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A empresa espanhola EuroSMC S.A., dedicada à fabricação de equipamentos industriais, quebrou o silêncio sobre as devastadoras consequências que o não pagamento do Governo cubano teve para seu negócio.
“Nos criou um buraco de um milhão e pouco de euros que quase nos levou à ruína”, denunciou um porta-voz da empresa em declarações ao diário Vozpópuli, confirmando que Cuba deixou de pagar seus compromissos desde 2017.
O testemunho da EuroSMC revela não apenas a magnitude do calote, mas também o complexo emaranhado institucional por trás da dívida. Embora os contratos tenham sido assinados com empresas importadoras cubanas como a Energoimport, é o Banco Internacional de Comércio, entidade estatal, que gerenciava os pagamentos.
“Cuba o que fez foi gerar nomes comerciais, mas o cofre é todo o mesmo. Vem do mesmo lugar”, afirmou a fonte.
Ao contrário de comerciantes ou intermediários, a EuroSMC S.A., com sede em Madri, é uma fábrica com operações industriais complexas. Com presença em mais de 100 países, projeta, fabrica e comercializa equipamentos de medição elétrica e testes de sistemas de potência utilizados em subestações, centrais e redes energéticas.
Com mais de 30 anos de trajetória, EuroSMC foi reconhecida internacionalmente pela excelência técnica e pela qualidade certificada de seus produtos. A falta de cobrança não apenas paralisou seu fluxo de receitas, mas ameaçou fechar uma empresa que por anos confiou na relação bilateral com Cuba. “Somos uma fábrica, não um trader. Isso foi devastador para nós”, lamentam.
O caso da EuroSMC S.A. não é isolado. A patronal catalã Foment del Treball alertou recentemente que Cuba deve mais de 350 milhões de euros a cerca de 300 empresas espanholas, na sua maioria pequenas e médias, muitas das quais exportaram bens humanitários para a ilha, como material médico e alimentos.
Segundo a Foment del Treball, mais de 15% das empresas afetadas pelos calotes tiveram que encerrar operações. Outras atravessam processos de recuperação judicial ou lutam para sobreviver sem acesso a compensações ou garantias internacionais. A Catalunha, historicamente ligada ao comércio com a ilha, é a região mais afetada, com mais de 40% das empresas impactadas.
As dívidas se concentram em setores estratégicos para a população cubana, como saúde, energia e alimentação. Apesar da gravidade da situação, o Governo cubano não ofereceu garantias de pagamento, escudando-se na falta de divisas provocada pela crise econômica e pelo embargo estadunidense.
Forgiveness of debt in the midst of a corruption scandal
Enquanto centenas de empresas espanholas clamam por justiça, o Governo de Pedro Sánchez perdoou parcialmente a dívida cubana no âmbito de um acordo de cooperação. A chamada “debt swap” converte até 375 milhões de euros em projetos de investimento em Cuba, evitando assim que o regime devolva o dinheiro em espécie.
A medida foi duramente criticada por coincidir com uma crise de corrupção que envolve diretamente o Partido Socialista Obrero Español (PSOE). O ex-secretário de Organização do partido, Santos Cerdán, encontra-se em prisão preventiva por supostamente liderar uma rede de comissões ilegais junto a altos cargos governamentais.
Para muitos setores na Espanha, a condonação da dívida a Cuba é vista como uma manobra para desviar a atenção da crise política interna e, ao mesmo tempo, como um gesto injustificado em relação a um regime que tem sistematicamente descumprido seus compromissos.
A relação histórica entre Espanha e Cuba enfrenta um de seus momentos mais delicados. O crescente número de empresas afetadas e a falta de mecanismos reais para garantir os pagamentos semearam desconfiança na viabilidade comercial da ilha como parceiro econômico.
En meio do silêncio institucional de Havana, os afetados na Espanha continuam aguardando uma resposta que não chega. “Temos cartas de crédito irrevogáveis, perfeitamente documentadas. Isso não vence, mas ninguém paga”, denunciou a EuroSMC, com resignação.
O impacto humano por trás desta crise se traduz em empregos perdidos, fábricas à beira do fechamento e comunidades que dependem de pequenas empresas, hoje sufocadas por uma dívida que parece não ter perspectiva de pagamento.
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