Um vídeo compartilhado no TikTok pela usuária cubana @layami.87, residente nos Estados Unidos, reacendeu o debate sobre o vínculo emocional e econômico entre os emigrados e suas famílias em Cuba. Sem relatar uma vivência pessoal concreta, a jovem faz uma reflexão que se conecta com um sentimento que muitos outros já expressaram nas redes: a sensação de estar sempre dando sem receber gratidão em troca.
"A família em Cuba se tornou descarada e ingrata. Não quero generalizar, mas sei que muitos vão se identificar com o que eu vou dizer", alerta no início do seu vídeo. A gravação se inspira em outro conteúdo viral, o da influenciadora Azúcar de Cuba, que mostrou uma compra de alimentos por 120 dólares em Cuba. A partir daí, a tiktoker compara essa imagem com sua realidade nos EUA, onde gastou 150 dólares em produtos essenciais apenas para uma semana.
“Você manda 150 para sua família e, três dias depois, eles estão dizendo que não têm o que comer, que com 150 não dá para nada”, diz, visivelmente indignada. “O nível de descaramento já chegou a níveis estratosféricos”, sentencia, afirmando que a primeira coisa que sentiu ao ver o vídeo de Azúcar foi “raiva e depois decepção”.
Sua reflexão não é apenas econômica, mas também emocional. “A família se esqueceu de nós que estamos deste lado. Somos seres humanos, que também temos família, que temos filhos, que temos contas a pagar, que passamos o dia trabalhando”. E conclui: “Com Cuba nunca se sai bem. Infelizmente, a família perdeu até a humanidade”.
Reações polarizadas: abuso, necessidade ou desconexão?
O vídeo gerou milhares de interações. Entre aqueles que se sentiram identificados, houve mensagens de apoio direto: “Isso me acontece igual, nunca é suficiente”, comentou uma usuária. “Já nem agradecem pelo que a gente manda”, escreveu outro. Um dos mais comentados foi o de um homem que propõe cortar toda ajuda por três meses para ver o que acontece: "0 remessa, 0 comida, 0 roupa, excepcionalmente medicina para um familiar doente", afirmou.
Uma mulher afirmou: "Eu tirei isso de cima, não sustento ninguém. Que lutem como fazemos nós aqui". Outro comentário muito apoiado dizia: "Você manda 100 e eles dizem que isso não é nada para você, como se soubessem o que a gente ganha ou o que custa sobreviver aqui".
Mas também houve respostas que convidam a nuances. Uma usuária respondeu: “Não é que sejam ingratos, é que não dá. Vá você a Cuba e veja se com 150 consegue passar um mês”. Outra acrescentou: “Uma coisa é a família que quer luxos, outra é a que realmente precisa e enfrenta dificuldades”. Algumas mães emigadas defenderam que continuarão ajudando os seus, independentemente da resposta: “Minha mãe se privou do pão para me dar, ela pode me pedir o que quiser”.
Entre os comentários, também se destacaram aqueles que apontaram que a pressão não vem apenas dos pais ou irmãos, mas de toda a rede familiar ampliada: “Você quer ajudar dois e acaba sustentando dez”, disse uma mulher. Outra resumiu assim: “A culpa é nossa por não saber dizer não”.
Uma conversa que se repete
Este tipo de reflexões não é novidade nas redes. Outras cubanas nos Estados Unidos ou na Europa compartilharam vídeos semelhantes onde denunciam se sentirem exploradas emocionalmente por seus familiares na ilha. “Me converti na escrava de Cuba”, disse uma residente em Miami. Outra, entre lágrimas, explicou que trabalha 14 horas por dia e mesmo assim é julgada por não enviar dinheiro todo mês: “Eu não sou um caixa eletrônico”.
Incluso dentro da ilha surgiram vozes críticas. A própria Azúcar de Cuba —que inspirou o vídeo de @layami.87— já disse em outros conteúdos: “O cubano que vive em Cuba ainda tem a mentalidade de que todo mundo que está nos Estados Unidos tem dinheiro, que se você dá um chute, saem 100 dólares”. E desde a Espanha, uma emigrada ironizava: “Se sabem que você viaja para Cuba, pedem até veneno para o mosquito que está te picando”.
No TikTok abundam vídeos de pessoas que dizem ter parado de viajar para a ilha ou que ocultam suas datas de chegada para evitar as "listas de pedidos". Outros reconhecem que cortaram a ajuda a familiares que usam o dinheiro em festas ou luxos, enquanto eles, no exterior, mal conseguem pagar o aluguel.
Um dilema aberto
É uma crise de valores, uma consequência da precariedade ou simplesmente uma desconexão natural entre aqueles que vivem em realidades tão distintas? A viralidade desse tipo de conteúdo sugere que não se trata de um caso isolado, mas de uma conversa pendente.
O testemunho de @layami.87, embora não relate uma experiência pessoal concreta, canaliza uma frustração coletiva. “Eu não sei se você vai se encontrar em uma situação como esta ou se pensa como eu, mas com Cuba nunca se fica bem”, diz no final. Sua mensagem, mais do que uma denúncia, é um grito de exaustão que muitos parecem compartilhar, embora nem todos concordem com seu enfoque.
desconfiança emocional, mas por uma mistura explosiva de expectativas, sacrifícios, cobranças e, cada vez mais, não passa apenas pelo dinheiro. O que está claro é que a relação entre aqueles que partiram e os que ficaram
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