O Procurador-Geral da Flórida, James Uthmeier, abalou a opinião pública com uma proposta tão ambiciosa quanto polêmica: construir o maior centro de detenção de imigrantes do estado no coração dos Everglades, no que ele chamou de “Alcatraz dos jacarés” (Alcatraz Alligator).
A instalação estaria localizada no antigo e “praticamente abandonado” Centro de Treinamento Collier, uma infraestrutura aeroportuária de 39 milhas quadradas com uma pista de 10.500 pés de comprimento.
Um vídeo promocional do projeto foi publicado nesta quinta-feira nas redes sociais pelo meio conservador Florida's Voice.
“Apresenta uma oportunidade eficiente e econômica para construir um centro de detenção temporária, uma vez que não é necessário investir muito no perímetro”, declarou Uthmeier.
Uma das razões que motiva a escolha é o ambiente natural da região.
“As pessoas saem, não há muito o que esperar além de jacarés e pítons. Não há para onde ir, nem onde se esconder”, alegou o procurador-geral.
Um centro três em um: Detenção, processamento e deportação
Uthmeier explicou que a instalação funcionaria como um "centro três em um": abrigaria imigrantes indocumentados com antecedentes criminais, processaria seus casos legais e facilitaria sua deportação direta da pista do aeroporto.
“Se alguém escapar, não haverá para onde correr nem onde se esconder; apenas os jacarés e as pítons estariam esperando. Por isso, gosto de chamá-lo de ‘Alcatraz dos Jacarés’”, insistiu o procurador-geral em uma entrevista com Fox Business.
Além disso, assegurou que a obra poderia estar em funcionamento em um prazo de apenas 30 a 60 dias a partir do início da sua construção.
A proposta contempla até 1.000 leitos e contaria com apoio logístico da Guarda Nacional da Flórida, cujos advogados militares agiriam como juízes de imigração para agilizar os procedimentos legais.
Um projeto a serviço da agenda migratória de Trump
A iniciativa não é isolada. Faz parte de uma ofensiva legal e política mais ampla promovida a partir de Tallahassee, em consonância com a administração Trump.
“A Flórida tem liderado a aplicação da lei de imigração, apoiando os esforços da administração Trump e do ICE para deter e deportar estrangeiros criminosos”, assegurou Uthmeier.
Segundo o promotor, esta instalação seria “a janela única para levar a cabo a agenda de deportação em massa do presidente Trump”, referindo-se à promessa do presidente de executar a maior operação de deportação da história dos Estados Unidos.
Em março, durante um discurso no Congresso, Trump disse: “Vamos proteger nossa pátria e completar a maior operação de deportação na história dos Estados Unidos”.
A proposta de Uthmeier parece funcionar como um dos pilares logísticos desse objetivo.
A lei estadual e o Conselho de Controle Migratório
O projeto surgiu após Ron DeSantis encarregar os funcionários estaduais a identificação de locais para centros de detenção temporários.
A medida está amparada por uma nova legislação contra a imigração ilegal, aprovada no início do ano.
Como parte do novo marco institucional, a Flórida criou o Conselho Estadual de Controle de Imigração, composto por xerifes e chefes de polícia, e supervisionado por uma junta integrada por membros do gabinete estadual e legisladores.
Este organismo reforça a coordenação com o Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) e promove acordos de colaboração com autoridades locais.
"Isto representa uma grande oportunidade para que o estado colabore com os condados de Miami-Dade e Collier," acrescentou.
Donald Trump e Alcatraz
A inícios de maio, já Donald Trump ordenou reabrir e ampliar a mítica prisão federal de Alcatraz, na Califórnia, para encarcerar os criminosos "mais impiedosos e violentos dos Estados Unidos”.
Alcatraz, localizada em uma ilha na baía de São Francisco, foi uma prisão federal entre 1934 e 1963. Seu fechamento ocorreu devido aos altos custos de manutenção. Mantê-la aberta era quase três vezes mais caro do que outras penitenciárias do sistema prisional americano.
Reabrir a prisão de Alcatraz não seria apenas uma medida administrativa, mas também teria uma poderosa carga simbólica que Donald Trump parece querer explorar.
