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A construção de um novo e polêmico centro de detenção de imigrantes indocumentados começou no estado da Flórida.
Denominado extraoficialmente “Alligator Alcatraz”, o projeto tem sido promovido pelo procurador-geral James Uthmeier e o governador Ron DeSantis, que o apresentam como um avanço decisivo na política migratória estadual.
O nome "Alligator Alcatraz" faz referência à localização isolada do local, cercado por jacarés e outras espécies selvagens que atuariam como uma barreira natural de segurança.
“Se alguém escapar, não encontrará muito mais do que jacarés e pítons. Não há para onde ir nem onde se esconder”, declarou o procurador-geral Uthmeier.
Instalações temporárias e vigilância militar
O design do centro prevê tendas reforçadas capazes de suportar o clima extremo do sul da Flórida no verão.
Não foram planejadas paredes de concreto nem estruturas permanentes, graças à aparente vantagem que o terreno selvagem oferece para desestimular qualquer tentativa de fuga.
O prédio, com cerca de 78 quilômetros quadrados, contará com apoio militar, particularmente da Guarda Nacional da Flórida.
Os primeiros indícios de construção foram registrados por Telemundo 51, que reportou movimento de máquinas e pequenas unidades móveis na área do antigo aeroporto.
As autoridades estaduais projetam que o centro esteja operativo no início de julho, com uma capacidade inicial de pelo menos 1.000 detidos e uma expansão progressiva.
Uma construção sem consenso
A rapidez das obras acendeu alarmes entre as autoridades locais, líderes ambientais e comunidades indígenas.
Daniella Levine Cava, prefeita de Miami-Dade, expressou sua preocupação com o impacto ecológico da obra e com a falta de transparência no processo de aquisição do terreno.
Em uma carta oficial, advertiu: “Devido à localização deste terreno em uma zona crítica, sua cessão requer uma revisão minuciosa e um devido processo antes de tomar qualquer ação que possa ter consequências significativas a longo prazo para nossa comunidade”.
Levine Cava também denunciou que o estado da Flórida ofereceu apenas 20 milhões de dólares pela propriedade, quando sua avaliação mais recente supera os 190 milhões.
“Solicitamos uma revisão minuciosa do impacto em nosso meio ambiente. Não recebemos resposta”, comentou após um evento recente, indicando que as obras começaram sem a aprovação formal do condado.
Uso de poderes de emergência
Através de uma carta enviada na segunda-feira, Kevin Guthrie, diretor da Divisão de Gerenciamento de Emergências da Flórida, invocou poderes de emergência estabelecidos durante a administração Biden para justificar a ocupação do terreno.
"O tempo é curto. Devemos agir rapidamente para garantir a preparação e a continuidade de nossas operações estatais para ajudar o governo federal na aplicação da lei migratória”, acrescentou, em declarações citadas pela imprensa local.
Embora o estado afirme estar aberto a negociar a compra, a propriedade já foi intervida pela administração DeSantis por meio de decretos executivos.
Essa medida unilateral gerou uma crescente tensão entre o governo estadual e as autoridades de Miami-Dade.
Respaldo federal e visão nacional
O Departamento de Segurança Nacional (DHS) aprovou o projeto e elogiou a cooperação com a Flórida.
Em sua conta oficial, o DHS afirmou que trabalha “de maneiras rentáveis e inovadoras para cumprir com o mandato do povo americano de realizar deportações em massa”, destacando a eficiência do centro proposto nos Everglades.
A porta-voz do DHS, Tricia McLaughlin, afirmou: "Alligator Alcatraz expandirá as instalações e o espaço disponível em apenas alguns dias, graças à colaboração com a Flórida.”
Por sua parte, Uthmeier reafirmou sua alinhamento com as políticas federais de imigração, ao declarar: "Me orgulho de ajudar a apoiar o presidente Trump e a secretária Noem em sua missão de resolver de uma vez por todas nosso problema de imigração ilegal.”
