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Pela primeira vez em muito tempo, um meio de comunicação estatal em Cuba retratou com franqueza o colapso dos serviços funerários na Ilha.
A emissora Radio Mayabeque publicou uma reportagem na qual reconhece que despedir-se de um ente querido em Cuba se tornou uma experiência dolorosa, não apenas pela perda em si, mas pelo acúmulo de carências, negligências e falta de humanidade que as famílias enfrentam nos momentos mais difíceis.
O texto, que descreve a situação da funerária San José, na capital de Mayabeque, expõe sem rodeios a ineficiência de um sistema que deixou nas mãos da improvisação, da escassez e do abandono um dos serviços mais básicos: o de acompanhar dignamente os mortos.
Desde que ocorre o falecimento, começa o que a própria nota denomina uma "corrida com obstáculos".
Gerir o traslado do cadáver é uma odisséia. Com apenas dois veículos designados para atender os onze municípios da província, os familiares devem esperar horas, até mais de um dia, para que o carro funerário chegue.
A ansiedade se acumula com a decomposição do corpo e a incerteza de quando o transporte aparecerá.
O problema se agrava por detalhes incomuns: o posto de comando provincial que coordena os deslocamentos nem sequer tem sede oficial. Opera a partir da casa de uma administradora, pois seu local original está em ruínas.
Enquanto isso, um carro Volga que poderia ser incorporado ao serviço permanece parado por falta de orçamento para pagar o conserto feito por uma Mipyme. Ou seja, o Estado não tem nem mesmo recursos para saldar uma dívida menor que poderia aliviar um pouco o drama funerário.
Em setembro passado, vários residentes tiveram que transportar um caixão a pé por dois quilômetros até o cemitério da localidade, devido à falta de transporte adequado.
"Caminhando os quilômetros até o cemitério em San Antonio, Mayabeque, porque não há carro. Caminhando, porque isso aí já vai apodrecer e fermentar. O dolente é um. Segurando o caixão para poder enterrar o familiar", denunciou uma mulher em um vídeo.
Mas o calvário não termina com a transferência.
A preparação do corpo acontece em uma morgue deteriorada e sem iluminação.
Os caixões que estão sendo entregues são, segundo testemunhas, uma soma de remendos de madeira mal montados, com medidas inadequadas e sem acabamentos.
Incluso os trabalhadores devem abrir as tampas seladas com ferramentas improvisadas, na frente das famílias, para colocar cristais removíveis que permitam a última despedida. Depois, batem a tampa com um martelo ou "com o que for possível", à vista de todos, sem nenhuma solenidade.
Nos velórios não há ventiladores, nem assentos, nem flores disponíveis em floriculturas estatais. As capelas estão abandonadas, sujas, quebradas.
A única alternativa é comprar flores e alimentos de particulares, se é que se podem pagar. Na cafeteria que antes oferecia algo para amenizar o longo velório, agora reina o abandono.
Mas o que mais machuca não são apenas as carências materiais, mas sim a desumanização.
Uma coordenadora, conforme relatou a reportagem, tratava os enlutados como se fossem passageiros em um terminal. Enquanto comia uma goiaba, disse: "Já se despediram? Quando os familiares terminarem, saem primeiro e depois o carro, vocês sabem que é preciso proteger a embreagem."
Um motorista admitiu que os carros não estão preparados para funerais porque nem mesmo têm lubrificantes nem sapatas.
Os cemitérios também não escapam ao abandono.
Em San José de las Lajas não há água, nem drenagem, nem iluminação, nem um local adequado para realizar autópsias. É um terreno cheio de ervas daninhas, onde foram relatados roubos de restos humanos e criptas saqueadas.
Um problema nacional
A situação na funerária San José reflete uma degradação que já foi documentada em todo o país.
Em numerosas ocasiões, os cubanos têm mostrado os inventos aos quais recorrem quando o carro fúnebre não chega: transportar seus mortos em caminhões, carrinhos, guaguas ou até em redes.
Em fevereiro, causou grande comoção em Imías, Guantánamo, o caso de um menino falecido, cujos familiares se viram obrigados a carregar seu corpo em uma rede improvisada devido à falta de um carro funerário.
Em alguns casos, tiveram que esperar mais de 12 horas para que um veículo aparecesse, obrigando as famílias a manter o corpo em condições indíginas e anti-higiênicas.
Assim aconteceu em julho do ano passado na localidade La Estrella, no município de Buey Arriba, Granma, onde uma jovem teve que recorrer à Internet para denunciar o caso de seu tio, que estava em casa sem caixão nem meios para seu traslado ao cemitério.
"Ajudem-me a compartilhar esta publicação. Meu tio está morto desde ontem. Ele já está em estado de decomposição, tem um forte mau cheiro e não há caixão nem transporte para levá-lo para o enterro", escreveu Olenmis Miranda Sevilla ao lado da foto de um corpo coberto com um lençol e algumas flores em cima, no que parecia ser o portal de uma casa.
Da mesma forma, os coveiros, carentes de recursos, precisam selar os jazigos com cimento comprado pelas próprias famílias.
Toda essa situação ocorre em um país onde o discurso oficial insiste que "nenhum cubano fica desamparado".
Mas os fatos são outros. A morte, que deveria ser um momento de reflexão, respeito e despedida, se transforma em uma experiência marcada pela frustração, raiva e humilhação.
Em vez de acompanhar seus entes queridos, os familiares devem enfrentar o caos, resolver problemas logísticos e lidar com a desídia do estado.
A pergunta que subjaz a esta radiografia do desastre é clara: como se pode confiar em um governo que nem sequer é capaz de garantir o mínimo respeito aos mortos e aos seus enlutados?
O país afunda em uma crise onde nem o descanso final está assegurado, e onde a cada dia, como lembra a reportagem, "a esperança morre" junto com os corpos que desaparecem sem justiça, sem memória e sem paz.
Perguntas frequentes sobre a crise dos serviços funerários em Cuba
Qual é o estado atual dos serviços funerários em Cuba?
Os serviços funerários em Cuba estão em um estado crítico, marcado pela escassez de recursos, a falta de manutenção e a desorganização. As famílias enfrentam grandes dificuldades para realizar sepultamentos dignos devido à falta de veículos funerários, à má qualidade dos caixões e ao deterioro das instalações funerárias.
Quais problemas enfrentam as famílias cubanas ao organizar um funeral?
As famílias cubanas enfrentam múltiplos obstáculos ao organizar um funeral, como a demora no traslado de cadáveres pela falta de carros funerários, o uso de caixões de baixa qualidade e as condições inadequadas das funerárias e cemitérios. A desumanização e a falta de respeito acrescentam dor à perda de seus entes queridos.
Quais medidas o governo cubano tomou para melhorar os serviços funerários?
O governo cubano introduziu algumas medidas, como a entrega de carros funerários elétricos em certas localidades e a participação da União de Indústrias Militares na produção de veículos elétricos para funerárias. No entanto, essas ações são vistas como insuficientes diante da magnitude da crise estrutural dos serviços funerários no país.
Como a crise funerária afeta as províncias mais distantes de Havana?
As províncias mais distantes de Havana sofrem ainda mais devido à desigualdade na distribuição de recursos. A escassez de carros funerários e a precariedade das infraestruturas funerárias obrigam as famílias a utilizar meios improvisados de transporte para os enterros. Isso reflete uma falta de atenção do governo às necessidades básicas dessas comunidades.
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