Alcatraz representa na memória coletiva uma era de mão dura, isolamento extremo e castigo exemplar. Localizada em uma ilha rochosa, seu design e localização transmitiam a ideia de que ninguém poderia escapar do poder do Estado.
A variante floridana de Alcatraz parece competir com essa simbologia, mas no seu caso remetendo a uma fauna selvagem e predadora, implacável em caso de uma tentativa de fuga.
Vozes a favor e contra
Os seguidores da mão dura da Administração têm se mostrado favoráveis à ideia, e há quem elogie a Flórida por estar sempre na vanguarda.
Para outros, o projeto é simplesmente atroz.
Embora Uthmeier tenha promovido a proposta de seu "Alcatraz dos jacarés" como "uma oportunidade econômica" e "eficiente", as implicações éticas e humanitárias de uma prisão cercada por fauna selvagem como mecanismo de dissuasão têm gerado controvérsia.
O promotor pressionou funcionários locais a ratificar acordos com o ICE.
No início de junho, advertiu publicamente o xerife do condado de Broward, Gregory Tony, por expressar dúvidas sobre a cooperação em questões migratórias.
Paralelamente, as operações de fiscalização se intensificaram. Uma ação recente em Tallahassee ganhou notoriedade nacional no final de maio, marcando um aumento na pressão sobre as comunidades migrantes na Flórida.
A proposta do “Alcatraz dos jacarés” foi apresentada por seus promotores como uma solução ousada e pragmática diante do aumento da imigração ilegal.
No entanto, para críticos e defensores dos direitos humanos, simboliza uma escalada preocupante em direção à criminalização e desumanização dos imigrantes.
Converter um ambiente hostil e selvagem em uma ferramenta de segurança levanta profundas questões éticas. As imagens de jacarés e pitões atuando como “guardas naturais” evocam mais um filme distópico do que um sistema de justiça humanitária.
Aun assim, Uthmeier se mantém firme. “Alligator Alcatraz: estamos prontos para começar”, concluiu.
O futuro do projeto está agora nas mãos dos legisladores e funcionários federais.
Perguntas frequentes sobre a proposta do centro de detenção nos Everglades
O que é o "Alcatraz de jacarés" proposto pelo Procurador Geral da Flórida?
O "Alcatraz de jacarés" é uma proposta do Procurador-Geral da Flórida, James Uthmeier, para construir um grande centro de detenção de imigrantes nos Everglades. Este centro estaria localizado no antigo Centro de Treinamento Collier, uma área de 39 milhas quadradas, e seria utilizado para a detenção, processamento e deportação de imigrantes indocumentados com antecedentes criminais. A localização nos Everglades foi escolhida por seu ambiente natural hostil, que Uthmeier considera um elemento de dissuasão para as fugas.
Qual é o objetivo da proposta do centro de detenção na Flórida?
O objetivo do centro de detenção proposto é servir como um centro três em um para abrigar, processar e deportar imigrantes indocumentados com antecedentes criminais. Além disso, a proposta faz parte de uma estratégia mais ampla para reforçar a aplicação das leis de imigração em linha com a agenda do ex-presidente Donald Trump, que busca realizar a maior operação de deportação da história dos Estados Unidos.
Que críticas recebeu a proposta do "Alcatraz de caimanes"?
A proposta foi criticada por suas implicações éticas e humanitárias. Críticos e defensores dos direitos humanos a veem como um passo em direção à criminalização e desumanização dos imigrantes, utilizando um ambiente natural hostil como ferramenta de segurança. As imagens de jacarés e pítons agindo como "guardião naturais" foram vistas como mais próprias de um filme distópico do que de um sistema de justiça humanitário.
Como se relaciona a proposta do centro de detenção com a política migratória da Flórida?
A proposta se insere dentro de uma nova legislação contra a imigração ilegal aprovada na Flórida. Esta lei cria o Conselho Estadual de Controle de Imigração para coordenar com o ICE e promover acordos de colaboração com autoridades locais. Além disso, reflete a pressão do governador Ron DeSantis sobre os funcionários locais para que cooperem com as autoridades federais na aplicação das políticas de imigração.
Arquivado em:
