Em uma demonstração adicional do controle rigoroso do regime cubano sobre a vida social e até mesmo sobre a dor alheia, a Segurança do Estado cercou o Cemitério de Colón na quarta-feira, impedindo que as pessoas assistissem à missa pelo menino Damir Ortiz, falecido em Miami após anos de negligência médica na Ilha.
A cerimônia, programada para às 16h00 na capela do cemitério, foi organizada por familiares, ativistas e cidadãos que desejavam prestar um último adeus a Damir.
No entanto, o ato de amor e despedida foi ofuscado por uma operação policial que incluiu patrulhas posicionadas em múltiplos pontos fora do cemitério e a detenção de cidadãos que tentavam chegar ao local.
Assim aconteceu com o ativista Alberto Turís Betancourt Pérez, que foi interceptado por um agente da Polícia exatamente antes de entrar no cemitério.
O fato foi registrado em vídeo e compartilhado pela ativista Idelisa Diasniurka Salcedo Verdecia, que denunciou: "Muitas pessoas não puderam entrar! Por quê? Aqui está. Acabaram de prender o Turís".
O jovem narrou o incidente e gravou o momento exato em que foi preso:
"Estou aqui no cemitério, a repressão é grande. Não deixam você passar, há patrulheiros em cada esquina, em todo lugar. Não é possível entrar", detalhou em uma transmissão ao vivo do local.
Impedidos de chorar
A ativista Lara Crofs também foi uma das vítimas do cerco repressivo.
Segundo denunciou nas redes sociais, foi retida em sua própria rua por agentes da Segurança do Estado que a vigiaram para garantir que ela não assistisse à missa.
"Me cercaram na quadra para que eu não pudesse sair. Segundo este novo oficial da SE, é regional", escreveu, acompanhando sua publicação com imagens das viaturas estacionadas em frente à sua casa.
"Isso não tem a ver comigo pessoalmente. Tem a ver com um povo que só quer demonstrar respeito e empatia", acrescentou Lara em uma mensagem repleta de impotência e frustração.
Apesar do assédio, a missa aconteceu.
A avó de Damir, Mercedes Báez, chegou acompanhada por um cuidador e recebeu as demonstrações de carinho de quem conseguiu superar o cerco policial.
O padre Jorge Luis presidiu a cerimônia, marcada por orações, choros e solidariedade. "Senhor, tem piedade", ouviu-se entre os presentes, em um clamor que também abrangeu todas as crianças doentes da Ilha.
Uma tragédia que poderia ter sido evitada
Damir Ortiz faleceu nos Estados Unidos, no Nicklaus Children’s Hospital de Miami, para onde foi transferido após uma longa luta de sua mãe, que durante anos denunciou a falta de medicamentos, diagnósticos incorretos e atendimento médico inadequado em Cuba.
As campanhas nas redes sociais, lideradas por sua mãe e apoiadas por ativistas no país e no exterior, conseguiram que fosse finalmente autorizada sua viagem para os Estados Unidos.
Mas foi tarde demais. Damir chegou em estado séptico, devido a uma bactéria resistente que contraiu na Ilha e que acabou tirando sua vida.
Em Miami, sua mãe recebeu o apoio de numerosos compatriotas que veem em seu caso não apenas uma tragédia pessoal, mas uma ferida aberta no sistema de saúde cubano, deteriorado e carente de recursos essenciais.
Politização da dor
A tentativa do regime de limitar o alcance da missa e criminalizar a solidariedade da cidadania com a família de Damir gerou uma onda de indignação. "Não se tratava de um ato político. Era uma despedida, uma oração por uma criança que sofreu o indescritível. Por que impedir isso?", questionou um cubano nas redes.
Desde há anos, os órgãos repressivos da Segurança do Estado têm se tornado um alvo para qualquer cidadão que manifeste uma voz crítica, mesmo que se trate de honrar a vida de uma criança.
A missa por Damir Ortiz não foi a exceção. O que deveria ser um evento respeitoso e pacífico tornou-se um símbolo de até onde pode chegar um governo para controlar qualquer ato, até mesmo o de chorar a perda de um ente querido.
Perguntas frequentes sobre o cerco policial em Cuba durante a missa por Damir Ortiz
Por que a polícia cubana cercou o Cemitério de Colón durante a missa por Damir Ortiz?
A polícia cubana cercou o Cemitério de Colón para evitar que pessoas comparecessem à missa por Damir Ortiz, uma criança falecida em Miami. Este ato faz parte do controle do regime sobre eventos que possam ser considerados como protesto ou crítica. A missa havia sido organizada por familiares e ativistas, o que gerou preocupação nas autoridades por possíveis manifestações de descontentamento social.
Quais obstáculos enfrentaram os participantes da missa por Damir Ortiz?
Os assistentes enfrentaram uma forte operação policial que incluiu patrulhas em múltiplos pontos do cemitério e a detenção de cidadãos que tentavam chegar ao local. Ativistas como Alberto Turís Betancourt Pérez foram interceptados e detidos, e outros como Lara Crofs foram retidos em suas próprias quadras pela Segurança do Estado.
Como impactou a repressão na cerimônia por Damir Ortiz?
A despeito da repressão, a missa por Damir Ortiz foi realizada, presidida pelo padre Jorge Luis e marcada por orações, solidariedade e lágrimas. No entanto, a presença policial e a detenção de cidadãos mancharam o que deveria ter sido um ato de amor e despedida, transformando-o em um símbolo da repressão governamental a qualquer forma de crítica ou resistência pacífica.
Qual foi a resposta da comunidade cubana diante do caso de Damir Ortiz?
A comunidade cubana respondeu com indignação e solidariedade diante do caso de Damir Ortiz. A história do menino mobilizou milhares dentro e fora da ilha, que participaram de campanhas para levá-lo aos Estados Unidos e apoiar sua família. O caso evidenciou as carências do sistema de saúde cubano e os obstáculos burocráticos para acessar atendimento médico adequado.
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