Continuam os protestos em Santiago de Cuba após mais de 20 dias sem eletricidade

Vizinhos de Santiago de Cuba protestam no bairro El Carmen há mais de 20 dias sem eletricidade após o furacão Melissa. Exigem serviços básicos enquanto o governo se mantém ausente.

Alfredo López Valdés, diretor da União Elétrica, e protesto em El Carmen, Santiago de Cuba.Foto © Capturas de vídeo/ AP

O cansaço, a desesperação e o abandono oficial voltaram a estourar em Santiago de Cuba. Desta vez foi o bairro El Carmen, na zona de Mar Verde, onde moradores exaustos há mais de 20 dias sem eletricidade decidiram sair às ruas e bloquear o tráfego, em uma nova protesto que reflete a gravidade do colapso energético na província.

As imagens compartilhadas pelo comunicador independente Yosmany Mayeta Labrada mostram homens, mulheres e famílias inteiras bloqueando a via principal por quase uma hora para exigir o básico: luz, água e a presença de alguma autoridade após a devastadora passagem do furacão Melissa.

Em um dos vídeos gravados no local, um vizinho resume a frustração coletiva: “Olha isso, no Carmen… tráfego parado para colocar a energia. É um pouco de energia, mas é só um pedacinho e eles não conseguem acabar de colocar a energia”.

A cena retrata o desgaste de uma comunidade que há semanas sobrevive entre ruínas, escuridão e silêncio governamental.

Nem Governo nem Empresa Elétrica: a solidão do povo

Segundo o relatório de Mayeta, no momento da protesto não havia aparecido nenhum representante do Governo municipal, do Conselho Popular, nem da Empresa Elétrica. Ninguém chegou para ouvir os vizinhos, que continuam vivendo como podem entre os escombros deixados pelo ciclone e a falta de água potável.

A desesperação contrasta com a versão oficial. A Empresa Eléctrica de Santiago de Cuba afirmou em 17 de novembro que 82% dos clientes do município já têm serviço e que todas as cabeceras municipais estão eletrificadas. Em El Carmen, no entanto, a realidade é outra: um bairro esquecido e ainda mergulhado na escuridão.

Captura do Facebook/Empresa Elétrica Santiago de Cuba

A protesto chamou a atenção até da agência AP, que reportou que a situação obrigou o diretor da União Elétrica, Alfredo López Valdés, a se deslocar para Santiago. Nas imagens divulgadas por esse meio, observa-se elementos policiais e do MININT removendo entulhos para tentar reabrir o caminho bloqueado pelos moradores.

É o mesmo padrão que se repetiu em protestos recentes: o Governo só aparece quando o povo se posiciona.

Um Santiago que explode repetidamente

A manifestação em El Carmen se soma a uma série de protestos que nos últimos dias agitaram Santiago de Cuba.

El domingo, residentes de Vista Hermosa e Altamira bateram panelas na plena escuridão exigindo eletricidade, enquanto denunciavam que as forças repressivas chegaram antes das equipes de eletricidade. Os vídeos publicados por ativistas mostram dezenas de pessoas gritando “¡corriente!” no meio da noite.

Horas antes, em La Loma de Chicharrones, outra multidão saiu às ruas após vinte dias sem eletricidade. A chegada imediata da Polícia e a subsequente presença da empresa elétrica foram interpretadas por muitos como uma confirmação adicional de que em Cuba, os problemas só são atendidos quando há protestos.

No centro da cidade, moradores denunciaram no sábado extorsões e cobranças de até 15 mil pesos para reconectar a energia, uma prática que aumentou ainda mais a indignação.

Também, na noite desta segunda-feira, a comunidade de San Pablo, no distrito de José Martí, perdeu a paciência. Após quase 20 dias sem eletricidade e vivendo em meio a carências extremas, dezenas de moradores saíram às ruas principais entre gritos e panelas.

Testemunhos enviados dos edifícios do próprio distrito afirmam que a resposta do estado foi imediata: patrulhas, viaturas e efetivos policiais militarizaram a área em questão de minutos para conter ou prender os manifestantes.

Até o momento, não se sabe se houve detenções. O que está claro é que San Pablo, um bairro vulnerável e afetado pela pobreza, disse basta.

“A resistência do povo tem um limite, e a dignidade também exige luz”, escreveu Mayeta, resumindo o grito coletivo de uma comunidade cansada de sobreviver na escuridão.

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