Apesar do clima de censura religiosa que persiste em Cuba, algumas comunidades católicas conseguiram, nesta Sexta-feira Santa, realizar procissões pelas ruas de suas localidades.
Estes eventos, que contaram com a autorização oficial, contrastam com outras expressões de fé que foram proibidas ao longo da mesma semana em diferentes cidades do país, o que coloca novamente em discussão o complexo e conflituoso vínculo entre o regime cubano e a Igreja Católica.
Uma das procissões autorizadas ocorreu em Havana, onde a Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, localizada na central rua Línea de El Vedado, recebeu a aprovação para levar seus fiéis para a rua.
Em um vídeo compartilhado nas redes sociais pela própria paróquia, observa-se um numeroso grupo de fiéis – com uma participação juvenil notável – caminhando em procissão, carregando imagens de Jesus Cristo e da Virgem Maria.
A marcha foi acompanhada até por um carro com alto-falantes, através do qual eram transmitidos trechos bíblicos e música sacra.
No contexto de uma Semana Santa em que foram registradas proibições de eventos religiosos, a permissão concedida a esta paróquia não parece indicar uma mudança de rumo, mas sim uma exceção dentro de um ambiente hostil.
Em Baracoa, a cidade primada de Cuba, também foi realizada uma procissão religiosa que culminou na Catedral Nossa Senhora da Assunção.

Meios locais oficiais cubanos cobriram o evento, descrevendo-o como uma expressão de "unidade comunitária" e "preservação da identidade cultural".
Esta retórica busca enquadrar a religião em uma narrativa patrimonial e controlada, sem mencionar as restrições impostas à liberdade de culto em outras partes do país.
Processões proibidas: o outro lado da Semana Santa
Enquanto em alguns lugares as procissões foram permitidas, em outros se fechou a porta para elas.
Em Trinidad, Sancti Spíritus, o regime proibiu a tradicional procissão do Cristo da Humildade e Paciência, uma manifestação de fé com mais de 100 anos de história.
A negativa das autoridades provocou a indignação do sacerdote Lester Rafael Zayas Díaz, que denunciou publicamente o fato por meio de suas redes sociais, qualificando-o como um "atropelo irresponsável".
Zayas explicou que o pedido para realizar a procissão foi entregue com quase dois meses de antecedência, ultrapassando amplamente os requisitos legais.
No entanto, as autoridades alegaram que "não era costume" realizar tal atividade na cidade - apesar do século de tradição que a respalda - e que o procedimento havia sido apresentado fora do prazo, argumento que foi refutado pelo próprio sacerdote com documentação em mão.
A resposta do regime não foi apenas administrativa. No dia em que deveria ocorrer a procissão, o parque em frente à igreja amanheceu tomado por agentes da Segurança do Estado vestidos à civil, alguns em motocicletas sem placa.
Para muitos, foi uma clara tentativa de intimidação, direcionada tanto ao clero quanto aos fiéis que se reuniram com a esperança de viver sua fé em comunidade. A repressão, embora não violenta neste caso, foi evidente: não se tratava de preservar a ordem, mas de frear qualquer expressão que pudesse escapar ao controle estatal.
Este não foi um fato isolado. Também foi cancelado, pelo segundo ano consecutivo, o Solemne Viacrucis do Domingo de Ramos em El Vedado, Havana, organizado pela Vicaría da Arquidiocese.
Por outro lado, no Santuário Nacional do Cobre, em Santiago de Cuba, ocorreu uma das celebrações mais multitudinárias da Semana Santa.
Centenas de pessoas participaram da bênção dos ramos e na liturgia do Domingo de Ramos, entre elas até membros da equipe de beisebol de Granma, que vieram em peregrinação.
A atitude do governo cubano em relação à Igreja Católica continua sendo marcada pela desconfiança e pela censura. Embora o discurso oficial reconheça formalmente a liberdade religiosa, na prática o acesso das comunidades de fé ao espaço público está restrito, condicionado e, em muitos casos, diretamente vetado.
Como escreveu o padre Zayas em sua denúncia: "Negar o exercício de um direito atenta, em última análise, contra todos os direitos, e isso torna uma sociedade injusta".
Sua mensagem, profundamente pastoral mas também política no melhor sentido do termo, foi compartilhada milhares de vezes nas redes sociais e se tornou um símbolo da dignidade diante da opressão.
A Semana Santa de 2025 em Cuba foi, mais uma vez, uma demonstração de contrastes. Enquanto alguns fiéis conseguiram manifestar sua espiritualidade em público, outros foram silenciados por um sistema que ainda vê na religião uma ameaça latente.
A Igreja Católica, com todos os seus desafios internos, continua sendo um dos poucos espaços onde a verdade, a justiça e a dignidade encontram uma voz.
Em uma ilha onde o controle do discurso continua sendo rigoroso, cada passo de uma procissão se torna um ato de resistência. Porque em Cuba, a fé não apenas move montanhas; também desafia muros.
Perguntas frequentes sobre as procissões da Semana Santa em Cuba
Por que o governo cubano autoriza algumas procissões e proíbe outras?
O governo cubano autoriza algumas procissões religiosas como uma exceção e não como uma mudança de política em relação à liberdade religiosa. A aprovação ou proibição de atividades religiosas está condicionada pelo interesse do regime em manter o controle sobre as expressões públicas de fé. Embora ocasionalmente se permita alguma manifestação, como ocorreu em Havana e Baracoa, outras procissões, como a do Cristo da Humildade em Trinidad, são proibidas, evidenciando um ambiente hostil em relação à Igreja Católica.
O que significou a proibição da procissão do Cristo da Humildade em Trinidad?
A proibição da procissão do Cristo da Humildade em Trinidad foi vista como um ato de censura e repressão religiosa por parte do regime cubano. Essa procissão, com mais de 100 anos de história, foi cancelada pelas autoridades, apesar de ter sido solicitada com antecedência. O sacerdote Lester Rafael Zayas Díaz denunciou a proibição como um "atropelo irresponsável", ressaltando a contínua repressão sobre as manifestações religiosas em Cuba.
Qual é a importância das procissões religiosas em Cuba?
As procissões religiosas em Cuba são expressões de fé profundamente enraizadas na cultura e na história do país. Representam não apenas um ato de devoção, mas também uma forma de resistência às restrições impostas pelo regime. Em um contexto onde a liberdade religiosa é condicionada, as procissões se tornam símbolos da luta pelo direito de expressar a espiritualidade de maneira pública e coletiva.
Como a Igreja Católica em Cuba tem respondido às restrições do governo?
A Igreja Católica em Cuba adotou uma postura crítica em relação às restrições do governo sobre as manifestações religiosas. Líderes religiosos denunciaram publicamente as proibições e convocaram a defesa dos direitos à liberdade de culto. Apesar dos desafios, a Igreja continua sendo um espaço onde se promove a verdade e a dignidade, oferecendo uma voz àqueles que buscam expressar sua fé em um ambiente repressivo.
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