Durante um recente encontro com quadros e dirigentes no município de Gibara, o primeiro-ministro de Cuba, Manuel Marrero Cruz, reiterou sua posição sobre o impacto do embargo americano, mas destacou a necessidade de evitar o "autobloqueio".
"O bloqueio é verdadeiro, é uma grande realidade e é a principal causa pela qual estamos assim, mas não pode haver autobloqueio”, destacou o funcionário governamental cubano, de acordo com um relatório do Canal Caribe.
“Nós precisamos ver como aquelas coisas que podemos transformar, desde as próprias condições de trabalho, desde nossos próprios recursos, que embora sejam limitados, da nossa própria potencialidade, precisamos fazê-lo", expressou Marrero.
Estas declarações ocorreram no âmbito de suas constantes trocas no território que representa como deputado da Assembleia Nacional do Poder Popular.
Sin embargo, as palavras de Marrero contrastam com seu histórico recente. Apenas dias antes, na inauguração da Feira Internacional de Turismo FITCuba 2025 em Havana, o primeiro-ministro voltou a responsabilizar o embargo dos Estados Unidos como a causa principal do colapso do setor na ilha, ignorando fatores internos como a infraestrutura obsoleta, a insegurança, a falta de suprimentos e a escassez de conectividade aérea.
O governo cubano tem mantido uma narrativa onde o "bloqueio" é apresentado como a explicação única para as dificuldades econômicas do país. No entanto, especialistas e operadores turísticos apontaram que a degradação do setor também se deve a inadimplência com fornecedores, corrupção, improvisação logística e um enfraquecimento institucional que afasta Cuba de seus concorrentes no Caribe.
O "autocontrole" como solução para a crise interna
Da mesma forma, as declarações de Marrero em Gibara não são uma exceção dentro do seu discurso oficial. Em abril passado, durante uma reunião do Departamento de Prevenção e Combate ao Crime do Conselho de Ministros, o primeiro-ministro fez um apelo para fortalecer a "cultura de autocontrole" dentro do aparato estatal.
Pero esta chamada ao "autocontrole" ocorreu em um contexto alarmante. Em 2024, foram detectadas mais de 7.700 infrações dentro das entidades estatais cubanas, revelando uma estrutura corrompida pela negligência, a desordem e a cumplicidade.
De acordo com Darío Delgado Cura, chefe do referido departamento, 56% das infrações detectadas estavam vinculadas a falhas internas de gestão, o que inclui problemas na organização, direção e supervisão.
“O crime muitas vezes é cometido porque o de dentro se confabula com o de fora, ou porque o sistema tem vulnerabilidades que são exploradas”, reconheceu Delgado Cura, colocando em dúvida a efetividade do tão proclamado controle revolucionário.
As cifras de delitos e irregularidades, somadas ao discurso oficial de Marrero, revelam um sistema estatal preso em uma crise de credibilidade. Enquanto o primeiro-ministro insiste que a solução é reforçar o "controle interno" e a "exigência", não houve menção a responsáveis sancionados, medidas concretas ou resultados eficazes de prevenção.
Incluso em setores críticos como o de energia, evidenciou-se um aumento alarmante no roubo de combustíveis, especialmente em postos de serviços da Cimex e pontos de venda de gás liquefeito da Cupet.
A venda ilícita desses recursos, cada vez mais escassos para a população, se tornou um negócio florescente sob o olhar cúmplice ou indiferente das autoridades.
O discurso de Marrero baseia-se no conceito de "resistência", mas a realidade desmente as consignas.
Enquanto os principais dirigentes insistem na necessidade de "autocontrole", "exigência" e "consciência", os crimes e as perdas de recursos estatais continuam se acumulando. As causas estruturais do problema, salários miseráveis, falta de incentivos, corrupção institucionalizada e um sistema que recompensa a obediência mais do que a eficiência, permanecem intactas.
Enquanto isso, a narrativa oficial se mantém. Os quadros devem ser mais exigentes, os trabalhadores mais conscientes, e os recursos do povo devem ser protegidos. Mas em um país onde há cada vez menos a proteger e mais a sobreviver, a cultura do controle parece mais um gesto simbólico do que uma solução real.
Perguntas frequentes sobre a situação econômica e social em Cuba
O que significa o termo "autobloqueio" mencionado por Manuel Marrero?
O "autobloqueio" refere-se às barreiras internas criadas pela própria gestão governamental que impedem o desenvolvimento econômico e social em Cuba. Manuel Marrero destacou a importância de que Cuba elimine essas barreiras internas, sugerindo que há aspectos que o país pode melhorar independentemente do embargo dos Estados Unidos.
Quais são as críticas ao discurso de Manuel Marrero sobre o embargo?
Embora o embargo dos Estados Unidos seja uma realidade, especialistas criticam que o governo cubano o utilize como única desculpa para os problemas econômicos do país. Ignoram fatores internos como a corrupção, a obsolescência da infraestrutura e a má gestão que também contribuem significativamente para a crise econômica da ilha.
Como afeta o "autocontrole" anunciado por Marrero na gestão estatal em Cuba?
O "autocontrole" refere-se à necessidade de que as entidades estatais melhorem seus processos de gestão e supervisão para combater a corrupção e a ineficiência. No entanto, os números mostram que as infrações e a corrupção continuam sendo prevalentes. Isso sugere que o foco no autocontrole não tem sido suficiente para resolver esses problemas estruturais.
Que medidas foram propostas para melhorar o setor turístico em Cuba?
O governo cubano anunciou incentivos para o investimento estrangeiro, a flexibilização de pagamentos em divisas e a promoção de novas modalidades turísticas. No entanto, a falta de condições mínimas para os visitantes e a infraestrutura obsoleta continuam sendo grandes obstáculos. As medidas anunciadas muitas vezes não têm produzido resultados visíveis na melhoria do setor.
Arquivado em:
