ou lápis para escrever o número de seus familiares.
A atenção médica é escassa ou inexistente. "Se alguém se sente mal, medem a pressão e pronto. Não há tratamentos nem acompanhamento", relatou a esposa de um dos migrantes.
Uma prisão sem julgamento e sem saída
"Alligator Alcatraz" tem sido duramente criticado por legisladores, ativistas e organizações religiosas.
Um relatório legislativo o qualificou de "campo de internamento", com graves violações de direitos humanos, como superlotação extrema, alimentação inadequada, calor sufocante, falta de água potável e assistência médica deficiente.
Uma visita de congressistas democratas no dia 12 de julho revelou colchões infestados, banheiros colapsados, temperaturas internas entre 83 e 85 graus e porções de comida "insuficientes e pouco saudáveis".
Aos legisladores não foi permitido conversar com os detidos nem com o pessoal. "Este centro deve ser fechado imediatamente", sentenciou a congressista Debbie Wasserman Schultz.
A Arquidiócesis de Miami, por sua vez, denunciou que o centro atenta contra a dignidade humana e liderou um terço em frente às suas instalações como sinal de protesto.
Enquanto isso, mais de 700 pessoas, em sua maioria da Guatemala, México e Cuba, continuam lá detidas. A grande maioria enfrenta apenas acusações administrativas de imigração, sem antecedentes criminais graves.
Perguntas frequentes sobre a situação no centro de detenção Alligator Alcatraz
Quais são as condições de detenção no Alligator Alcatraz?
As condições em Alligator Alcatraz são descritas como desumanas pelos detidos e organizações de direitos humanos. Os migrantes estão amontoados em gaiolas, com acesso limitado a alimentos adequados, água potável e atendimento médico. As instalações carecem de privacidade nos banheiros e chuveiros, e as temperaturas são extremas. Além disso, os detidos não têm acesso adequado a representação legal.
Queixas foram apresentadas contra o centro de detenção Alligator Alcatraz?
Se apresentaram múltiplas denúncias legais contra Alligator Alcatraz, focando em violações de direitos humanos e na falta de acesso à representação legal. A ACLU da Flórida e outras organizações denunciaram que é impedido aos detidos exercer seu direito à defesa legal, e foram relatadas condições de vida inadequadas, como temperaturas extremas e comida em mau estado. Além disso, há ações judiciais por falta de avaliação ambiental na construção do centro.
Por que os migrantes estão sendo detidos no Alligator Alcatraz?
Muitos migrantes em Alligator Alcatraz estão detidos por infrações administrativas de imigração, sem acusações criminais graves. Alguns deles enfrentam apenas procedimentos migratórios por entrar no país sem autorização ou por problemas administrativos menores. A detenção tem sido criticada por ser desproporcional e pelas condições em que se encontram os detidos.
Quais medidas as autoridades tomaram em relação ao centro de detenção?
O governador da Flórida, Ron DeSantis, defendeu a operação de Alligator Alcatraz, apesar das críticas e denúncias. Não se planeja fechar o centro até que opere em plena capacidade. As autoridades iniciaram deportações a partir do centro, embora não tenham fornecido detalhes específicos sobre as operações. Além disso, há planos para construir mais centros de detenção semelhantes em outros estados.
Como a comunidade internacional reagiu ao Alligator Alcatraz?
A comunidade internacional, incluindo governos estrangeiros como os da Itália e do México, expressou preocupação com o tratamento de seus cidadãos detidos no centro. Solicitações diplomáticas foram feitas para obter informações e melhorar as condições de detenção. Além disso, organizações internacionais de direitos humanos criticaram duramente as condições e as políticas migratórias associadas ao centro.
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