Um centro financiado pela FEMA e com objetivos polêmicos
O custo operacional estimado do centro superará os 450 milhões de dólares anuais, uma despesa que, segundo relatos do New York Times, poderá ser parcialmente reembolsada pela Agência Federal para a Gestão de Emergências (FEMA).
Os fundos utilizados provêm de programas criados para apoiar organizações que atendem migrantes, embora parte desses fundos tenha sido objeto de controvérsia e litígios, especialmente pela sua retirada em cidades como Nova Iorque.
Preocupações ecológicas e de direitos humanos
Líderes ambientais e comunidades indígenas reagiram com firmeza.
A organização Friends of the Everglades denunciou publicamente: "Este local é um lar multigeracional para os povos indígenas da Flórida, e não é o lar de uma prisão prejudicial e desnecessária".
Também Curtis Osceola, assessor da tribo miccosukee, expressou que a tribo estava interessada em preservar aquele terreno e participar de um projeto de restauração ambiental: "Será vital que restauremos essas terras e o fluxo de água".
Além das críticas ao plano migratório em si, a construção nesta região -considerada ecologicamente sensível- poderia gerar danos irreversíveis ao ecossistema dos Everglades, uma das reservas naturais mais importantes dos Estados Unidos.
Uma política estatal alinhada com Trump
A Flórida se posicionou como um estado líder na implementação da política migratória promovida pela administração Trump.
O governador DeSantis tem promovido normas que obrigam os 67 condados a cooperar com o ICE, e propôs que a Patrulha Rodoviária participe de operações de imigração.
O centro de detenção “Alligator Alcatraz” se insere dentro dessa ofensiva mais ampla.
Apesar de a prefeita Levine Cava reconhecer a importância do controle de fronteiras e a necessidade de que imigrantes com antecedentes criminais enfrentem a justiça, ela destacou que não é suficiente agir rapidamente: é necessária uma revisão legal, ambiental e moral de qualquer medida dessa magnitude.
Enquanto as autoridades da Flórida avançam a toda velocidade para que as primeiras camas estejam ocupadas a partir de 1º de julho, a oposição de líderes locais e defensores do meio ambiente ameaça transformar este projeto em um campo de batalha legal, político e social.
Perguntas frequentes sobre o centro de detenção "Alligator Alcatraz" na Flórida
O que é "Alligator Alcatraz" e por que está sendo construído na Flórida?
"Alligator Alcatraz" é um novo centro de detenção de imigrantes indocumentados na Flórida, impulsionado pelo procurador geral James Uthmeier e pelo governador Ron DeSantis. Está localizado nos Everglades e cercado por fauna selvagem, que é utilizada como uma barreira de segurança natural. Este projeto faz parte de uma política migratória estadual alinhada com a administração Trump, voltada para deter e deportar imigrantes com antecedentes criminais.
Por que a construção de "Alligator Alcatraz" é polêmica?
A construção de "Alligator Alcatraz" gerou polêmica por suas implicações ecológicas e humanitárias. Líderes ambientais e comunidades indígenas expressaram preocupações sobre o impacto ambiental nos Everglades, uma área ecologicamente sensível. Além disso, defensores dos direitos humanos criticam a desumanização e criminalização dos imigrantes ao utilizar um ambiente selvagem como ferramenta de dissuasão.
Como será financiado o centro de detenção "Alligator Alcatraz"?
O custo operacional do centro de detenção "Alligator Alcatraz" é estimado em mais de 450 milhões de dólares anuais. A Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA) reembolsará parte desses custos. Os fundos provêm de programas destinados a apoiar organizações que atendem imigrantes, embora esse financiamento tenha sido objeto de controvérsia.
Que medidas foram tomadas pelas autoridades locais em relação ao "Alligator Alcatraz"?
As autoridades locais, especialmente no condado de Miami-Dade, expressaram sua preocupação com o projeto. A prefeita Daniella Levine Cava solicitou uma revisão abrangente do impacto ambiental e social antes de prosseguir com o uso do terreno. O estado da Flórida propôs pagar 20 milhões de dólares pelo terreno, embora seu valor avaliado ultrapasse 190 milhões, o que gerou tensões entre o governo estadual e as autoridades locais.
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