Em um clima político marcado por acusações mútuitas, ameaças latentes e uma escalada militar que já ultrapassa três meses, Nicolás Maduro voltou a misturar espetáculo e discurso político em um ato celebrado em Miranda, para a posse dos Comitês Bolivarianos de Base Integral (CBBI).
Desta vez, o momento mais comentado não foi o anúncio oficial, mas sim sua interpretação - breve e cuidadosamente teatralizada - de "Imagine", a icônica canção de John Lennon.
O ditador venezuelano chamou em seu discurso para "fazer tudo pela paz", uma frase que utilizou como introdução para pedir ao ministro da Comunicação, Alfred Nazareth, que lhe lembrasse a letra da canção.
Ato seguinte, entoou o verso mais conhecido do refrão: "Imagine all the people". A melodia continuou a tocar enquanto os presentes levantavam os braços de forma coordenada, acenavam bandeiras e repetiam o gesto da paz, imitando o governante, que se movia ao ritmo da canção.
Maduro qualificou "Imagine" como um "hino para todas as épocas", recomendou aos jovens que procurassem a letra original e proclamou a "memória eterna" de Lennon como um "presente para a humanidade".
Após o sinal musical, acrescentou uma proclamação solene: em "nome de Deus Pai todo-poderoso", decretou a paz para a Venezuela, o Caribe e a América do Sul, insistindo que a região enfrenta ameaças externas.
O evento fazia parte da instalação dos CBBI, grupos comunitários que, segundo o próprio governo, têm entre suas funções resguardar a "segurança da pátria" diante de supostos riscos provenientes do exterior.
Este desdobramento organizativo ocorre em paralelo a uma mobilização militar ininterrupta há três meses, apresentada oficialmente como resposta à "ameaça" americana.
Nos últimos dias, Caracas intensificou suas denúncias contra Washington, acusando-o de tentar semear um conflito no Caribe.
A crítica se concentra especialmente na operação militar Lança do Sul, anunciada pela Administração Trump sob o argumento de combater o narcotráfico proveniente da América Latina.
Para o chavismo, esta operação faz parte de uma estratégia para aumentar a pressão sobre a Venezuela e seu aliado, a Colômbia, e até mesmo Maduro afirmou que os Estados Unidos estariam dispostos a "bombardear e invadir" o país.
A encenação musical contrastou com a dureza do discurso político que a envolvia. Enquanto o público celebrava a homenagem improvisada a Lennon, o governante reforçava a narrativa de um país em vigilância permanente diante de uma agressão externa.
Nesse contexto, sua interpretação de "Imagine" - um canto global à convivência pacífica - serviu como um envoltório simbólico de um ato cujo eixo real foi a consolidação de estruturas de base destinadas a enfrentar cenários de tensão crescente.
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